O Galo de Thiago Larghi derruba clichês e quer a bola pra jogar

Ricardo Oliveira e Cazares comemoram um dos gols da vitória contra o Santos (Bruno Cantini/CAM)

Por Rodrigo Coutinho (@RodrigoCout)

O infrutífero debate que se propõe a eleger o melhor entre treinadores experientes e treinadores jovens é muito comum na atualidade do futebol brasileiro. Rótulos são despejados aos montes. Do estudioso ao motivador, este tipo de alcunha pouco diz sobre o trabalho de fato dos comandantes. Um deles vem demonstrando de forma clara que a pasteurização para avaliar um treinador é o primeiro passo do erro. Thiago Larghi é mais jovem que dois de seus comandados, mas nem por isso deixa de ter atitudes que se assemelham mais a um ”medalhão com grife” na beira do gramado.

Você já viu o novo app do Yahoo Esportes? Baixe agora!

Logicamente este texto se propõe a muito mais do que isso. Nas linhas abaixo, o Atlético/MG, que chega a 40 jogos sob o comando, de Larghi, será dissecado em todas as fases do jogo. Veremos como as ideias coletivas implementadas pelo analista de desempenho da Seleção Brasileira na Copa de 2014 foram mantidas, mesmo tendo perdido jogadores importantes e ganho outros de qualidade, mas com características diferentes. Ao mesmo tempo, Thiago não se privou de barrar, em determinado momento, nomes históricos no clube, como Leonardo Silva e Luan, além de peças mais consolidadas, como Gabriel, Patric, Cazares e Otero. Não deixou de colocar Elias no banco para o promissor Gustavo Blanco jogar. Não se omite da ”rota de colisão” que essas atitudes acabam gerando.

Desempenho atual de Thiago Larghi no Atlético/MG (Rodrigo Coutinho)

A cobrança por resultados mais expressivos existe. Ela é inerente ao futebol brasileiro, mesmo em um trabalho que completa seis meses daqui a uma semana. O Galo foi vice do Campeonato Mineiro após sair na frente contra o Cruzeiro. Caiu nos pênaltis na Copa do Brasil para a frágil Chapecoense. E foi eliminado pelo San Lorenzo, na Copa Sul-Americana, ainda na 1ª fase. Neste último caso, porém, numa falha clara de planejamento em conjunto com a diretoria. Restou o Campeonato Brasileiro, competição em que está na sexta colocação, a 11 pontos do líder, mas perto de uma vaga direta na Libertadores 2019.

O ponto que mais conta a favor neste trabalho de Thiago Larghi é a manutenção das características da equipe, mesmo tendo que superar alguns percalços. A rotatividade no time titular foi maior do que o normal para um time que faz tal campanha no Brasileirão, mas os padrões são repetidos. E eles, sobretudo na parte ofensiva, são extremamente agradáveis de se observarem. O alvinegro mineiro é uma das equipes mais legais de se assistir neste 2018 no Brasil.

Aqui, de forma mais detalhada, temos os jogadores que chegaram e saíram do clube desde que Thiago Larghi passou a comandar o time (Rodrigo Coutinho)

Esquema e Sistema

O desenho tático preferido por Thiago Larghi é o 4-1-4-1 no momento defensivo e a variação para o 4-3-3 com a bola. Ele foi utilizado em 3/4 dos jogos da equipe sob o seu comando. Em raras ocasiões o Galo acaba tendo menos posse que o adversário. No início do trabalho, a opção por uma postura mais reativa até foi utilizada em alguns jogos, mas logo depois o caráter de ter a bola e jogar com muita aproximação, tabelas, triangulações, e velocidade nas ações já era bem perceptível. Esta é a cara deste Atlético/MG, o quinto time que mais fica com a bola no Brasileirão 2018.

De alvinegro, o possível ”time ideal” do Galo. De branco, os potenciais reservas das funções (Rodrigo Coutinho)

Fase Ofensiva

O Galo de Thiago Larghi é bem criativo. Tem a melhor média de gols a cada 90 minutos do Campeonato Brasileiro, além de ser a equipe que mais finaliza entre todas. A proposição de jogo é o norte dos atleticanos. E fazem isso de forma bem organizada e metódica. A premissa básica é a aproximação entre as peças. Dificilmente os mineiros utilizam a ligação direta, e a bola transitando pela faixa central é o que ocorre em grande parte do tempo. O volante seguidamente se infiltra entre os zagueiros para fazer a ”saída de três” e liberar os laterais.

Como os gols do Galo saem (Rodrigo Coutinho)

A ocupação dos espaços é bem determinada, principalmente pelo comportamento dos meias e pontas. Enquanto um meia se aproxima do volante na ”base” da jogada, o outro infiltra. Enquanto um ponta flutua pro centro do campo, e muitas vezes recua próximo ao volante, o outro dá amplitude até a passagem do lateral. Em campo ofensivo, a ideia é acumular atletas pela faixa central e deixar os lados do campo a cargo dos laterais. As jogadas são quase sempre ”verticalizadas” na faixa central do gramado.

A velocidade na troca de passes é constante, assim como os movimentos de apoio ao portador da bola. São 10,7 passes em média por minuto de posse, atrás apenas do Grêmio. Isso dá ao Atlético muita agressividade. Outra ferramenta para ser vertical é a movimentação de Ricardo Oliveira. Mesmo com idade avançada, o camisa 9 se mexe de forma muito eficaz, busca as diagonais e se oferece como pivô, é primordial para a evolução do Galo em campo. Os atleticanos formam o conjunto que mais toca na bola na área adversária no Brasileirão.

A importância de Ricardo Oliveira e a falta que Roger Guedes e Otero fazem ao time (Rodrigo Coutinho)

Outros números relevantes sobre o trabalho ofensivo do Atlético Mineiro: é o quinto time que mais acerta passes no campeonato, o terceiro que mais troca; Adilson, ainda lesionado, é o volante da Série A que mais acerta passes (94,5% de aproveitamento); ele e Cazares estão entre os cinco atletas que mais trocam passes na competição.

Transição Ofensiva

O Galo é muito perigoso nos contra-ataques. Além de possuir diversos jogadores de velocidade em seu elenco (Luan, Chará, Cazares, Elias…), o time conta com ideias bem executadas coletivamente. A começar pela rápida mudança de atitude. Assim que rouba a bola já começa a agredir a profundidade adversária com velocidade. Ricardo Oliveira é primordial neste aspecto. Produz movimentações para receber a bola ou abrir espaço para os companheiros que vêm de trás. Tem uma leitura acima da média. O número de gols em contragolpes da equipe é quase o mesmo dos feitos em fase ofensiva.

Fase Defensiva

O sistema de marcação do Atlético obedece a encaixes no setor e perseguições curtas, quando os jogadores não se distanciam demais de suas áreas de atuação. Sem a bola, o funcionamento da equipe acaba não sendo tão eficiente quanto é para atacar. Isso passa muito pela dificuldade de entendimento de alguns atletas do posicionamento correto dentro deste sistema de marcação. As constantes trocas no elenco também dificultam o processo.

Na maioria das vezes há intensidade na abordagem de marcação, mas ela por si só não é suficiente contra equipes que sabem explorar as lacunas deixadas, principalmente na região central do campo, no espaço entre o volante e os meias. A linha defensiva acaba resolvendo muitos dos problemas surgidos. O funcionamento dela é quase sempre satisfatório. Os atletas respeitam os seus setores e as compensações, quando necessárias, são bem feitas.

Como o Galo leva os gols (Rodrigo Coutinho)

O bloco de marcação varia. Quase sempre é médio com períodos de pressão na saída de bola adversária. Fora de casa, é em grande parte do tempo mais recuado, até para evitar os espaços citados na região central do gramado.

Transição Defensiva

O Atlético/MG tem um bom funcionamento nesta fase do jogo. São poucos gols de contra-ataque levados ao longo da temporada. Por mais que tenha períodos de pressão logo após a perda da bola nos jogos dentro de casa, o principal padrão do Galo é a defesa da última linha. Geralmente só o atleta mais próximo da bola busca inibir o avanço imediato adversário. Ele não conta com movimentos de companheiros no mesmo sentido, mas sim com a rápida reocupação da linha defensiva. Não é algo tão intenso na abordagem ao homem da bola, mas sim no controle da profundidade adversária.

Bola Aérea Ofensiva

Já ofensivamente, a bola parada do Galo não tem rendido tantos gols em 2018. O time perdeu um pouco dessa força, o que era constante nas últimas temporadas. O padrão é levar cinco jogadores à área adversária em faltas laterais escanteios. A batida varia. Por vezes aberta, por vezes fechada. A ideia é ocupar a área de forma igualitária. Geralmente ataca o primeiro poste com dois jogadores, o segundo poste com dois atletas, e um fica na altura da marca do pênalti. Três destes cinco partem de um posicionamento mais aberto. E dois (entre eles, sempre Ricardo Oliveira) já partem de dentro da pequena área.

Bola Aérea Defensiva

Na bola aérea/parada defensiva, o Galo marca majoritariamente de forma zonal. São cinco jogadores alinhados na altura da pequena área, marcando o espaço, e mais dois no primeiro pau (um colado ao primeiro poste). Mais dois atletas ficam responsáveis pelos bloqueios aos principais cabeceadores adversários. A ideia não é disputar pelo alto com eles, mas sim impedir que cheguem até a bola. No rebote, um atleta fica pronto para puxar o contra-ataque. Em caso de escanteio curto cobrado pelo time rival, um dos homens do primeiro pau sai para marcar assim como o atleta que está inicialmente no rebote.

Em faltas laterais, detalhe para o espaço que a equipe deixa entre os atletas de linha e Victor. Ao mesmo tempo que distancia os adversários de sua meta, pode trazer prejuízos no caso de uma boa cobrança, como já aconteceu. A marcação é por zona neste tipo de jogada. Dos dez, um fica na barreira e outros dois não correm na direção da área, ficam para o rebote.

Veja outras análises táticas