O desfile da Gucci em Milão e o manifesto ciborgue de Donna Haraway

Ana Beatriz Rosa
Em desfile em Milão, a Gucci apresentou modelos carregando as suas próprias cabeças.

Em 1984, a filósofa e bióloga feminista Donna Haraway publicou um de seus trabalhos mais famosos, o Manifesto Ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX.

Trinta e quatro anos mais tarde, o texto, que critica os limites das identidades de gênero e reflete sobre a influência da ciência e da tecnologia no Ocidente, serviu como inspiração para o estilista Alessandro Michele criar um espetáculo à parte em plena passarela da semana de moda de Milão.

Para a grife italiana, o elemento ciborgue pensado por Haraway, e agora revisitado nas passarelas, é um "símbolo de uma possibilidade emancipatória por meio da qual podemos decidir nos tornar quem somos."

"Gucci Cyborg é pós-humana: tem olhos nas mãos, chifres de fauno, filhotes de dragão e cabeças duplicadas. É uma criatura biologicamente indefinida e culturalmente ciente. O último e extremo sinal de uma identidade miscigenada em constante transformação."

Na narrativa criada por Michele, a passarela ganhou ares de centro cirúrgico, as cabeças dos modelos se tornaram acessórios e o público foi convidado a uma volta ao mundo com direito a filhotes de dragão.

Nas roupas, o estilista explorou os limites dos papéis binários de gênero. "Nós existíamos para nos reproduzir, mas já passamos dessa fase. Estamos vivendo em uma era pós-humana, com certeza; está em andamento", argumenta Alessandro Michele sobre a apresentação do desfile.

Veja algumas imagens do desfile. Em destaque, alguns trechos do Manifesto Ciborgue.

"Um ciborgue é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção. Realidade social significa relações sociais vividas, significa nossa construção política mais importante, significa uma ficção capaz de mudar o mundo."

"As coisas que estão em jogo nessa guerra de fronteiras são os territórios da produção, da reprodução e da imaginação....

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