O ESG não é doação, nem só diversidade e inclusão. É integração!

Estamos avançando nas discussões do S. As áreas de responsabilidade social e sustentabilidade têm sido reestruturadas e ganhado mais importância nas empresas.

O cuidado das empresas, da porta para dentro, tem aumentado, a partir de estratégias que dão mais atenção a seus colaboradores, seja para reter talentos e engajá-los num propósito maior do legado empresarial, seja para cuidar de sua saúde mental, tão abalada nos tempos atuais, seja para promover a diversidade racial e de gênero nas equipes, tudo em prol da sustentabilidade de longo prazo do negócio em si.

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A medida do sucesso está mudando e a empresa que não se adaptar, está fadada à rejeição interna e externa. No tocante ao S da porta para fora, a atuação tem se concentrado de forma proeminente na realização de doações mais estratégicas, no trabalho com a comunidade do entorno e na inclusão produtiva, no sentido de dar oportunidades de trabalho para pessoas menos favorecidas.

No entanto, será isso o suficiente? Será que não estamos apenas mudando um pouco o nome do que já se fazia antes nas empresas? Será que a chamada inclusão e a criação de metas de diversidade não continuam trazendo em si, ainda, uma separação, uma segregação intrínseca? Será que podemos ambicionar mais do que isso?

Se olharmos para o corpo humano, vemos um sistema complexo, que, quando em estado de saúde, funciona em harmonia. Várias partes trabalhando autonomamente, cada qual cumprindo sua função, todas integradas num mesmo objetivo ou numa mesma razão, de manter o equilíbrio saudável desse rico conjunto bioeletroquímico.

Na natureza, podemos ver também um sistema complexo, com inúmeros e diferentes elementos. Uma diversidade incrível. Cada qual vivendo sua realidade, com diferentes gêneros, espécies, características, mas todos integrados num complexo sistema harmônico e saudável.

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Como seres humanos temos a capacidade de observar e estudar a inter-relação e interdependência desses elementos. No entanto nós, como entes viventes neste planeta, não estamos a ele integrados numa harmonia saudável e construtiva, seja com o meio ambiente, seja como membros de uma mesma sociedade.

Com a pandemia pudemos viver na pele o quanto estamos, como seres humanos, interligados. Já não há como ignorar mais, a quantidade de pessoas que ainda vivem em condições precárias de habitação e saneamento, sem um emprego e renda dignos e suficientes para proporcionar uma vida autônoma e saudável.

Voltando ao S, podemos ir além da criação de metas e estratégias de D&I ou de planos estruturados de doação. Devemos buscar a integração.

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Para tanto, é necessário avaliar quais os impactos negativos que a empresa causa no meio ambiente e na sociedade e como mitigá-los. E mais, qual o potencial de impacto positivo que a empresa tem aptidão para causar a partir de sua atuação e pontos de contato com diversas dimensões de sua atividade, da porta para fora.

Onde ela pode se integrar construtivamente? Qual seria sua função social, nesse complexo sistema em que vivemos? Como integrar-se para manter nossa sociedade e meio ambiente saudáveis? Sem dúvida as respostas não são fáceis e as novas pesquisas multidisciplinares, dentro e fora da academia, têm sido realizadas, para darmos conta da complexidade que somos, como sociedade.

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E, para que isso seja feito fora da academia, na seara corporativa, é preciso entrar na estratégia da empresa. Sob o ponto de vista jurídico, deve haver permissão ou determinação dos sócios ou acionistas, seja em seus estatutos sociais ou em acordos de sócios ou acionistas, com relação à função social daquela empresa, para além do lucro.

Em que áreas e temáticas socioambientais os administradores estão autorizados a avançar e investir? Podem ou devem os membros do conselho e da diretoria investir recursos para questões socioambientais, não de forma marginal, mas dentro de sua estratégia de negócio? É daí que vai nascer o compromisso jurídico.

Num segundo nível, é preciso criar diretrizes e políticas de governança que coloquem isso em prática, com mensuração, monitoramento e avaliação. É preciso avaliar, ainda, quando e se faz sentido a criação de um veículo sem fins lucrativos, para aporte de capital filantrópico de forma integrada com a estratégia da empresa, ou numa estrutura de “blended finance”.

Da porta para fora da empresa, o S deve buscar ouvir as pequenas e médias empresas, assim como as organizações da sociedade civil, hospitais, escolas e universidades, que estão em contato direto com o público. Em especial, aqueles em situação desfavorecida ou necessitada, para entender suas reais necessidade, fragilidades, riquezas e potencialidades e então criar parcerias estratégicas construtivas, para ativar ciclos virtuosos, que levem à maior integração das pessoas e empresas, em relações mais saudáveis de trabalho e consumo.

O compromisso jurídico daí decorrente, virá a partir de acordos de cooperação e termos de parceria, empréstimos, investimentos e outros mecanismos financeiros com o estabelecimento de metas e mensuração de resultados. Isso deve ser feito sempre com o objetivo de manter nosso organismo social saudável, o que só advirá de relações construtivas, num complexo sistema interligado de comunicação e colaboração.

A tarefa não é corriqueira e passa pela mudança do “mindset” até então predominante e que sempre visou especialmente o lucro. A sociedade precisa entender a diferença entre lucro e ganho e o quanto os ganhos trazidos pela incorporação e vivência do S podem gerar de impactos positivos para a empresa e para os stakeholders. É questão de começar. O tempo é hoje!

Sobre as autoras: Márcia Setti, sócia sênior de PLKC Advogados, Monica Pasqualin, diretora executiva do Instituto Vita e Priscila Pasqualin, sócia de PLKC Advogados, responsável pela área de filantropia e investimento social.