'O despertar da primavera': nova tradução é oportuna diante do avanço de ideias retrógradas

Escrita em 1891, “O despertar da primavera: uma tragédia infantil”, do ator, dramaturgo e romancista alemão Frank Wedekind, ganha agora tradução assinada por Vinicius Marques Pastorelli, responsável também por notas da edição. Com algumas cenas censuradas na época, o texto levou uma década e meia para estrear nos palcos devido, basicamente, à pouca reverência de Wedekind “aos cânones teatrais vigentes” e aos temas abordados, como a “descoberta sexual por adolescentes e os tabus sociais em torno do sexo”, desafiando a sociedade rígida da Alemanha Imperial.

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O incesto, por exemplo, é um dos primeiros assuntos tratados: Moritz, um dos adolescentes protagonistas, discute com um colega sobre a espontânea relação sexual entre animais. O colega, todavia, acrescenta: “Entre seres humanos também! Estou dizendo, Moritz, se seu filho e sua filha dormirem na mesma cama e se os primeiros impulsos masculinos aparecerem sem aviso, sou capaz de apostar que...”.

Mais de um século se passou desde a estreia da peça e ela não apenas segue atual como também se transformou, em 2006, em um sucesso estrondoso na Broadway. O sucesso se repetiu no Brasil em 2009, quando estreou por aqui sob a direção de Charles Möeller e Claudio Botelho, os primeiros diretores autorizados a fazer uma montagem “não réplica” da Broadway.

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Mas o que explicaria o interesse em uma peça que fala de adolescentes do fim do século XIX? Eis a resposta de Möeller em uma entrevista de 2009: “O tempo passou, mas a essência do homem se mantém oprimida muitas vezes, especialmente diante da família, da Igreja e do Estado.”

Em 2022, com a escalada de ideias conservadoras e retrógradas por aqui, a peça de Wedekind se torna ainda mais oportuna, pois discute educação, religião, aborto, homossexualidade e suicídio, entre outros temas que constituíam tabus sociais à época e hoje voltaram a ser.

Inquietações adolescentes

Há em “O despertar ...” uma crítica feroz ao sistema educacional que prioriza apenas o “cumprimento do dever”, desvinculado da vida social da qual deveria fazer parte. “América Central! Luís XV! Sessenta versos de Homero! Sete equações!” são lições que eles devem saber. Não sem razão, Moritz afirma: “Não podemos pensar em nada sem que uma lição se intrometa [...] Era melhor ser cavalo de tração que aturar a escola!”

Moritz parece ter razão quando lembra que nem mesmo o “Grande léxico de conversação para as classes educadas associadas aos doutos, homens de Estado, artistas e técnicos”, editado de 1839 a 1855 e publicado até 1984, serve para explicar as inquietações pelas quais os jovens passam: “Nada além de palavras”, diz o adolescente, “Nem mesmo uma única explicação! E em mim essa vergonha! — De que serve um guia de conversação para as classes educadas que não tem nada a dizer sobre a coisa mais simples da vida?”

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Se na peça os jovens falam abertamente sobre todos os temas, os adultos, na escola e fora dela, preferem virar as costas para determinadas questões, como se o simples fato de abordá-las fosse por si só imoral. Não há, portanto, diálogo entre as gerações; os jovens conversam entre si e seguem perdidos em suas indagações, culpando-se por sentimentos intrínsecos à puberdade: “Meus amados pais mereciam ter filhos cem vezes melhores do que eu [...]. Lembro que aos 5 anos eu já tiritava quando uma dama de copas decotada aparecia. Essas reações passaram. Mas hoje, em compensação, não posso falar com nenhuma garota sem pensar em indecências”, diz Moritz.

Essa falta de diálogo tem consequências terríveis: a gravidez prematura de uma menina, culpada pela falta de informação que deveria ter recebido dos adultos. “Por que você fez isso comigo?”, pergunta-lhe a mãe depois de dizer à filha e aos conhecidos que seus sintomas de gravidez eram de anemia.

O fato é que os adultos substituem o diálogo e a reflexão pela “férrea disciplina, princípios e uma pressão moral a que deverá se adequar em todas as circunstâncias”. Para os jovens tudo é passível de mudança, enquanto seguirem refletindo: “[...] a dúvida enervante de ainda ter tudo”, diz um fantasma ao jovem que visita o cemitério. É justamente essa dúvida enervante que os mantêm vivos.

Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de “Cenas do teatro moderno e contemporâneo” e “Minha pequena Irlanda”

“O despertar da primavera: uma tragédia infantil”. Autor: Frank Wedekind. Tradução: Vinicius Marques Pastorelli. Editora: Temporal. Páginas: 192. Preço: R$ 48. Cotação: Ótimo.

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