O escândalo com xarope adulterado que matou pelo menos 157 crianças na Indonésia

Agustina Melani e sua única filha, Nadira
Agustina Melani e sua única filha, Nadira, que morreu em agosto de insuficiência renal

Quando Nadira, de 17 meses, ficou gripada, sua mãe, Agustina Maulani, comprou um xarope de paracetamol para tosse em um centro de saúde no sul de Jacarta, capital da Indonésia.

"Dei o remédio a ela a cada quatro horas, porque a febre se recusava a baixar. Ela se recuperava, mas logo voltava a ter febre. No final, ela parou de urinar", disse ela à BBC.

Nadira foi levada ao hospital, mas não melhorou. Exames laboratoriais mostraram níveis excessivos de ureia e creatinina, resíduos que se acumulam depois que os rins param de funcionar. Ela entrou em coma e morreu.

"No final, ela faleceu rapidamente. Com uma dor realmente terrível", conta Agustina, chorando.

A Indonésia está enfrentando uma terrível onda de mortes: pelo menos 157 crianças morreram neste ano de insuficiência renal aguda e outras complicações, que acredita-se terem sido causadas por medicamentos contaminados. Quase todas tinham menos de cinco anos.

Nadira morreu em agosto. Em outubro, as autoridades indonésias disseram que ela fazia parte de um grupo de crianças que morreram de problemas renais inexplicáveis.

O governo proibiu então a venda de todos os medicamentos líquidos. Mais tarde, limitou a proibição para cerca de 100 produtos suspeitos — que haviam sido encontrados nas casas das crianças que adoeceram.

Farmácias de todo o país retiraram xaropes das prateleiras, aconselhando os pais a triturar comprimidos se os filhos precisassem de remédio.

O ministro da Saúde da Indonésia, Budi Gunadi Sadikin, afirmou que vestígios de etilenoglicol, dietilenoglicol e etilenoglicol butílico, substâncias consideradas nocivas, haviam sido encontrados nas vítimas.

O dietilenoglicol e o etilenoglicol são normalmente usados ​​em soluções anticongelantes para ar-condicionados, geladeiras e freezers e como solvente para muitos produtos, incluindo cosméticos, em concentrações muito baixas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que eles nunca são usados ​​em medicamentos.

"Está confirmado que (a insuficiência renal aguda) foi causada por (essas) substâncias", declarou o ministro.

Os casos ocorreram semanas após a morte de quase 70 crianças na Gâmbia. A OMS informou ter encontrado uma "quantidade inaceitável" de dietilenoglicol e etilenoglicol em quatro xaropes para tosse produzidos na Índia disponíveis na Gâmbia.

Nada sugere que os dois escândalos estejam ligados. As autoridades indianas e a fabricante Maiden Pharmaceuticals dizem que os quatro xaropes foram exportados apenas para a Gâmbia. A Indonésia afirma que os xaropes feitos na Índia não estão disponíveis localmente.

Na segunda-feira passada, a agência reguladora de alimentos e medicamentos da Indonésia, BPOM, anunciou que investigaria duas empresas farmacêuticas que haviam mudado recentemente os fornecedores de alguns ingredientes, passando de fornecedores farmacêuticos para fornecedores de produtos químicos.

"Há indicações em seus produtos... [de substâncias] que são altamente excessivas, altamente tóxicas e suspeitas de causar insuficiência renal", afirmou a chefe da BPOM, Penny Lukito, em entrevista coletiva.

Farmacêutica tirando remédio das prateleiras
Os farmacêuticos estão retirando os xaropes do mercado

Enquanto isso, dezenas de crianças doentes estão recebendo tratamento para insuficiência renal aguda, e a Indonésia pediu a Cingapura e Austrália suprimentos de um antídoto raro — fomepizol — para tratá-las.

A tragédia chocou a Indonésia. Na semana passada, o ombudsman do país criticou o Ministério da Saúde e a BPOM, que ele disse não ter feito o suficiente para testar os produtos à venda para garantir que cumprissem com os padrões estabelecidos.

Em um editorial enfurecido, o jornal Jakarta Post afirmou que a BPOM havia passado a responsabilidade pelos testes para as próprias empresas farmacêuticas — uma descoberta "aterrorizante" que mostrou que o Estado havia "aberto mão de sua autoridade".

"Com nossos corações devastados à medida que pais continuam a perder seus preciosos filhos, agora descobrimos a negligência grosseira e falta de supervisão do governo", escreveu o jornal.

Eric Chan, professor da Universidade Nacional de Cingapura, disse à BBC que ficou espantado ao saber que mortes desse tipo continuavam a ocorrer — e descreveu os eventos na Indonésia como uma "calamidade humana".

O dietilenoglicol foi usado no passado para tornar os medicamentos mais doces — mas agora é conhecido por ser tóxico, segundo ele.

Quando o dietilenoglicol é metabolizado no corpo, ele forma ácido diglicólico que se acumula e danifica as células renais — pode ser fatal se não for tratado a tempo, ele acrescenta. Uma redução na micção é um sinal precoce de intoxicação renal.

Chan observa ainda que o fato de os casos terem sido registrados em toda a Indonésia sugere que uma empresa farmacêutica com amplas redes de distribuição está envolvida.

E a equipe médica de hospitais locais pode não estar acostumada a lidar com intoxicações induzidas por medicamentos, diz ele, dado o fato de que muitas crianças foram levadas de hospital em hospital em busca de tratamento.

"Temos que ter em mente que o número de mortes ainda pode aumentar", alertou.

Umar Abu Bakar
Umar Abu Bakar, uma das vítimas

Em Bekasi, ao leste de Jacarta, Siti Suhardiyati se viu obrigada a guardar os brinquedos do filho.

Umar Abu Bakar tinha dois anos quando morreu em 24 de setembro. Ele também foi diagnosticado com insuficiência renal pelos médicos no último hospital em que foi atendido, em Jacarta.

Apenas duas semanas antes, ele estava com febre e resfriado. Também estava com diarreia, então Siti o levou a uma clínica local.

A família recebeu três tipos de medicamentos, incluindo xarope de paracetamol. Três dias depois, Umar parou de urinar.

"Eu costumo trocar a fralda dele de manhã porque está cheia, mas desta vez não havia nada", relembra.

Ele foi levado para ser atendido em um hospital local antes de ser levado às pressas para o Cipto Mangunjusomo Hospital, na capital. Mas era tarde demais.

"Como pode haver coisas perigosas nesse xarope para tosse? Se realmente foi aprovado pela BPOM, deveria ter sido testado", diz Suhardiyati.

A mãe de Nadira, Maulani, também está buscando respostas.

"Se isso foi negligência... exigimos responsabilização pelos casos que atingiram nossos filhos", diz ela.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63456432