O drama dos haitianos 'presos' em pequena cidade do Acre após fechamento de fronteiras

Leandro Machado - Da BBC News Brasil em São Paulo

Uma pequena cidade do Acre, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia, tem vivido uma situação dramática nos últimos dias como uma das consequências do fechamento de fronteiras por conta da atual pandemia de coronavírus.

Há três dias, um grupo de pelo menos 105 imigrantes haitianos — entre eles, dezenas de crianças — ocupa as ruas e praças do município de Assis Brasil, a cerca de 340 km de Rio Branco.

Esse número, no entanto, deve aumentar substancialmente. Segundo o prefeito da cidade, Antonio Barbosa de Souza (PSDB), ônibus com cerca de 200 imigrantes haitianos são esperados na rodoviária local nas próximas horas. Esse fluxo deve continuar nos próximos dias.

Assis Brasil, de 12 mil habitantes, é uma rota tradicional para a entrada e saída de pessoas do país. Diariamente, ônibus desembarcam no local com pessoas dispostas a deixar o Brasil, rumo ao Peru e à Bolívia.

Dessa vez, centenas de haitianos estão tentando entrar no Peru, mas o país latino-americano fechou suas fronteiras para tentar impedir a disseminação do coronavírus — já foram registrados 145 casos por lá. O mesmo ocorre com a Bolívia, que teve 12 casos confirmados.

Com a barreira, os imigrantes decidiram permanecer na cidade acreana, ocupando ruas e praças, esperando uma nova definição sobre as fronteiras.

Para o prefeito Antonio Barbosa de Souza, a situação do município é "desesperadora" e "dramática", porque a maior parte dos imigrantes já não tem mais dinheiro nem comida. A cidade, diz, não tem estrutura nem verba para abrigá-los de maneira adequada.

"Muitos estão nas ruas e nas praças, dormindo no chão, pedindo comida", disse o prefeito à BBC News Brasil, por telefone. "Mandei um áudio pedindo socorro para o governador (Gladson Cameli, do Patriotas)."

Segundo ele, parte dos haitianos estão alojados nas dependências da prefeitura e em escolas públicas da cidade — as atividades dos colégios estão paralisadas como precaução contra o coronavírus. Até essa quarta-feira, o Acre tinha registrado três casos de infecção.

Nessa quarta, a prefeitura de Assis Brasil conseguiu dar marmitas para os haitianos, mas, segundo o prefeito, não há mais alimentos para o restante da semana.

"Estou agora com a mão na cabeça sem saber o que fazer, sem saber onde vou colocar essas pessoas para dormir e o que vamos dar para elas comerem. Somos uma cidade pequena, não temos condições. Com a questão do coronavírus, tudo fica pior, pois os imigrantes estão em grupos grandes", afirmou o prefeito.

Segundo Otoniel de Souza Martins, secretário de assistência social de Assis Brasil, os imigrantes têm conseguido visto de saída do país no posto da Polícia Federal no município, pois o governo federal não fechou as fronteiras na área.

"Os haitianos vêm até aqui, pagam o documento para sair, mas, quando chegam no Peru, acabam barrados", diz Martins, também por telefone.

O prefeito Antonio Barbosa de Souza afirma que pediu auxílio do governo do Acre e de órgãos federais.

"Se as pessoas continuarem a vir para Assis Brasil achando que vão conseguir deixar o país, não sei o que pode acontecer. Vai ser um desastre. O governo precisa definir o que fazer com a fronteira", disse.

Nas redes sociais, grupos de haitianos compartilharam mensagens pedindo para compatriotas desistirem de tentar deixar o país pela fronteira com o Peru e a Bolívia, citando que o fechamento das fronteiras vizinhas e a situação complicada em Assis Brasil.

A BBC News Brasil entrou em contato com o governo do Acre na noite dessa quarta, mas não obteve resposta.

Por telefone, um membro da gestão Gladson Cameli afirmou que uma reunião emergencial seria realizada para tratar da situação na cidade, mas que ainda não havia ações concretas programadas.

Na terça, o presidente Jair Bolsonaro anunciou o fechamento do Brasil com a Venezuela, mas manteve a entrada e saída abertas para outros países.

"Alguns acham que a palavra 'fechar fronteira' é uma palavra mágica. Se a gente tivesse poder de fechar a fronteira como muitos pensam, não teria entrada de arma nem de droga no Brasil. Temos 17 mil quilômetros de fronteira", disse Bolsonaro sobre a possibilidade do fechamento de outras fronteiras.

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