O Fórum Econômico Mundial não pediu para "descriminalizar a pedofilia"

O Fórum Econômico Mundial (FEM), que realiza anualmente reuniões em Davos, na Suíça, não se posicionou a favor da “legalização da pedofilia” ou de sua descriminalização, ao contrário do que alegam publicações compartilhadas nas redes sociais desde 6 de janeiro de 2023. A AFP não encontrou declarações ou registros que sustentem essas acusações, que também foram negadas por um porta-voz da organização.

“Mundo do avesso: O Fórum Econômico Mundial (WEF) agora está pedindo a descriminalização do sexo com crianças, argumentando que as leis contra o ‘amor por diferença de idade’, mais comumente conhecido como pedofilia, ‘violam os direitos humanos’", alegam publicações compartilhadas no Twitter, Telegram e Facebook.

“Em vez de ser um flagelo, a epidemia de pedofilia que está varrendo o mundo é na verdade um ‘presente da natureza’ para a humanidade, de acordo com Klaus Schwab, cujo Fórum Econômico Mundial declarou que os pedófilos estão sendo criados pela natureza em números cada vez maiores por uma razão”, afirma outro usuário.

O conteúdo também circula em alemão, croata, espanhol, francês e inglês.

Captura de tela feita em 19 de janeiro de 2023 de uma publicação no Twitter ( .)

O Fórum Econômico Mundial é uma organização não governamental internacional que organiza encontros anuais na cidade de Davos, na Suíça, reunindo líderes políticos, empresariais e atores da economia internacional.

A última edição do fórum foi realizada em 16 de janeiro de 2023.

Klaus Schwab, fundador e CEO do Fórum Econômico Mundial, tem sido alvo frequente de desinformação e teorias da conspiração após publicar em 2020 "The Great Reset", um livro que, segundo alguns grupos de pessoas, revelaria um suposto plano para destruir democracias e impor uma nova ordem mundial.

O Checamos já verificou outros conteúdos sobre o Fórum de Davos e seu fundador. Por exemplo, acusações de ter políticos, mídia, especialistas e cientistas “em seu bolso” e querer controlar a internet.

Consultado pela AFP, um porta-voz da instituição assegurou em 10 de janeiro de 2023 que “o Fórum Económico Mundial nunca fez tal afirmação”, referindo-se à descriminalização da pedofilia. Ele ainda indicou que o órgão “não emitiu qualquer posição ” recentemente sobre este crime contra a integridade sexual de crianças.

Uma busca por palavras-chave no Google não retornou resultados que sustentem a teoria de que o FEM tenha se posicionado a favor da descriminalização da pedofilia em suas redes sociais, site ou nos encontros em Davos.

Na última edição do Fórum, a AFP registrou que a reunião discutiu questões mundiais urgentes, como a guerra na Ucrânia e meio-ambiente.

Qual a origem dessas publicações?

Algumas das publicações que circulam nas redes sociais citam como fonte um texto do site NewsPunch.

O artigo do NewsPunch inclui uma captura de tela de um tuíte escrito em inglês supostamente feito por uma conta verificada do FEM, afirmando que "as leis de amor por diferença de idade violam os direitos humanos".

Mas uma pesquisa por palavras-chave em inglês nas redes sociais do Fórum de Davos não exibiu publicações com este teor. Tampouco há registro do conteúdo na Wayback Machine ou no Archive, plataformas que armazenam o conteúdo de sites e redes sociais mesmo depois de excluídos.

Consultado pela AFP sobre o tuíte, um porta-voz do FEM assegurou que as informações divulgadas nas redes sociais são “falsas” e que a organização "nunca publicou um tuíte deste tipo".

Em seu artigo, o NewsPunch atribui uma citação a Klaus Schwab, na qual o presidente da organização chamaria a pedofilia de “um presente da natureza” para a humanidade. Mas o porta-voz do Fórum Econômico Mundial explicou à AFP que esta declaração foi "completamente forjada". A AFP também não encontrou registros de tal declaração.


Algumas publicações (1, 2) citam o site Tribuna Nacional como fonte da informação. O texto compartilhado pelo portal tem os mesmos elementos e estruturas do artigo falso publicado no NewsPunch. O Checamos já verificou outras alegações publicadas no site (1, 2).