'O coração é o último a morrer': Margaret Atwood cria nova distopia para criticar mundo atual

Crise econômica, desemprego em massa, violência urbana e desigualdade social; fascínio tecnológico, objetificação do outro, fetichismo da mercadoria e nostalgia do passado. Poderíamos estar falando da vida cotidiana em qualquer uma das metrópoles da wasteland contemporânea, mas estes são os elementos que constituem o ponto de partida da distopia de Margaret Atwood intitulada “O coração é o último a morrer” (“The heart goes last”), de 2015, recém traduzida para o português por Geni Hirata e publicada pela editora Rocco.

Francisco Bosco: 'As redes sociais operam por meio de uma agitação permanente do nosso narcisismo'

Flip: evento volta ao formato presencial, em Paraty, e anuncia data para 2022

Se as distopias costumam nos apresentar uma realidade distante, repleta de projeções pessimistas sobre um tempo futuro e espaço geográfico indeterminados, o romance de Atwood concentra-se, antes, no esvaziamento subjetivo decorrente de uma sociedade não muito diferente da nossa em suas obsessões e crises preferenciais. Os personagens caricaturais, as interações previsíveis, as análises insuficientes dos acontecimentos e a comicidade dos fatos não nos deixam enganar: Atwood concebe uma distopia do tempo presente, de um tempo em que a incapacidade analítico-interpretativa desses sujeitos quaisquer, sem sobrenome ou identidade estável, converte-se em destino tragicômico do mundo.

As coisas iam relativamente bem para Stan e Charmaine, os nossos protagonistas. Ambos estavam empregados: ele trabalhava como assistente de qualidade em uma empresa de robótica, “testando o módulo Empatia nos modelos automatizados de atendimento ao cliente” — em “O coração é o último a morrer”, a civilização despedaçada sustenta sonhos utópicos de robôs eficientes e humanos “empáticos” —, enquanto ela se dedicava à área de entretenimento e eventos de uma casa de repouso.

Casados e apaixonados, compraram uma casa, o que significou muitas dívidas e a necessidade de mais trabalho. “Depois, tudo desandou. Como de um dia para o outro” — indício da fina camada de estabilidade social sobre a qual projetamos o amanhã. Num mundo pós-emprego semelhante ao nosso, Stan e Charmaine perdem tudo e passam a viver improvisadamente num carro, sujeitos às crescentes formas de violência. Pior: o sexo — valor supremo desta distopia — vai gradativamente perdendo seus efeitos encantatórios no desconforto de um carro exposto a tudo e a todos.

Diante desse contexto, colocados contra a parede, entrar no Projeto Positron não lhes pareceu má ideia. A concepção é relativamente simples: todos os habitantes da comunidade, organizados a partir de casais, devem passar um mês dentro e um mês fora de uma prisão, garantindo empregabilidade plena e elevadas taxas de produtividade. Quando um casal está na prisão, o outro casal — seus “substitutos” anônimos — passa a ocupar a sua residência.

A intercambialidade de habitantes livres e prisioneiros não deve espantar: como numa versão atualizada do alienista machadiano, em Positron ninguém é culpado ou inocente; ali todos estão a serviço do bem comum, um valor associado à proteção contra as ameaças do mundo externo e a uma vida de conforto quando dos períodos fora do presídio. O recado de Atwood é claro: nossa liberdade e segurança assentam-se sobre o sofrimento bastante concreto de um outro que devemos ignorar.

Tudo começa a cair por terra quando Stan e Charmaine passam a ter fantasias sexuais contínuas com os seus “substitutos” desconhecidos. Como duas crianças diante de brinquedos proibidos, eles se aventuram além dos limites autorizados pelo experimento, e, dessa forma, descobrem as camadas interditadas da realidade profunda do projeto. Chegamos ao núcleo cômico-distópico do romance: menos que do trabalho forçado no presídio, a verdadeira fonte de renda de Positron, reservada especialmente para seus líderes, vincula-se a uma série de atividades ilegais, que vão desde o tráfico de órgãos a bonecos prostitutos — os “prostibôs” — fabricados sob medida para atender aos mais diversos tipos de fetiches sexuais. Se a miséria é sobretudo material para alguns, ela é intelectual para todos: a elite econômica, embora desejosa de prolongar a vida e os prazeres, mostra-se presa a uma cultura retrô kitsch, fascinada por imitadores de Elvis e Marilyn Monroe.

“Positron tecnicamente significa a contrapartida aritmética do elétron (...) A atitude positiva era o mais necessário para resolver nossos problemas atuais”. Por meio de sua excelente distopia do tempo presente, Atwood parece nos lembrar a todo instante que, quando os discursos terapêuticos tomam conta do corpo social, quando a nossa sorte é decidida por “algum programa de palestras motivacionais de um think thank globalmente financiado”, isso significa que o indivíduo tornou-se descartável e que o mundo já acabou há bastante tempo.

André Chechinel é professor de Letras da Unesc e coautor de “Ensinando literatura” (Parábola, 2022)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos