O encadeamento do racismo estrutural

O racismo não se encerra em “não gostar de negros”, mas situa-se em condições estruturais que perpassam as dimensões subjetivas, políticas e econômicas

Imagem: obra do artista Brooke DiDonato, parte da série de fotografias surrealistas “Blank State”. Fonte: Instagram/ saatchi_gallery.

Por Ricardo Corrêa

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“Ninguém no mundo, ninguém na história, conseguiu sua liberdade apelando para o senso moral das pessoas que o oprimiam.”

Assata Shakur

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É preciso cautela nos debates acerca do racismo para que as indignações que nos atingem não centralizem somente o aspecto moral, dado que o racismo não se encerra em “não gostar de negros”, mas situa-se em condições estruturais que perpassam as dimensões subjetivas, políticas e econômicas de nossa sociedade.

O fato é que as discussões quase sempre adquirem aquele aspecto moralista e deixam de lado as raízes da opressão, tornando-se equivocadas em se tratando do mundo social (BOURDIEU, 1977). Por isso, é necessário escaparmos a essa armadilha e pensarmos criticamente a maneira de organização social que define como norma o “ser branco”, e como desvio da norma o “ser negro”. Em princípio, reconhecemos que a reflexão acerca do núcleo da problemática racial encontra vários obstáculos, devido à presença do racismo em quase todos os lugares. Mesmo assim discutiremos questões básicas que poderão ampliar os horizontes daqueles que estão na luta antirracista.

A dimensão subjetiva do racismo opera no campo das representações, atingindo tanto as pessoas negras como as “não-negras”. Os programas de televisão servem como exemplo de penetração no imaginário das pessoas. É comum vermos negros estigmatizados e estereotipados como bandidos, miseráveis, animalescos, sexualizados, alcoólatras nos programas de TV. Como consequência, os telespectadores naturalizam as condições que envolvem os negros, causando até estranhamento quando estão em posições diferentes das mencionadas.

Mas, a naturalização também aparece na ausência; são poucas as pessoas que questionam a não presença de negros nas sessões do Supremo Tribunal Federal ou como formandos dos cursos de medicina. Deste modo, a autoestima das pessoas negras é atingida, pela dificuldade em se desprenderem da construção imputada no imaginário da sociedade, o que afeta suas escolhas profissionais e afetivas. Como ensina a psicóloga Ecléa Bosi (2004) “Essas imagens têm autoridade sobre nós: e para nos invadirem elas nos pedem apenas o trabalho de ficarmos acordados.”

Sob outra perspectiva, os brancos compreendem que aqueles papéis representam uma verdade e passam a reproduzir discriminações e preconceitos contra os negros. Assim, tudo que é negativo ou de “menor valor” é considerado da natureza do próprio ser negro, ou seja, a sombra do racismo científico nos perturba em pleno século 21. A subjetividade se cruza com a dimensão política. Esta se refere à integração do negro no acesso aos direitos e oportunidades na esfera estatal e privada da mesma maneira ou na mesma proporção que o ser branco é integrado e autorizado a integrar-se.

Constatamos que, na esfera de políticas públicas, os projetos encaminhados são insuficientes e apresentam fragilidades para conseguirem mudar — estruturalmente — as condições da população afro-brasileira. Os formuladores desses projetos são externos ao grupo étnico em desvantagem, portanto, procuram atender somente as demandas dos grupos em que estão inseridos — esta seria uma das hipóteses do fracasso. O racismo institucional tem essa característica, e conforme postulou Hamilton e Carmichael (1967) “trata-se da falha coletiva de uma organização em prover um serviço apropriado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica”.

No mês passado, o empresário negro Crispim Terral foi retirado à força por policiais de uma agência da Caixa Econômica Federal, em Salvador – BA, a pedido do gerente do banco, de acordo com o relato e vídeo divulgado pela vítima nas redes sociais. Esse episódio foi um exemplo do racismo que saiu da esfera da subjetividade individual para a esfera da ação concreta, mostrando mais uma vez ao negro que ele não é considerado cidadão neste país.

Outro exemplo ocorreu na sentença de uma juíza de São Paulo, na qual a magistrada afirmou que o réu não possuía “estereótipo de bandido”, por ter “pele, olhos e cabelos claros”. Note a gravidade da declaração: é a opinião de uma representante do sistema que aplica as leis no país. Isto reforça a presença do racismo institucional como motivação do encarceramento do Rafael Braga, em 2003, e da Babiy Querino, em 2018. Ambos negros.

Completando as intersecções que resultam no processo do racismo estrutural está a dimensão econômica. A subjugação do negro, decorrente do que já expusemos, é a razão para que suas vidas sejam rebaixadas e revestidas de sofrimento. Os negros são os mais vulneráveis socialmente, e as atividades profissionais que os acolhem são caracterizadas com baixo valor social — salários menores e setores precarizados. Portanto, as condições econômicas lhes condicionam a morarem em bairros periféricos, com péssimas condições de habitações e maior índice de criminalidade. A educação que alcançam é em níveis inferiores quando comparados à população branca, e a saúde pública acessada é péssima. Inúmeras pesquisas apontam a desigualdade social entre negros e brancos, em que o primeiro grupo atinge o pior nível de desenvolvimento social.

O racismo estrutural tem potencializado um ciclo interminável de subjugação dos negros. Não conseguiremos combater esta ordem se continuarmos a acreditar que gostar do ser negro basta para que resolvamos os problemas pertencentes às desigualdades raciais. A luta das mulheres e homens negros demanda atuação de várias frentes para que consigamos sair desse ciclo, requerendo novas construções que fortaleçam a identidade e permitam avançarmos nas estruturas que sustentam o preconceito e a discriminação racial, como sintetizou o antropólogo Kabengele Munanga (2003) “(…) entender melhor como o racismo opera, desvendando suas raízes intelectuais e demonstrando ponto a ponto a sua dinâmica e metamorfose contemporânea a fim de desenvolver novas estratégias para combatê-lo”.

Ricardo Corrêa é Professor e Especialista em Educação Superior

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, E. Entre a opinião e o estereótipo. Novos estudos CEBRAP. São Paulo, no 32, 1992

BOURDIEU, Pierre. O Poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

CARMICHAEL, S. e HAMILTON, C. Black power: the politics of liberation in America. New York, Vintage, 1967, p. 4.

MUNANGA, K. (2003). Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. Palestra proferida no 3º Seminário Nacional Relações Raciais e Educação – PENESB-RJ.

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