O clipe de Mallu, e o fio desencapado da negritude

Alex Antunes

As acusações de racismo feitas ao novo clipe de Mallu Magalhães, “Você Não Presta”, mostram um choque educativo entre mentalidade hipster e a militância negra. Aqui cabe primeiro lembrar que o termo hipster não surgiu pejorativo – muito ao contrário.

Resumindo, hipsters eram os brancos americanos que, no imediato pós-segunda guerra, já sacavam que a cultura negra forneceria um código de comportamentos mais desinibido (tanto sexualmente quanto interessado no uso de drogas, como a maconha) e estético (o jazz, iniciando uma de suas fases explosivas de desenvolvimento criativo). Um código bem mais, err, hipster do que a cultura média branca, careta.

Já aí há um sutil deslocamento do hep (hep cat), o negro cool em si mesmo, para o hip (o branco que o espelha, em busca da coolness). Mas uma ala branca radicalizaria na autoralidade e criaria o grupo literário beat que, ainda que se funde nessa origem de apropriação negra (beat = batida, ritmo), acabou por conectar um imaginário libertário branco próprio. Que, por sua vez, desembocaria num fenômeno de proporções sociais gigantescas no último terço da década de 1960, com o movimento hippie.

Tudo isso é um esboço bastante simplório, mas necessário para situar o termo historicamente – e conectá-lo finalmente ao conceito de hype. Que vem a ser uma espécie de conspiração cultural, usando as mídias (tanto as corporativas quanto as sociais; se considerarmos o fanzine, publicação independente, como precursor das redes virtuais), para criar sucessos artísticos instantâneos.

Notem que, principalmente na Inglaterra, o hype também não surgiu como um conceito negativo, associado a algum tipo de corrupção. Era antes o reconhecimento de que a cultura pop é (ou foi) uma interface entre a indústria e a percepção dos fluxos sociais em tempo real, ou quase, “fazendo” fenômenos como o punk, o new romantic, o hip hop, o techno, a house music, o trance e assim por diante. Todos esses gêneros musicais que citei tem um forte enraizamento, são uma espécie de síntese de linhagens na história da música e da cultura ao longo do século 20.

Hep, hip, hippie, hype, ou seja, um trajeto desde a coisa em si, o sobre a coisa, o expandindo a coisa socialmente, até o criar outras coisas, porque sim (o que levaria ao porque sim playba e opressivo do lulz, mas essa já é outra história. A questão é que esse é um arco cultural que começa e se encerra no século 20; o que se chama de hipster hoje é um apropriador bem mais ingênuo mas (ou por isso mesmo) mais perigoso.

Mallu Magalhães sempre foi um fenômeno meio incompreensível para mim – não que eu tenha me detido muito sobre ele, a não ser hoje. E não tenho muito interesse pelo meio indie, de onde ela surgiu. Mas ela seria um exemplo (nacional e tardio) de hype, ao bombar de maneira rápida e intensa a partir de um meio totalmente independente, virando objeto do desejo de gravadoras. Muito nova, aos 15, despontou como cantora e compositora folk branca (um arquétipo dos anos 1960), de voz pequena e figura frágil, mas com uma presença interessante. Não deixava de ser uma nova mulher urbana, que não precisava fazer uso de nenhuma simbologia agressiva (ou supostamente agressiva – e aí penso em Pitty, por exemplo) para se firmar em seu espaço.

Sempre com essa imagem meio diáfana, Mallu continuou aparecendo na mídia de vez em quando. Às vezes com alguma controvérsia, como no casamento com um cara 24 anos mais velho, Camelo, ex-Los Hermanos. Com quem se mudaria para Portugal alguns anos depois, onde montariam um grupo (Banda Do Mar). Essa aura de fragilidade combinada com segurança artística se reforçaria com a revelação de que ela tem síndrome vasovagal, que provoca desmaios em situações de estresse.

O fato é que Mallu (e ela em dupla com ele) mantiveram uma constância estética, uma sensibilidade de certa delicadeza pop (como poderemos ver mais adiante em alguns clipes). Ainda que, desde o folk, pudesse ser considerada uma produção derivativa. E derivativa não só na música: Mallu ficou por exemplo com peças do acervo de Regina Boni e de sua grife sessentista Ao Dromedário Elegante, criada por sugestão dos tropicalistas – e que vestiu a jovem Rita Lee, ainda nos Mutantes, uma evidente referência visual da moça.

Los Hermanos, a banda de Camelo, tem um papel interessante no pop nacional. Herdou algo da pegada “ética” de Renato Russo e da Legião Urbana, mas combinando isso com uma reengatada no gosto pela música brasileira (que tinha caído totalmente em prestígio junto à juventude das décadas de 1980 e 90). Falando em nomes como Chico, Tom Zé e Belchior, Los Hermanos foram parte da redescoberta da verve desses e de outros como Novos Baianos e Mutantes, que estavam quase esquecidos, ou como Jorge Ben e Tim Maia, que alternavam momentos de maior e menor exposição.

Portanto provavelmente não erraremos em atribuir à influência de Camelo uma certa troca de referências de Mallu, passando do folk (aqui uma interpretação do “Folson Prison Blues” de Johnny Cash, 1957) para a afro-brasilidade de Toquinho e Vinícius (“A Tonga Da Mironga Do Kabuletê”, de 1970, a canção inaugural da parceria). Se alguma dessas interpretações faz muito sentido, aí é com o gosto do ouvinte.

E nada disso seria um grande problema – até o lançamento de “Você Não Presta”, primeira música do novo disco de Mallu, o quarto, nesta semana. Se assistirmos em série aos clipes de “Shine Yellow” (2009), “Velha E Louca” (2012) e “Mais Ninguém” (da Banda Do Mar, 2014), notamos o mesmo ambiente feliz, ainda que com dancinhas desajeitadas e um toque de melancolia juvenil.

“Você Não Presta” se encaixaria mais ou menos confortavelmente nessa linhagem, ou como um amadurecimento dela. Numa questão de simpatia, ou não, pela artista. O que deu errado, então? É que, desta vez (e talvez um pouco inadvertidamente, por estar morando em Portugal, onde o clipe foi produzido), Mallu fez uma apropriação mais controversa. Sem ter nunca tocado antes em qualquer questão racial ou social mais desconfortável, a cantora de repente se fez cercar de dançarinos negros e ambientes de periferia.

Assim como tinha acontecido com Miley Cyrus, a ex-cantora juvenil que tenteou ganhar “credibilidade de rua” em 2013 trazendo dançarinas de hip-hop, posando de maconheira e sexualmente mais agressiva, a coisa soa forçada. A referência, no caso de Mallu, pelo lado musical é Elza Soares (sua produção deu uma decalcada no arranjo de “Não Me Diga Adeus”, de 1969). Para além da ousadia de buscar inspiração nessa força da natureza, pelo lado visual também surgem elementos icônicos do hip hop, como os dançarinos, bairros com construções inacabadas, grades, turma em torno de um carro com faróis acesos (imagem que remete ao ensaio fotográfico do disco mais recente dos Racionais MCs).

A militância estética negra, que tem andado aguerrida, caiu matando. Pegou particularmente mal a combinação de uma letra “de exclusão” – falando em não convidar alguém para sua festa, para seu terreno (quase terreiro) – com imagens em que ela não se veste, não dança e não interage com os “negros decorativos”. Aqui nesta matéria, um levantamento, sempre interessante, de clichês raciais.

Para mim, pegam particularmente mal dois detalhes. Um é a imagem de um caminhão-salão em que ela segue, iluminada como em uma pista neon, enquanto é seguida pelo elenco negro em bicicletas (já o ativismo achou mais complicado um momento em que o “não convido você porque você não presta” sincroniza com o elenco atrás de grades). O outro detalhe é o release em que ela declara querer “colocar para fora uma energia de atitude, uma onda tão urbana quanto selvagem”.

Tudo isso poderia ser uma manobra desastrada e/ou distraída. Mas em alguns takes Mallu usa uma camiseta do Oscar 2002, exatamente aquele em que (ao contrário de edições recentes mais embranquecidas, o que causou polêmica) venceram não apenas Halle Berry e Denzel Washington, como também foi homenageado Sidney Poitier, o primeiro ícone negro de Hollywood. Ou seja, alguém estava tocando no assunto muito deliberadamente.

Graças ao clipe, eu finalmente entendi uma expressão que o movimento negro tem utilizado, ao falar em “corpos negros” (ao invés de pessoas negras). No vídeo, com esses corpos esvaziados deles mesmos, cênicos e besuntados, Mallu quer tratar de uma potência física (“atitude”, “selvageria”) que ela mesma não tem – aliás seu charme sempre foi constituído exatamente do oposto, a assunção da fragilidade.

Ela acabou tocando em um nervo exposto, ou em um fio desencapado. Uma coisa é essa aproximação superficial e fetichista que os hipsters fazem com os objetos vintage de seu desejo (eu costumo dizer de brincadeira que os empreendimentos hipsters se parecem sempre com negócios cênicos, sem nenhum enraizamento). Outra é aplicá-la a pessoas – e pessoas cuja cor já foi escravizada. Aí a abdução vira ofensa.

Spike Lee tem um filme genialmente sarcástico, A Hora do Show (Bamboozled, 2000), em que um roteirista negro de TV tenta produzir deliberadamente um fracasso, incluindo em seu programa os mais ostensivos e ofensivos clichês racistas da indústria cultural (incluindo a famigerada black face) e, sem querer, acaba fazendo um enorme sucesso.

A sociedade brasileira é mais cordial (aka dissimulada), produzindo esquisitices como essa “Festa” (do gueto branco, da tribo pálida) de Ivete Sangalo (2001). Não é um clipe ruim, mas notem o casting oposto ao do de Mallu – e igualmente na contramão da letra. Já houve um hype do soul-samba-rock há uns anos, e Mallu chegou nele bastante atrasada (porque veio de camelo, segundo um amigo meu gozador).

Eu curto esse choque entre a inconsequência da mentalidade hipster, e a fúria patrulheira da nova militância negra. Mesmo quando essa última reage um tom acima, causando mal estar, não deixa de ser uma briga entre morte (a estética publicitária) e vida (a vida mesmo). Ainda mais quando falamos de música pop, essa longa história de apropriação e diluição.

Escrito com insights e infos de Hudson Rabelo, Sady Menescal, Sandra Pyrus Communis e Jovane Maia. Siga-me no Twitter (@lex_lilith)