O corpo de um soldado russo e a fria, mas humana, necessidade de olhar

Há um cara morto ali.

Ele está completamente carbonizado, como se tivesse sido soldado ao lado de dentro do veículo militar russo quando explodiu.

Há quanto tempo esse soldado está ali? Há tempo suficiente para se tornar um monumento nesta pequena vila no Leste da Ucrânia, Husarivka, onde algumas pessoas caminhavam sob uma fria chuva de primavera, mesmo sabendo que estavam passando diante de uma tumba.

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Os russos, naquele momento em abril, tinham deixado a área havia duas semanas, deixando os traços de sua retirada espalhados pelas estradas e campos abertos, além de carros de civis atingidos por balas e valas cavadas às pressas em quintais.

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Aquelas duas semanas foram tempo suficiente para que os cerca de 400 moradores que ainda viviam ali entendessem o que, exatamente, aconteceu com eles desde o final de fevereiro: a guerra, a ocupação, a batalha para retomar o vilarejo, suas próprias perdas, e o corpo deixado para trás dentro de um veículo blindado destruído.

O corpo estava tão carbonizado que não consegui saber quantos anos tinha, mas achei que deveria ser jovem, uma vez que estava sentado no compartimento de transporte das tropas: na parte de trás do blindado de transporte de pessoal, onde alguns homens se agacham, segurando seus rifles, esperando até que algum oficial mais velho apareça e dê ordens para que saiam e ataquem, ou defendam.

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Talvez tenha ficado sentado ali escutando a troca de tiros do lado de fora da fina blindagem de seu veículo, um BMP, que, alguns momentos depois, não foi capaz de parar o projétil que cortou o metal como se fosse uma lata.

Duas semanas depois, ele continua ali, com seus últimos pensamentos já distantes de seu crânio, hoje rachado e molhado pela chuva.

Se fosse um general, seus soldados teriam tentado retirá-lo dos destroços enquanto o veículo queimava.

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Os russos abandonaram os corpos de muitos de seus militares, uma prática surpreendente que viola um código comum entre combatentes. Isso é sinal de alguma desordem? Moral baixo? Ou foi, neste caso, algo mais pessoal?

Talvez se ele fosse popular no pelotão, o cara que te busca no bar às quatro da manhã sem fazer perguntas, seus colegas teriam tentado retirá-lo do veículo em chamas. Ou ao menos retirar o corpo, para que fosse enterrado sob céus mais familiares.

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Ou talvez tenha sido algo tão catastrófico que apenas depois dos sobreviventes chegarem a um local seguro eles olharam ao redor e perceberam, por Deus, que ele não estava ali, eles sabiam que não havia nada a ser feito. Ele estava ali. Preso.

Estou olhando para ele, pensando sobre tudo isso, tentando entender se ali é a sua caixa torácica, ouvindo os disparos de artilharia ao longe e me questionando se estão ficando mais próximos ou mais distantes.

Husarivka foi um obstáculo em um avanço fracassado da Rússia, deixando a vila e suas fazendas produtoras de leite, dentre outras coisas, brevemente ocupada pelos russos — e atingida por pesada artilharia ucraniana — até que os ucranianos avançaram até ali, no final de março.

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Provavelmente, foi nessa ofensiva que o BMP foi destruído. Agora, a linha de frente estava a apenas alguns quilômetros dali, e agora nós estávamos fazendo a mesma coisa que os residentes de Husarivka: observando e anotando os destroços e as perdas.

Em algo que se tornou uma característica deprimente em guerras modernas, fala-se muito em estatísticas de combate, como se a violência tivesse se tornado tão rotineira e mecânica, de forma tão rápida, que os números de números de mortos e feridos agora são apresentados como dados esportivos.

Para as populações da Rússia e da Ucrânia, esses números sem rosto, apenas observados pelo resto do mundo, são mães, filhos, amigos. Seus quartos vazios precisarão ser pintados e novamente mobiliados, ou deixados sem modificações, aguardando um retorno que nunca acontecerá.

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E para aqueles que estão vivendo nessa destruição e morte, os escombros da batalha trazem seu próprio fascínio depois que os combates chegaram ao fim e os alertas de ataque aéreo ficaram silenciosos. Inevitavelmente, os restos dos tanques destruídos e outros veículos foram cercados por observadores que se questionam sobre os destinos daqueles militares; tentando juntar aqueles últimos momentos ou olhando, em choque, o que as pessoas são capazes de fazer umas às outras.

Essa vontade, em tempos de guerra, de olhar para destroços, feridos ou até para os mortos, parece inevitável, algo que você precisa ter a certeza de que realmente aconteceu. Mas não tenho a capacidade de julgar.

Então, lá eu estava há algumas semanas, olhando para esse soldado morto no Leste da Ucrânia, analisando sua tumba de metal retorcido, cápsulas de balas e o que sobrou de seu corpo incinerado, algo que pode ser resumido em uma só declaração.

Há um cara morto ali.

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