O futuro do setor de óleo e gás pode ser verde?

Investir pesado no desenvolvimento de fontes alternativas e comprar empresas de energia limpa estão entre as estratégias das petroleiras para diversificar o portfólio baseado em combustíveis fósseis e reduzir sua exposição global como principais emissoras de gases do efeito estufa.

Transição energética: Hidrogênio verde ganha espaço, mas custo ainda limita avanço rápido

Na fronteira tecnológica: Empresas apostam em eólica no mar e hidrogênio verde

O Plano Estratégico para o quinquênio 2023-2027 da Petrobras, por exemplo, reserva US$ 4,4 bilhões para projetos de transição energética.

— Hoje só investimos na prospecção de campos duplamente resilientes. Isso quer dizer que eles produzem mais e, por consequência, emitem menos CO2 por barril — afirma Rafael Chaves, diretor de Relacionamento e Sustentabilidade da Petrobras.

Segundo ele, os campos de Búzios e Tupi, no pré-sal da Bacia de Santos, estão entre os que produzem com menor emissão no mundo. A média de gases de efeito estufa por barril de óleo equivalente (boe) no mundo é de cerca de 17 quilos contra menos de 10 quilos em Búzios e Tupi.

Além disso, todos os funcionários da companhia têm remuneração variável atrelada ao cumprimento de metas de redução de emissões na operação. A companhia quer ser carbono zero até 2050. Louvável. Mas, o que, efetivamente, a petroleira está fazendo para diversificar seu portfólio de produtos baseado em hidrocarbonetos?

— Estamos investindo US$ 600 milhões na planta de Cubatão (SP) para fazer biodiesel, à base de óleos vegetais — diz Chaves. — Tem muita pesquisa e muito dinheiro investido em várias frentes.

Caso supere entraves: Brasil tem potencial para liderar descarbonização do aço

O novo governo já indicou que pretende levar a Petrobras a voltar a investir em fontes renováveis de energia, como outras petroleiras no mundo. Ampliar essa aposta é , por exemplo, a principal estratégia da britânica BP, que anunciou o compromisso de ser carbono zero até 2050.

Segundo Fabiana Neves, vice-presidente de Desenvolvimento e Novos Negócios da BP, a estratégia tem três pilares. Um deles é chegar a 2030 com investimentos da ordem de US$ 5 bilhões em energia limpa, tais como combustível de aviação renovável e bioenergia de baixo carbono.

Em 2019, esse montante era de US$ 500 milhões, lembra ela, que usa os volumes gerados de energia renovável em 2019, de 2,5 gigawatts (GW), e a meta em 2030, de 50 GW, para ilustrar os esforços da companhia. Hoje, no portfólio global da BP, 21 GW são provenientes de energia solar, eólica onshore (terra) e offshore (mar).

— Trabalhamos para reduzir em 40% nossa produção global de petróleo, dos 2,6 milhões de barris por dia, em 2020, para 1,5 milhão em 2030 —diz a executiva. — Óleo e gás ainda terão papel importante no nosso portfólio, mas a participação vai cair.

Projeção: Participação do Brasil no mercado global de créditos de carbono pode chegar a US$ 120 bilhões

Em 2019, sete mil pontos de recarga de carros elétricos estampavam a marca da BP. A meta é chegar a 70 mil, em 2030, em todo o mundo.

Shell inova em renováveis

Outra disposta a diminuir a produção global de óleo (de 1% a 2%, até 2030) é a Shell, informou a companhia. O Grupo Shell reduziu seu mapa de produção de petróleo de mais de 40 países para apenas nove polos principais, sendo um deles o Brasil. No ano passado, pagou R$ 200 milhões por uma participação na Carbonext, companhia brasileira que desenvolve projetos ambientais na Amazônia, seu primeiro negócio na área de Soluções Baseadas na Natureza.

Almir Sanches: 'Fazemos a ponte entre empresas e o dono da terra', diz diretor da Carbonext, que atua no mercado de carbono

A Shell Brasil tem projetos de energia solar em Minas, Goiás e Paraíba, que podem somar até 4GW. A empresa entrou com pedido de licenciamento ambiental junto ao Ibama para seis projetos de eólicas offshore na costa brasileira, com potencial de 17GW.

O departamento de pesquisa e desenvolvimento da Shell apoia mais de 1.200 pesquisadores e mantém parcerias com 23 instituições acadêmicas e mais de 30 outras empresas, diz a multinacional. A produção de etanol é outra das frentes da empresa no Brasil, desde que, em 2011, formou a Raízen com o Grupo Cosan.

Em novembro passado, a petroleira anunciou a compra de 3,25 bilhões de litros de etanol celulósico de cana de açúcar. O combustível de baixo carbono deverá ser produzido por cinco usinas que a Raízen planeja construir no Brasil, elevando seu portfólio para nove.

Quer ser carbono zero? Já é possível comprar crédito de projetos na Amazônia para compensar emissões

A francesa Total Energies informa que mantém 18 centros de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias no mundo. Ao todo, são mais de quatro mil profissionais envolvidos nessas pesquisas, com investimentos de aproximadamente US$ 1 bilhão em 2021, informou a empresa.

Petróleo não sai de cena

Se as petroleiras se empenham para apresentar seus esforços na área renovável, por outro deixam claro que imaginar um futuro sem hidrocarbonetos é irreal. Hoje, o mundo consome aproximadamente 100 milhões de barris de petróleo por dia. Para Rafael Chaves, da Petrobras, em cenário agressivo, é possível chegar a 25 milhões de barris/dia consumidos em 2050.

Perspectivas promissoras: Cadeia de carbono cresce e já reúne de serviços de drones a venda de tokens

A pressão, diz o executivo, não vem só dos problemas ambientais do setor. A partir da invasão da Ucrânia pela Rússia, no ano passado, a questão da segurança energética entrou nos debates, sobretudo nos países europeus que são, ao mesmo tempo, os mais aguerridos na defesa da agenda ESG e os mais penalizados pela falta do gás da Rússia.

— Há uma espada sob nossas cabeças, mas ela não vai cair amanhã —diz Chaves .

Fabiana, da BP, concorda:

— Nós somos parte do problema e reconhecemos isso, mas também reconhecemos que essa transição não se dará de um dia para o outro.

Isso fica claro com a perspectiva de investimentos em prospecção e produção de óleo e gás nos próximos anos. São R$ 102 bilhões no Brasil até 2025, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (Abespetro).