O estigma leva quenianas ao aborto clandestino

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Victoria Atieno esperava seu ônibus quando sentiu que começava a sangrar de maneira contínua, revelando seu segredo mais íntimo no meio da rua: um auto-aborto, praticado por milhares de quenianas apesar de suas consequências muitas vezes fatais.

A Constituição do país africano permite o aborto em alguns casos, mas a exclusão de quem recorreu à interrupção da gravidez, leva muitas mulheres a usar métodos mais tradicionais como ervas, água sanitária ou agulhas ou a recorrer a clínicas clandestinas.

Victoria Atieno era consultora de saúde reprodutiva em uma clínica de uma ONG de Nairóbi. Quando ela quis interromper a gravidez, ela engoliu secretamente uma mistura de ervas.

Se sabem que você fez um aborto, "as pessoas condenam você, tratam você como um criminoso, tentam expulsar da comunidade", explica à AFP esta mãe de três filhos, de 35 anos.

Horas depois de tomar a mistura de ervas, seu pior pesadelo se tornou realidade e sua gravidez terminou em plena luz do dia, diante de dezenas de olhares de reprovação.

Os auto-abortos têm consequências terríveis para a saúde: ruptura do útero, lacerações do colo do útero ou da vagina, infecções graves, sangramento e algumas vezes a morte.

- Proibição legal -

No Quênia, um país muito religioso e com governo cristão, até as mulheres que abortam em instalações médicas sentem que estão cometendo um crime.

Quase um ano depois de interromper sua gravidez após um estupro coletivo, Susan, mãe de três filhos, carrega uma grande culpa.

“As pessoas veem você como um assassino (...) Não tenho a sensação de ter feito uma coisa tão ruim”, explica a mulher de 36 anos.

A Constituição do Quênia, de 2010 afirma que o aborto é ilegal, exceto se, "de acordo com o critério de um profissional de saúde qualificado, exija tratamento urgente, a vida ou a saúde da mãe esteja em perigo ou seja permitido por outra lei".

Desta maneira, quando o Ministério da Saúde parou de oferecer treinamento em técnicas de interrupção da gravidez, o acesso ao aborto nos hospitais foi imediatamente reduzido e as mulheres pagaram o preço.

O ministério da Saúde não respondeu aos pedidos de entrevista e um de seus especialistas em saúde reprodutiva disse à AFP: “Não estamos autorizados a falar em aborto. É a regra”.

- Sentimento de remorso -

A sobrinha de Ken Ojili Mele faleceu aos 26 anos depois de fazer um aborto em uma clínica clandestina. Contrário ao aborto por muito tempo, agora o carpinteiro de 48 anos é dominado pelo sentimento de remorso.

"Ela pode não ter falado sobre isso porque sabia que isso me deixaria com raiva", disse. "Se ela tivesse compartilhado isso comigo, talvez eu pudesse ter ajudado a encontrar um hospital mais seguro", lamenta.

Mesmo na frente dos médicos é difícil falar sobre o tema. Especialista em saúde reprodutiva, o doutor Samson Otiago recebe dezenas de mulheres em sua clínica em Nairóbi todos os meses.

Leva muito tempo e esforço para que ousem expressar sua vontade de abortar.

Algumas começam a chorar antes de pronunciar a palavra, explica o dr. Otiago, que costuma oferecer serviços gratuitos ou a crédito para as pacientes.

"Uma vez que uma mulher decide que vai fazer um aborto, ela o fará de qualquer maneira", explica o médico. "Preferimos fazer nós mesmos do que expô-las a charlatães ou vê-las mais tarde com complicações", completa.

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