O fervo de volta ao Rio: com sol e sem medo, alegria toma conta de ruas e praias cariocas

Se à noite não choveu como se temia, mais cedo até o sol, que parecia andar de mal com o carioca, decidiu mostrar seu brilho. E o Rio, depois de duas viradas de ano meio acanhadas pelas restrições da pandemia, pôde despedir-se de 2022 repleto da animação e irreverência que consagraram a cidade desde as primeiras horas do dia, com direito a praias lotadas.

Em Copacabana, o clima era daquele glamour com um quê caótico de uma babilônia onde o Brasil e o mundo se encontram. Com as areias cheias como há muito não se via, nem sobrava espaço para divisão de tribos. Havia os drinques dos gringos, a caipirinha no copo de plástico da turma de amigos do bairro e a cervejinha gelada, saída direto do cooler de quem excursionou para ver de perto os fogos da festa de Ano Novo mais famosa do mundo.

— A vibe no Rio este ano está diferente — dizia o consultor de segurança mineiro Cleverton Rodrigues, ao se preparar para seu sexto réveillon em solo carioca. — A sensação é de que todos estão mais livres.

A impressão era a mesma da professora aposentada paulista Ana Maria Fascina, trilheira assídua no Rio e que praticamente já zerou as montanhas da cidade — só a Pedra da Gávea ela subiu quatro vezes.

— Na última virada, ao andar no calçadão, parecia que as pessoas tinham medo. Muitos, inclusive eu, seguiam de máscara por causa da Covid. Agora, há mais alegria — dizia ela, perto do Costão do Leme.

Nessa onda de positividade, estrangeiros arriscavam dizer no pé, ao passar diante do pagode que rolava no quiosque do Samba Social Clube. Perto da água, reinavam a altinha e o frescobol. Já dentro do mar, no Posto Seis, dezenas praticavam esportes como stand up paddle e uma das febres deste verão, a natação marítima. Enquanto muitos, claro — em um ritual que se repetiu até a noite e varou a madrugada —, fecharam 2022 com os tradicionais gestos de agradecimentos, pedidos e oferendas, e não só em Copacabana.

Liberdade e paz interna

Pela primeira vez, a especialista em marketing Samantha Bastos, moradora de Botafogo, preparou um barquinho para ofertar a Iemanjá. Levou à calmaria da Praia da Urca, em um símbolo da transformação pela qual passou desde 2020, quando enfrentou um divórcio e a morte do pai, com coronavírus. Entrou em depressão profunda, que conseguiu superar ao começar a escrever à mão seu romance de estreia.

— Meu pai era meu melhor amigo. Perdê-lo foi uma rasteira da vida. Então, coloquei minhas experiências no livro. E, ao abordar a espiritualidade, eu mesma, que sempre fui evangélica, me abri a outras religiões — contou Samantha, que pediu a Iemanjá liberdade, oportunidade e paz interna.

Ao mesmo tempo em que ela fazia suas preces, também na Urca, a fila de visitantes no Pão de Açúcar revelava o quanto a cidade está cheia. Percepção que se reforçava nas Paineiras, no acesso ao Cristo Redentor, assim como em Ipanema. Onde fosse, no entanto, tudo apontava para uma só conclusão: neste réveillon, o Rio definitivamente se tornou um fervo, de novo!