O crioulo doido e a vergonha alheia

Foram oito minutos de clichês – samba, mestiçagem, índios, alegria, ginga e malemolência. Mas os clichês vieram distorcidos por uma certa auto-ironia – a modelo se torna miss, a dança xavante deságua em Chico Science, a malandragem não oculta a violência da miscigenação, Iemanjá vem cercada pela nossa erudição possível e modernista.

Renato Sorriso durante o encerramento da Olimpíada de Londres. (Reuters/Sergio Moraes)
Os diretores do show da Rio 2016 no encerramento das Olimpíadas, o cineasta Cao Hamburger e cenógrafa Daniela Thomas, usaram a famigerada expressão “samba do crioulo doido” para indicar qual seria o norte da apresentação. Arriscado de cara, uma vez que a expressão, título de um samba de Stanislaw Ponte Preta composto para fazer troça da obrigatoriedade de usar temas históricos nos sambas-enredo, remete àquilo de que queremos/devemos nos livrar: da história unívoca, da versão dos dominadores sobre o processo de nossa formação e, sim, como não, do olhar condescendente do machobrancosemprenocomando sobre os outros do Brasil.

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O risco, no entanto, parece ter sido calculado: se nós mesmos, brasileiros, somos todos doidos ao pensar na nossa história e, portanto, em quem somos, podemos/devemos continuar cada vez mais doidos. E crioulos, na acepção de mestiços, misturados. E, sim, do samba, no sentido de que o samba, bem ou mal, é a matriz e a antimatriz da música brasileira contemporânea.

Assim, o que se viu naqueles oito minutos foi uma festa cuja beleza vinha, justamente, desse jogo do clichê e do comentário ao clichê. Ou, como disse como disse um amigo, o Tiago Soares, nas redes, “nossos clichês são lindos, caras, aceitem”.

Começou com ginga, claro, do gari Renato Sorriso, a imagem desse povo “que canta e é feliz”, apesar de tudo – a começar pela profissão real de Sorriso, famoso alvo do desprezo elitista de Boris Casoy. A irreverência – inadequação? – da alegria fora de hora e de lugar provoca a corrida de um segurança em direção a Sorriso, que continua a sambar com sua vassoura e “ensina” o inglês os passos misteriosos do samba.

O DJ britânico Fatboy Slim se apresenta na cerimônia de encerramento dos Jogos de LondresO gari, de mestre-de-cerimônias, passa, então, a conduzir o segurança naquilo que é o Brasil para “inglês ver” – o sincretismo religioso com afrodeusa Iemanjá cantando trecho das “Bachianas”, do modernista Villa-Lobos na voz de Marisa Monte; índios com cocares tecnológicos numa dança xavante, o surdo roncando na bateria de escola de samba e mulatas no estilo nega-maluca-Elza-Soares.

Mas então, entra B-Negão encarnando Chico Science, com o “Maracatu Atômico”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, e, de certa forma, um Brasil pós-folclórico (thanx pela lembrança, Xico Sá!) começa a se insinuar. Seu Jorge, nosso Brasil de exportação moderna para bem e para o mal, engata o hino da pilantragem de Wilson Simonal “Nem Vem que Não Tem”.

Já é meio Carnaval no palco, com a modelo Alessandra Ambrósio revivendo Marta Rocha, mas antes de Marisa Monte voltar com “Aquele Abraço”, o refrão de “O Canto das Três Raças”, de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte lembra Clara Nunes e, sim, uma das melhores canções sobre as dores da mestiçagem – as delícias, digamos, já estavam no palco.

O Rio de Janeiro lindo, de “Aquele Abraço”, tema do exílio de Gilberto Gil justamente para Londres, começa com Marisa e recebe as vozes de B-Negão e Seu Jorge, engrossando o coro que chega à apoteose com a chegada de Pelé, o Rei… das Copas do Mundo de futebol, o esporte que o Brasil resolveu chamar de seu.

Para além da provocação em ressuscitar a ideia do “samba do crioulo doido” (em tempo: é assim que se discute o politicamente correto; desafiando um tanto os seus excessos e não com o mimimi de sempre), a questão por detrás da apresentação da Rio 2016 era nosso temor enorme de como seremos representados: Pelo exotismo? Pelo folclore? Pela ginga e malemolência? Pelo povo brasileiro? Mas o povo mesmo? Mesmo? E brasileiro, como? Ou pelos nossos gênios da raça?

Vergonha alheia
Traduzindo em termos musicais: seremos representados por Michel Teló, Ivete Sangalo e Claudia Leitte? Ou por Ismael Silva, João Gilberto e Caetano Veloso? Na transição de Londres 2012 para Rio 2016, o aspecto musical da nossa representação era particularmente crucial, uma vez que a exuberância (e excelência) do pop inglês se mostrou toda na cerimônia de abertura — tão boa que provocou um amigo, o cronista norte-americano Matthew Shirts, a fazer o seguinte comentário: “Não adianta, pop inglês não tem para ninguém”.A modelo Alessandra Ambrósio (C), entre Seu Jorge (D) e Sorriso (E), na apresentação brasileira do Rio como cidade …

Nos dias seguintes à cerimônia de abertura, nosso temor de como seremos, em termos simbólicos, no Rio 2016, atingiu um daqueles paroxismos que só as redes sociais sabem provocar. Ao meme “imagina na Copa”, somamos o suor frio “imagina a nossa cerimônia de abertura, que vergonha, vai ser horrível”, como bem resumiu Nina Lemos.

Nessas horas, o que mais nos apavora nas possibilidades de representação é passarmos pela “vergonha alheia”, ou seja, esse mecanismo de condenação do outro tão violento que dizemos estar sentindo a vergonha que o outro deveria, na nossa concepção, estar sentindo por qualquer que seja a razão: pela incompetência, pela inadequação, pelo excesso, pela “pobreza” de espírito…

O “samba do crioulo doido” de Stanislaw Ponte-Preta é filho dessa “vergonha alheia”; com o ar condescendente e algo paternalista muito em voga em certa inteligência brasileira, particularmente nos anos 50/60, de quem entende de onde vem a doidice (afinal, não se poderia exigir do crioulo criador de samba que soubesse direito quem eram os vultos de nossa história para quem virassem temas de escola de samba), zomba-se da precariedade, aderindo a ela, mas, ao mesmo tempo, botando as coisas nos devidos lugares (de certa forma, o über nacionalismo de José Ramos Tinhorão faz movimento muito semelhante).

Já o de Hamburger/Thomas parece andar em outra direção, algo que minha geração (deles também) pode começar, por contraste, a chamar de “orgulho alheio”. Pós-tropicalista, conhecemos as “relíquias do Brasil” já filtradas pela ironia pop da Tropicália (ela mesmo, tributária do pop britânico) e tivemos de refazer nossa ideia de nacionalismo aos trancos e barrancos, desviando do patriotismo dos generais, do nacionalismo mais áspero do nacional-popular e do entreguismo fácil da indústria cultural. Nesse percurso difícil por campos mais que minados, começamos a reconhecer representações que não são nossas por, digamos, direito e respeito (uma vez que brancos, de classe média, mais escolarizados, filhos de outras tradições culturais etc.), mas às quais podemos aspirar a pertencer.

O debate, evidentemente, não tem nada de novo – está no centro da discussão sobre cultura brasileira desde o século 19. De uns anos para cá, a disputa em torno de qual Brasil vai se mostrar como o Brazil se intensificou e ampliou, desde que a história anda se encarregando de dar algumas reviravoltas. A proximidade de dois grandes espetáculos esportivos-midiáticos, a Copa em 2014 e as Olimpíadas em 2016, só faz acirrá-lo.

Veremos. Por enquanto, meu voto: Michel Teló e Chico Science, por favor.

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