O desastre que Musk construiu ao desistir de comprar o Twitter

No último dia 30 de junho, pouco mais de uma semana antes de Elon Musk anunciar que havia desistido de comprar o Twitter, ele admitiu aos executivos da companhia que não havia lido os detalhes de como a rede calcula o número de usuários falsos. Esse é um ponto-chave no negócio. Quantos bots, quantos robôs, quantas arrobas no Twitter não são pessoas de verdade. Desde o início, Musk argumentava que um de seus objetivos na compra da empresa era acabar com estes bots. Agora, alega que o Twitter se negou a apresentar uma conta precisa de quanta gente falsa existe na plataforma e que, por isso, desistiu do negócio.

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Um negócio de US$ 44 bilhões jogado fora porque, segundo Musk, o problema das contas falsas talvez seja grave. O mesmo problema que ele reconhecia existir desde o início. O problema que, aliás, primeiro o motivou a comprar o Twitter. E, enquanto o bilionário se queixava em público do assunto, apresentava em privado completo desinteresse em analisar a questão mais detalhadamente.

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O Twitter já entrou com um processo contra Musk. Foi à Corte de Chancelaria do estado de Delaware para obrigá-lo a terminar a aquisição com que se comprometera. Esse tribunal, indicado para quaisquer disputas no contrato firmado por ambas as partes, costuma ser bastante rigoroso. De cara, o acordo prevê uma multa de US$ 1 bilhão caso a compra não ocorra por desistência de um dos signatários.Musk terá sorte se precisar pagar apenas esse um bi. Dificilmente sairá desta confusão sem a imagem manchada, tanto a pública quanto a reputação nos ambientes em que dinheiro circula.

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De acordo com o processo aberto pelo Twitter, o bilionário começou a dar para trás na negociação quando as bolsas de valores no mundo despencaram. As ações da Tesla, sua companhia de automóveis elétricos, caíram da casa de US$ 1,1 mil para US$ 700. Para efetivar a compra, ele teria de vender muito mais ações do que seu cálculo inicial. Ao mesmo tempo, as ações do Twitter também caíram da casa dos US$ 40 para US$ 20. No início, desconfiou-se que Musk vacilava para negociar um valor menor. Ocorre que ele assinou um contrato prometendo pagar US$ 54,20 por ação. Nenhum acionista do Twitter tem nenhum motivo para reduzir o valor. É papel assinado.

Apenas uma vez na história a corte de Delaware deu razão a um comprador que desistia de um negócio com que se comprometera. Ele provou imensa má-fé e um festival de mentiras por parte de quem estava vendendo. Não é o caso aqui. Mas Musk pode ter de pagar bem mais que a multa. Afinal, suas ações desde que o acordo foi firmado, fazendo comentários jocosos e humilhando publicamente o CEO, contribuíram para desvalorizar o Twitter. Os acionistas, agora, desejam reparação. Um juiz pode determinar uma indenização compensatória, que pode chegar rápido à casa da dezena de bilhões de dólares. Ou, caso o juiz considere difícil fazer o cálculo do tamanho do prejuízo, pode também obrigá-lo a concluir a compra.

Musk construiu uma imagem pública de Tony Stark, o Homem de Ferro dos quadrinhos e do cinema. Um engenheiro brilhante que constrói um império industrial tecnológico, resolve grandes problemas do mundo e vira quase super-herói. Mas portou-se de forma tão errática, indigna, que fará muita gente pensar duas vezes antes de fazer negócios com ele.

Se condenado a indenizar os acionistas do Twitter, será obrigado a vender num repente uma quantidade grande de ações da Tesla. O que desvalorizará os papéis da empresa barbaramente. E, assim, atrairá outro processo, de acionistas dessa empresa, que terão também muitas razões de queixa. Se sair pelo um bi, terá saído barato.

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