O desafio do namoro lésbico no subúrbio: 'Sou a única?'

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A colunista lésbica Fay Barrett diz que conhecer outras mulheres não é fácil fora de uma cidade grande. (Fornecido)
A colunista lésbica Fay Barrett diz que conhecer outras mulheres não é fácil fora de uma cidade grande. (Fornecido)

Texto de Fay Barrett

"Onde estão as lésbicas?", gritei em minha cidade natal, a arborizada Hertfordshire.

Voltei de Londres, três anos atrás, após terminar um relacionamento. Depois de viver a maior parte da vida adulta na metrópole, ser ativa na cena queer e ter vários relacionamentos, agora eu estava procurando o amor entre as lésbicas de cidades menores.

“Talvez eu as impressione com a arrogância da cidade grande”, pensei presunçosamente.

Logo ficou claro que não havia muitas pessoas para impressionar, cortejar ou passar horas assistindo a episódios de Gentleman Jack.

É mais surpreendente ainda quando até mesmo Londres não oferece muitos atrativos para lésbicas. Só encontrei um bar com esse nicho. No entanto, com uma infinidade de “encontros” para mulheres queer, namorei, fiz amigos e construí uma pequena comunidade de minorias sexuais.

Agora mesmo, estava fazendo uma pesquisa no Google por “eventos lésbicos perto de mim” e não encontrei nada.

Onde estão vocês?

De repente me ocorreu que: “Sou a única gay da cidade”.

Pelo menos, é o que parece. Aqui, as lésbicas são um tipo de criatura mitológica. As pessoas já ouviram falar delas, mas alguém realmente já viu alguma?

Não há bares gays. Nenhum. Mesmo se eu encontrasse uma dessas criaturas lendárias, para onde eu a levaria? A um restaurante casual? No bar da esquina? Claro que tem uma noite gay em algum pub da cidade, mas é provável que haja mais homens homossexuais. Além disso, quase sempre surge a famosa pergunta, que para mim, acaba com o clima.

Fay Barrett diz que as mulheres lésbicas parecem ser 'criaturas míticas' em sua cidade natal. (Fornecido)
Fay Barrett diz que as mulheres lésbicas parecem ser 'criaturas míticas' em sua cidade natal. (Fornecido)

Ela é gay ou hétero?

Como vou saber se ela é queer? As pessoas não costumam andar por aí com camisetas com os dizeres "sou sapatão". Tem algum tipo de guia local para lésbicas que poderia poupar o constrangimento de conversar com uma garota hétero? Para heterossexuais, é muito mais fácil encontrar um grande amor. Pode ser na balada, em um bar e até mesmo no corredor de macarrão instantâneo do supermercado.

A menos que eu esteja em um evento claramente rotulado como "lésbico", queimo meus neurônios para descobrir se a pessoa pode ser queer. E, em uma cidade com muito menos lésbicas por quilômetro quadrado do que Londres (era só o que faltava), meu dilema piora.

Claro que eu poderia assumir o estilo Don Juan no corredor do supermercado, mas vou ficar envergonhada e constranger a outra pessoa se meu faro não estiver tão aguçado. Além disso, eu me assumiria publicamente.

Então, fiz o que qualquer solteira sensata (uso essa palavra vagamente) do século XXI faria. Recorri aos aplicativos de relacionamento e meu raio de busca se ampliou em vários quilômetros, o que trouxe as lésbicas de Londres de volta ao radar. Droga! Tenho que me aventurar em Londres, pagar tarifas de transporte absurdamente caras e voltar para casa mais cedo a tempo de pegar o último trem de volta?! Eu pensei. Sim, eu tenho, essa é a realidade. Para ter alguma chance de encontrar uma namorada, primeiro teria que visitar a cidade de onde me mudei. Mas, voltando ao começo…

Quem sou eu mesmo?

Olá, me chamo Fay, tenho 41 anos e me orgulho em dizer que me assumi gay há oito anos. Eu sabia que era homossexual desde criança, mas, por várias razões (como crescer nos anos 1980 sob leis que condenavam a homossexualidade), levei muito tempo para me aceitar.

Para entender a situação que mulheres queer que vivem fora das cidades enfrentam, você precisa saber algumas coisas...

É como se pescássemos em um local muito menor. Enquanto os heterossexuais têm o mar inteiro para encontrar sua lagosta, temos algo parecido como um lago. Ou poça de lama se você não morar em uma cidade grande.

De acordo com o Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido (2019), os heterossexuais representam 93,7% da população, enquanto a comunidade queer apenas 2,3%. Nesse número, há um percentual ainda menor de mulheres queer. E quantas delas você acha que vivem fora das grandes cidades?

Um encontro entre lésbicas em um bar hétero não é simples como pode parecer. Vamos supor que eu saio com a Laura* (nome alterado para preservar a identidade) e a química é arrebatadora. Sentimos arrepios toda vez que nossos dedos se tocam e não conseguimos tirar os olhos uma da outra.

O mesmo acontece com os heterossexuais ao nosso redor, que não param de olhar para a gente. Para ser franca, não estamos fazendo nada, não estamos nos beijando no meio do bar. Somos apenas duas pessoas em um encontro.

Só que não somos. Nunca seremos apenas duas pessoas em um encontro porque somos duas mulheres em um bar hétero de cidade pequena. Nossa presença desperta a curiosidade de quem está no local.

Fay Barrett diz que namoro lésbico em um bar heterossexual tende a atrair todo tipo de atenção indesejada. (Fornecido)
Fay Barrett diz que namoro lésbico em um bar heterossexual tende a atrair todo tipo de atenção indesejada. (Fornecido)

A fantasia do homem heterossexual

Um grupo de homens olha para nós, sussurrando e rindo. Eles vêm até a nossa mesa, querendo fazer parte da conversa. Eles fariam isso com um casal heterossexual em um encontro? Não, também acho que não.

A situação é incômoda. Fico hiperalerta, atenta a um possível problema. Não consigo relaxar porque não estamos sozinhas neste encontro. Nós estamos sob os holofotes e, por experiência própria, sei que isso pode se tornar algo desagradável. Muitas vezes, há uma tendência sexual agressiva de alguns homens heterossexuais que encontram lésbicas. Não estamos totalmente seguras nesses locais. Mas, sem bares gays, quais as opções que nos restam?

Mas este não é o único incidente que pode acontecer.

Conhecendo mulheres bicuriosas

Namorar fora de Londres não faz parte da minha realidade. Posso contar o número de encontros que tive em minha cidade natal nos dedos de uma mão.

Conheci Sarah* on-line em um aplicativo de namoro para lésbicas. Ela mora na minha cidade e é muito simpática. Aposto que você deve estar pensando que tirei a sorte grande. Mas não foi bem assim.

Nós nos encontramos em um lindo café à beira do rio. O sol estava brilhando e as vacas estavam no pasto. Mas, de repente ela me diz que não é realmente gay. Ela acha que pode ser bissexual porque se sente atraída por mulheres, mas nunca namorou uma antes.

E entendo, já me senti assim. Ficamos ansiosas em um encontro com uma lésbica assumida (sim, há um cartão de associada, que vem com uma camisa xadrez e um par de crocs). É difícil atravessar o "portal" lésbico quando você só namorou homens. Por esse motivo, entendo por que ela não me contou antes.

Mas, como ir a dates é muito mais difícil para uma mulher queer, é extremamente frustrante não ser informada sobre isso antes do encontro. É uma perda de tempo. E claro, poderia conhecer alguém incrível que não se assumiu, mas eu já me sinto pronta para ter um relacionamento sério e encontrar uma companheira. Como isso vai funcionar se eu me relacionar com alguém que ainda está no início dessa jornada?

Isso acontecia 5% do tempo que morei em Londres. Aqui, acontece mais de 90%. Estou começando a pensar que sou algum tipo de guru lésbica para novatas (o que não é desagradável). Uma mulher com quem saí acabou me dizendo que tinha namorado, mas perguntou se poderia continuar saindo comigo se não desse certo com o cara. Mas não, não sou um estepe.

No entanto, nem tudo é tragédia e tristeza. Estou namorando a mulher mais incrível, inteligente, linda, sexy e amorosa há três meses e estou absolutamente apaixonada.

Onde eu a conheci? Londres…O desafio do namoro lésbico no subúrbio: 'Sou o único gay da vila?'

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