'O estupro conjugal é praticamente legal aqui': mulheres de todo o mundo explicam por que irão marchar neste sábado

Maya Oppenheim, do Independent
1 / 3

zambia_independent.jpg

Ativistas se reúnem na Zâmbia

Munidas de cartazes e megafones, milhões de mulheres em todo o mundo vão às ruas neste sábado, 18 de janeiro, para protestar contra o "retrocesso alarmante" dos direitos das mulheres e a onda de políticas anti-aborto em meio à ascensão da extrema direita.

A manifestação inaugural da 'Women's March' (Marcha das Mulheres), em 2017, viu seis milhões de pessoas expressarem sua fúria sobre a eleição de Donald Trump, apesar de seu histórico de comentários humilhantes e sexualmente agressivos sobre mulheres.

A Marcha das Mulheres vem crescendo desde então, com 45 marchas em cidades e vilarejos em 20 países da América Central e do Sul, Europa, África, Ásia, Canadá e Austrália, planejados para este sábado (18).

— No ano passado, experimentamos um aumento na reversão dos direitos das mulheres em todo o mundo. Um dos momentos mais chocantes foi quando os Estados Unidos declararam, juntamente com outros 19 estados membros, que não havia direito internacional ao aborto em uma reunião das Nações Unidas. Estamos extremamente preocupadas que isso leve a um recuo coletivo dos direitos das mulheres em todo o mundo — afirmou Uma Mishra-Newbery, diretora executiva da Women's March Global.

O Independent conversou com mulheres de todo o mundo envolvidas na organização das marchas deste ano sobre o motivo de estarem saindo às ruas.

Zâmbia: 'Nosso país é um paraíso para estupradores'

Ann Holland, que está organizando a Marcha das Mulheres em Lusaka, capital da Zâmbia, disse que a violência de gênero é altamente prevalente na nação africana e que as visões patriarcais estão profundamente arraigadas.

A ativista disse que o protesto fará "muito barulho" e será "muito feminista" e pessoas de mais de 50 organizações estão participando. Elas se esforçaram para tornar a marcha mais inclusiva este ano, na tentativa de construir um movimento que é um espaço seguro para grupos marginalizados, acrescentou Holland.

— Estamos centralizadas em mulheres trans, profissionais do sexo, refugiadas e mulheres vivendo com deficiência. Nosso tema é 'nenhuma mulher para trás' e queremos ter certeza disso — disse.

— Estamos usando nossa marcha para fazer lobby por muitas leis, como o fim dos tributos para absorventes e estamos pedindo leis rigorosas quando se trata de agressão sexual, porque nosso país é um paraíso para estupradores.

— Se você quiser entender o tipo de sexismo e desigualdade que as mulheres da Zâmbia enfrentam, imagine uma África do Sul menor, com uma população de 17 milhões de pessoas, com menos cobertura da mídia e um país provavelmente preso nos anos cinquenta. Mulheres e meninas morrem todos os dias aqui nas mãos dos homens. Registramos milhares de casos de estupro a cada quatro meses. As mulheres morrem devido à violência de gênero e o estupro conjugal é praticamente legal aqui — afirmou a ativista.

Ela conta que atualmente os direitos das mulheres no país estão sendo utilizados por muitas empresas e organizações para "propaganda política". Os movimentos feministas estão crescendo, mas são, sem dúvida, "o grupo mais odiado e incompreendido" no país, acrescentou.

— Segundo os patriarcas, somos muito amargas, queremos vingança contra os homens e provavelmente somos lésbicas que só precisam de algum homem para nos curar — disse Holland — As mulheres também odeiam. O feminismo é mais comum entre as mulheres mais jovens, com idades entre 15 e 30 anos. Elas estão mais conscientes, entendem a necessidade do feminismo e trabalham constantemente juntas para acabar com o patriarcado.

Reino Unido: 'Estamos vendo a misoginia piorando'

Aisha Ali-Khan, co-organizadora da Marcha das Mulheres em Londres, acredita que a participação no protesto de amanhã será grande por causa do avanço dos conservadores nas eleições gerais de dezembro e da raiva contra o governo Trump nos EUA.

As manifestantes devem se reunir em Whitehall, no centro de Londres, para uma manifestação pedindo um "futuro mais justo, mais igual e sustentável".

— Nós marchamos pelos direitos das mulheres, assim como pelas mulheres que não têm voz, e pelos marginalizados. Marcharemos contra medidas de austeridade e o fato de que os ricos estão ficando mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Isto é uma verdade universal — disse a professora Ali-Khan.

—Agora iremos enfrentar pelo menos mais quatro anos e meio da mesma coisa. Agora teremos o Brexit, que irá deixar os direitos das mulheres ainda mais ameaçados. O projeto de lei sobre abuso doméstico caiu no esquecimento e foi empurrado cada vez mais para baixo na agenda política.

— Toda semana, duas mulheres são assassinadas por um parceiro ou ex-parceiro no Reino Unido. A violência contra as mulheres deve ser uma prioridade para Priti Patel, mas não é. Vimos um aumento maciço de homens usando sexo violento como desculpa para matar suas parceiras. Estamos vendo a misoginia piorando.

Canadá: 'Há muito sexismo residual'

Lila Palychuk, que está ajudando a organizar a Marcha das Mulheres em Sarnia, em Ontário, no Canadá, disse que há visões sexistas profundamente arraigadas na cidade.

— Há muito sexismo residual e visões patriarcais aqui. Tivemos uma eleição municipal recentemente e elegemos uma mulher, mas ela não é muito progressista. Se você olhar para o relatório do feminicídio, há uma quantidade razoável de mortes de mulheres nas mãos de parceiros homens, mas não estamos piores do que qualquer outro lugar do mundo —acrescentou a ativista.

— Relatos de agressões sexuais aumentaram acentuadamente em Sarnia-Lamton [um distrito eleitoral em Ontário]. Os ataques sexuais dobraram de 2017 para 2018. As pessoas têm mais poder para falar. A polícia está atribuindo isso ao movimento #MeToo.

Palychuk disse que foi "muito emocionante" se conectar com outras marchas ao redor do mundo no ano passado.Manifestantes de várias etnias e sexualidades e integrantes da comunidade indígena compareceram, acrescentou a contadora de 31 anos.

— Ano passado fizemos nossa primeira marcha. Havia 500 pessoas em uma enorme quantidade de neve. Esperamos pelo menos 500 novamente.

França: 'Sexismo é uma característica francesa por excelência'

Honorine Boudzoumou, porta-voz da Marcha das Mulheres em Paris, está preocupada com os altos níveis de violência contra as mulheres na França, onde há uma crescente indignação com os feminicídios nos últimos meses.

A ativista disse que, embora o governo tenha adotado medidas para combater essa violência, as medidas permanecem insuficientes.

— Parece que há muita conversa e muito pouca ação. Por exemplo, após a grande reunião governamental sobre violência doméstica, várias novas medidas foram anunciadas, mas o dinheiro alocado a elas era insultantemente baixo — explicou.

— As mulheres enfrentam uma enorme quantidade de violência em suas vidas diárias, que é influenciada por sua classe socioeconômica, raça e identidade. O feminicídio é a forma mais extrema dessa violência, porque procura nos apagar completamente. Em algum momento, você começa a se perguntar se sua vida importa. Você se pergunta o que realmente tem que fazer para que as ameaças que enfrenta sejam levadas a sério.

A França testemunhou uma adesão feroz ao movimento #MeToo, contra assédio e agressão sexual. As manifestantes estão vão realizar uma mesa redonda em Paris, em vez de uma marcha, porque as organizadoras queriam um espaço para "discussões aprofundadas".

— O tema do nosso evento é a autonomia do corpo. No entanto, neste debate na França, certas vozes são quase completamente ignoradas, como as de pessoas não brancas, muçulmanos, pessoas LGBT+, pessoas com deficiência, pessoas gordas e profissionais do sexo — disse Boudzoumou.

A ativista argumentou que o sexismo é uma "característica francesa por excelência" e acha que as pessoas precisam entender isso para poder destrui-lo.

— Tivemos o movimento #BalanceTonPorc ('exponha seu porco'), que provocou grandes discussões públicas sobre sexismo — acrescentou — As mulheres ousaram falar descaradamente, e a vergonha finalmente mudou de lado. Dito isto, ainda há muito trabalho a fazer. Nosso país está muito atrás dos outros ao lidar com esses problemas.

Suíça: 'Os bancos suíços estão alimentando a crise climática'

Ativistas de Genebra, capital suíça, estão conscientizando sobre a dimensão de gênero das mudanças climáticas na marcha deste ano.

— Sentimos que, como feministas na Suíça, temos a responsabilidade de chamar a atenção localmente para a maneira como os bancos suíços estão alimentando a crise climática, que afeta as pessoas mais vulneráveis do mundo. As mulheres são 14 vezes mais propensas que os homens a morrer de desastres naturais relacionados às mudanças climáticas — disse Doreen Akiyo Yomoah, uma das organizadoras.

— Pessoas com identidades cruzadas, como pessoas do Sul Global, áreas rurais, pessoas com deficiência, indígenas e LGBT+, também enfrentam riscos aumentados para suas vidas e meios de subsistência.

— Embora no papel as mulheres possam ter os mesmos direitos que os homens, a violência no país ainda é um grande problema. Segundo o governo federal, uma vez a cada duas semanas, alguém (geralmente uma mulher) morre em função da violência doméstica. Isso pode não parecer muito alto em comparação com outros países, mas ninguém deve ser vítima de violência doméstica. E para um país com uma população pequena, isso é significativo.

A ativista disse que as organizações das marchas de Genebra e Zurique se uniram e esperam que 500 mulheres participem.

Em junho, um novo movimento feminista chamado Greve des Femmes fez protestos em todo o país por equidade salarial, pelo fim da violência baseada no gênero e da discriminação contra migrantes e mulheres não brancas, disse Akiyo Yomoah.

Maiorca: 'A sociedade é historicamente patriarcal'

Lesley Harris, que está envolvida na Marcha das Mulheres em Palma de Maiorca, argumentou que o governo nacional da Espanha não está tomando medidas suficientes para tornar a definição de estupro mais clara e mais alinhada com outros países europeus.

O estupro deve envolver atos específicos de violência, como ser ameaçado com uma faca ou sofrer golpes físicos sob o atual código criminal da Espanha.

— Existem inúmeras preocupações sobre a violência contra as mulheres na Espanha. A sociedade é historicamente patriarcal, mas está disposta a mudar. As atitudes sexistas e patriarcais estão arraigadas, mas os jovens estão derrubando-as — disse.

— Eu trabalho como professora e, agora que essas questões estão incluídas no currículo, os alunos costumam parar e questionar. Isso é machista? Por que sim ou por que não? — contou.

Movimentos de mídia social como #MeToo ou #yotambien, na Espanha, serviram como um "catalisador para iniciar e manter" conversas sobre violência e assédio sexual, acrescentou.