O glamour da ignorância

Existe um mercado perverso que lucra em cima da desinformação, e que já foi inclusive tema desta coluna. Vendedores de ilusões empurram suplementos, remédios ditos naturais, livros, DVDs, práticas sem base científica que prometem curar desde unha encravada até câncer e depressão, segredos da saúde que “eles” não querem que você saiba. Para fisgar clientes, o marketing da pseudociência usa duas iscas: medo e vaidade. A vaidade de acreditar fazer parte de um estilo de vida mais “espiritualizado” e “natural”, e o medo da morte, da doença — e do mundo moderno.

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O dinheiro que se ganha com isso não é nada desprezível. Reportagem recente do jornal britânico The Sunday Times estima o valor da indústria do bem-estar em 3,59 trilhões de libras (R$ 23 trilhões), e o triplo do que fatura a indústria farmacêutica, em torno de 1,16 trilhão de libras.

As duas linhas de marketing encontram seus consumidores, de forma geral, em dois tipos de público. O primeiro é composto de pessoas vulneráveis, assustadas, que passaram ou estão passando por momentos de vida difíceis, com elas mesmas ou entes queridos sofrendo ou sentindo-se traídos ou desenganados pelo sistema formal de saúde ou pelos próprios limites da ciência e da medicina. Afligidas pelo desespero e, não raro, pela frieza e falta de empatia de algum profissional de saúde, estas pessoas se voltam para camelôs de sonhos que, junto com o remédio inútil, vendem fórmulas mágicas e o tempo e a atenção tão escassos no sistema médico. O argumento costuma ser: “afinal, que mal tem”?

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O “mal” é que endossar medicina alternativa é uma aposta muito perigosa — para o indivíduo e para a sociedade. Pode atrasar diagnósticos de doenças graves, desviar pessoas de tratamentos reais, legitimar narrativas paranoicas como a do movimento antivacinas. Para resgatar as vítimas do marketing do medo e do desamparo, é importante reconhecer o direito do paciente de expressar receios e dúvidas, mas ser claro na hora de separar fato de ficção.

Mas existe também o consumidor por vaidade, que se vê num plano espiritual superior porque consome bolinhas de açúcar com grife. Esse perfil, em geral, não espera ficar doente para correr atrás do terapeuta holístico: engolir placebos faz parte do estilo de vida. É o que em inglês se chama de “the healthy unwell”, ou “os saudáveis incomodados”, pessoas perfeitamente bem de saúde que esperam minimizar os incômodos inerentes à condição humana com simulacros de “terapia”. Essa turma mantém o mercado de pseudoprodutos de saúde vivo e lucrativo, fartando-se de suplementos vitamínicos desnecessários, remédios “tradicionais” feitos de partes do corpo de animais em extinção, bolinhas de açúcar, conhaquinho de conta-gotas e a água de torneira mais cara do mundo.

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Os consumidores que se banham nos raios do glamour da ignorância provavelmente não se importam de ser enganados ou de dar sustentação financeira e ideológica a um mercado que explora desesperados. São movidos pelo narcisismo de, mesmo tendo acesso aos melhores médicos e cientistas, preferir ignorá-los porque sua “verdade pessoal” é “mais verdadeira” do que os resultados de estudos clínicos controlados feitos por universidades e centros de pesquisa. Se eu acho que me curei de uma doença crônica da infância com bolinhas de açúcar, quem são esses cientistas para me dizer que estou errada? A única ferida insuportável é a do ego.

Pode parecer inofensivo ir à lojinha de produtos naturais e comprar bolinha de açúcar para nariz entupido, floral para dor de cotovelo. Mas é esse consumo por vaidade que legitima socialmente a venda por desespero, que mantém viva a ideologia que despreza a ciência, mutila animais na África e na Ásia e mata crianças por falta de vacina.

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