O lambadão que ferve no povão

São 3 horas da tarde e estou no final do bairro Jardim Glória II, nas extremidades de Várzea Grande. Para você que não é de Mato Grosso, a cidade industrial de Várzea Grande fica do outro lado do Rio Cuiabá. É a segunda maior cidade do Estado, com pouco mais de 250 mil pessoas, e é lá onde o lambadão ferve de verdade há pelo menos 30 anos. O sol tá rachando na minha cabeça, a rua não é asfaltada e acabei de bater palmas na frente de uma modesta oficina de conserto de TVs e rádios. Estou ali para conversar com o técnico em eletrônica Leonézio Batista da Silva, mas meu assunto é com DJ Léo, seu apelido entre os lambadeiros da região. “Entra aqui no estúdio”, diz, apontando para uma porta meio escondida lá no final das tranqueiras eletrônicas. Estou no submundo musical mato-grossense.

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Entro e me espanto: um aquário para captação de voz e instrumentos, algumas guitarras e uma bateria toda microfonada, pro-tools, equalizadores, sequenciadores midi e muitos fonogramas guardados. “Boa parte das bandas da região gravam seus discos aqui”, ele confidencia, enquanto abre a porta. O estúdio tem sete anos, mas a relação dele com o lambadão começou há mais de 25. O DJ Leo Já produziu vários artistas, iniciantes ou não. É o responsável pela gravação de vários shows históricos (uma prática comum das bandas é lançar – extraoficialmente – discos de gravações ao vivo, para manter os fãs aquecidos) e é o produtor musical da banda Real Som há pelo menos duas décadas.


Dois dias antes, no bairro do Planalto, já na capital Cuiabá, eu estava na sala do guitarrista Wilson Cigano entrevistando-o a partir de algumas experiências dele com carros de som, cartazes, rádios comerciais e comunitárias e de que forma as bandas de lambadão utilizam a internet para promover seus shows e discos. A banda Os Ciganos, que Wilson tem com mais dois irmãos, está na ativa desde 1998 e já lançou mais de 20 discos. Embora esses dois personagens participem do popular e gigantesco mercado do lambadão, eles não são fontes recorrentes das mídias tradicionais e tampouco são reconhecidos pelo poder público municipal. Mas é aí que os lambadeiros conseguem força.



Em três décadas, o gênero se tornou autossustentável. Tem pelo menos seis grandes casas de shows que aglomeram cerca de 1.500 pessoas por evento, quatro vezes por semana. Além das festas só de lambadão, as quase cem bandas que estão em atividade no estado também tocam em festas de santo e em comunidades indígenas. Isso mesmo, no meio dos índios.

No YouTube da banda Os Ciganos, que já tem mais de 1,2 milhão de acessos, existe um vídeo de uma apresentação do trio na Aldeia Pakuera, da etnia Bakairi, da região de Salto Sawâpa, localizada perto de Paranatinga (386 quilômetros da capital). Sem contar com a efervescência que há nas cidades de Poconé, Rosário Oeste e Nobres.

Se tirarmos a prova dos nove, as bandas de lambadão lançam mais discos e produzem mais eventos regularmente do que qualquer outro ritmo em Mato Grosso. Inclusive mais que o sertanejo, que é quase unanimidade na classe média aqui em Cuiabá. Mas você, amigo de qualquer lugar do Brasil, não se espante se não sabe dessa produção toda. Nem os cuiabanos fazem ideia do mercado que se sustenta por trás do lambadão.

Os lambadeiros não aparecem na TV, no rádio, no jornal impresso nem nos sites de grande audiência. Isso porque nem a imprensa consegue enxergar em que contexto o lambadão está inserido.

Pois eu digo: dentro desta nova configuração musical brasileira (na qual micronichos musicais como o arrocha baiano, o tecnobrega paraense, o reggae maranhense e até o sertanejo ganham força dentro da world music), o lambadão se destaca sendo um gênero musical único do Mato Grosso. E isso acontece bem na hora em que se precisa urgentemente de uma identidade musical na capital Cuiabá. Parece fácil, poderia ser a solução, mas o bloqueio daqui é forte.

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