O “caso Tabata Amaral” e a crise de identidade da esquerda brasileira

O “caso Tabata Amaral” e a crise de identidade da esquerda brasileira


Por Eduardo Borges


Cada vez mais se confirma a tese de que o Brasil está vivenciando uma conjuntura ‘sui generis’ em termos político. Em uma votação nível 7 a 1, o governo Bolsonaro aprovou em primeiro turno sua reforma da Previdência com o acachapante placar de 379 a 131.



O impacto dessa vitória só será sentido em longo prazo pela sociedade. Por enquanto, estamos naquela fase de assimilação do golpe, seja dos que foram golpeados, que precisam rapidamente construir uma contraofensiva, seja dos vencedores, que não podem se dar ao luxo de prolongar por muito tempo o gostinho da vitória.


Mas esse texto não é sobre a reforma da Previdência especificamente. É sobre a conjuntura sui generis do Brasil, antecipado nas primeiras linhas desse texto. Diante da derrota da oposição e do grande desdobramento que essa reforma terá na vida cotidiana dos brasileiros, principalmente no que diz respeito ao futuro, o tema mais debatido dos últimos dias foi o voto de uma jovem parlamentar do PDT chamada Tabata Amaral.


Juntamente com outros sete deputados do partido, Tabata Amaral não seguiu a decisão da legenda ao se posicionar favorável à reforma. O mundo caiu sobre sua cabeça. O tribunal das redes sociais rapidamente tratou de “investigar, “julgar” e “condenar” a jovem parlamentar. Os articulistas da mídia alternaram entre apoios e críticas. Intelectuais encontraram um tema para exercitar seus neurônios, subutilizados em tempos de pautas obscurantistas. Mas é o caso de se perguntar: O que estaria por trás dessa neo-polêmica chamada Tabata Amaral?


Leia também:

Onde está a Social-democracia brasileira?


Aproximo-me de uma resposta quando passo a analisar o episódio com base na tese de que a política partidária no Brasil, seja de esquerda ou de direita, está vivenciando uma profunda crise de identidade e de renovação de quadros. Enquanto a direita estabelece a risível estratégia da “nova política”, a esquerda alterna-se entre assegurar a longevidade de alguns quadros tidos como históricos, e uma renovação meio abrupta e pouco consistente incorporando como “heróis” subcelebridades de reality show ou jovens como Tabata Amaral, com trajetória pessoal e intelectual que se aproxima do discurso da “meritocracia individual” e de certa “genialidade prematura”, situação sempre muito bem valorizadas na sociedade brasileira.


Diante disso a reação em relação ao “caso Tabata” vai muito mais além do que o “simples” fato de uma deputada que trai a decisão coletiva do partido. Faz-me lembrar de uma frase atribuída ao saudoso Leonel Brizola, fundador do PDT de Tabata, de que a política ama a traição, mas odeia o traidor. Complementando o velho cacique trabalhista, eu diria que isso fica ainda mais verdadeiro quando o “traidor” é um nome com visibilidade midiática.


Mas que leitura podemos fazer de Tabata Amaral? Que se trata, grosso modo, de uma jovem de origem humilde, com diploma em Harvard – a escola queridinha dos emergentes liberais brasileiros – apoiada por “empreendedores ativistas” como o milionário Paulo Lemann e com um ativismo político desenvolvido nas franjas da política tradicional. Tabata Amaral é parte da geração millennials, que se afastou dos partidos tradicionais e busca exercitar sua militância nos chamados “movimentos”, no caso dela o “Acredito”. Uma rápida olhada no perfil dos membros do “Acredito” vamos encontrar uma média de idade de 30 anos, e com biografias muito semelhantes todas valorizando a formação universitária prematura, trajetórias profissionais vencedoras e certo orgulho de vitórias pessoais como aprovação em concurso nas primeiras colocações.

Esse é o universo e a mentalidade que forjou a parlamentar Tabata Amaral. Ser vinculada a uma legenda partidária é apenas uma adaptação legal para se jogar o jogo do sistema político brasileiro. Isso fica mais claro quando sabemos que diante do risco de expulsão da deputada dos quadros do PDT o “Acredito” esboçou a reivindicação do mandato para o movimento.


Leia também:

Repensando a postura da esquerda na criação do ‘mito’ Bolsonaro


Essa nova geração de políticos a qual Tabata Amaral faz parte talvez seja a melhor expressão de uma verdadeira “nova política” brasileira. O discurso e o modus operandi dessa “nova política” se materializa na justificativa de Tabata diante da acusação de traição, disse ela: “O sim que eu digo à reforma não é um sim ao governo. E também não é um não a decisões partidárias”. Além disso, quem não se lembra da polêmica em torno da posição dela em relação ao autoproclamado presidente venezuelano Juan Guaido? Ali ela já dava pistas de como conduziria seu mandato. Contudo, se a confusa ou ingênua (em alguns momentos a inexperiência cobra seu preço) posição sobre Guaidó aproximava Tabata de uma narrativa da direita, sua posição sobre questões vinculadas à educação e sua “lacração” sobre o ex ministro Velez, a jogou no olimpo esquerdista. Entendeu o imbróglio que a velha esquerda se meteu ao incorporar como parte dela sujeitos com o perfil de Tabata Amaral?


Onde fica a chamada fidelidade partidária para esse novos atores da política nacional? Se partirmos da premissa de que ainda é a estrutura partidária o único agrupamento com legitimidade jurídica de representar uma linha de pensamento ideológica no interior do espectro político brasileiro, como essa estrutura vai conseguir lidar com os atores políticos, como Tabata Amaral, forjados nos chamados “Movimentos”?


A atitude de Tabata na votação da reforma da Previdência pode até ser considerada uma “traição” aos valores tradicionais de funcionamento da política partidária, mas, no fundo, não é a estes valores que Tabata e Cia devem fidelidade. Sua fidelidade é principalmente às suas convicções individuais, formadas no debate aparentemente pautado na construção de consensos sem que para isso seja necessário abrir mão de suas individualidades.


Leia também:

A esquerda precisa de um divã?

Portanto, a “traição” de Tabata Amaral passa a ser apenas uma questão de ponto de vista. Para quem enxerga a política sob a ótica dita tradicional talvez tenha razão de exigir de Tabata a fidelidade irrestrita às decisões do partido. Quem está tentado entender a política de uma ótica progressista, mas buscando compreender que a renovação dos quadros passa por incorporar novos atores e suas novas práticas de jogar o jogo, tende a ter uma visão mais condescendente com o voto da jovem parlamentar.


“por que existe a preocupação dela ir para os braços da direita em caso de expulsão?”


Outros, ainda no campo da esquerda, se utilizam de um argumento – em defesa de Tabata Amaral – que entendo meio contraditório quando acusam setores da esquerda de criticaram a deputada jogando-a nos braços da direita e que uma possível expulsão do PDT pode concretizar tal possibilidade. Cabe a pergunta: Se Tabata Amaral é realmente um membro interessante e promissor do quadro progressista da política brasileira, a ponto de merecer uma defesa de setores esquerdistas, por que existe a preocupação dela ir para os braços da direita em caso de expulsão? Se a premissa é verdadeira, aparentemente esse risco não deveria existir.


O “Movimento Acredito” e as novas formas de ativismo político; o PDT e o partidarismo tradicional; o sistema político brasileiro e o futuro das relações políticas e ideológicas no Brasil são os elementos que estão nos bastidores do “caso Tabata Amaral”. O caso em si, o da “traição política” é, como disse o velho Brizola, um antigo caso de amor da política brasileira.


O que realmente está por trás do “polêmico” voto de Tabata Amaral, ou seja, a derrota acachapante da esquerda e o fôlego vitorioso do projeto conservador e reacionário do bolsonarismo estão sendo ingenuamente eclipsado por esse “problema” marginal de uma esquerda que ainda não se deu conta da necessidade de resolver o mais rapidamente possível sua crise de identidade, sendo isso condição sine qua non e imprescindível para a própria sobrevivência do Brasil enquanto nação soberana e civilizada.


Para a esquerda se Tabata Amaral é traidora ou não ou é de esquerda ou não, esse é o menor dos problemas. A esquerda tem que enxergar Tabata Amaral apenas como um novo ator (ou atriz) da nova conjuntura política brasileira que também trouxe os Frotas e Kataguiris, ainda que seja injusto colocar a jovem deputada no mesmo nível dos dois citados. O grande equívoco que gerou toda essa polêmica em torno do voto da pedetista foi a esquerda ter criado em torno dela uma expectativa que me parece vinculada à carência de novos quadros. Nesse caso, é sempre bom lembrar o velho ditado que diz que “o tamanho da decepção é proporcional ao tamanho da expectativa”. Em outras palavras, ao bater em Tabata, uma parte da esquerda parece atirar no que vê e acertar o que não vê.



Eduardo Borges é doutor em História pela UNEB