O limbo de Regina Duarte entre dois ministérios

Helena Aragão

Após semanas de noivado, Regina Duarte parece amarrada num casamento dos anos 1950. Secretária especial da Cultura há quase dois meses, a atriz tem pouca voz e nenhuma autonomia.

Só nesta terça-feira ela conseguiu nomear seu secretário-adjunto. O advogado Pedro Horta, até então chefe de gabinete e autor de postagens elogiosas ao presidente, assumiu o cargo cuja preferência era de Humberto Braga, braço direito da atriz durante os "proclamas" que se tornou alvo da militância bolsonarista. Enquanto isso, Regina ouve queixa constante de artistas que clamam por apoio à classe, gravemente atingida pelo isolamento imposto pela epidemia de coronavírus.

A questão da autonomia, claro, não se limita à sua gestão. Está aí o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro para comprovar. E não se pode dizer que seja surpresa. Na posse, em 4 de março, Regina lembrou da carta branca prometida para montar equipe, e ouviu do presidente Jair Bolsonaro que ele "poderia exercer poder de veto".

Mas a atriz enfrenta ainda uma situação singular. Assumiu o cargo com a Secretaria Especial da Cultura flutuando entre dois ministérios: o da Cidadania, onde esteve do começo do governo Bolsonaro até novembro de 2019, e o do Turismo, para onde a pasta foi transferida, mas não completamente.

E a mudança sai ou não sai? Difícil saber. Regina teve acesso ao decreto que sacramentava a transferência antes de aceitar o cargo. O documento foi consolidado por seu antecessor, Roberto Alvim, demitido por parafrasear um discurso nazista. Ela assumiu a pasta e propôs mudanças na proposta. O papel foi encaminhado para os dois ministérios. Desde então, silêncio.

Pouco dada a entrevistas, a atriz faz das redes sociais seu meio de comunicação, com postagens favoráveis ao governo. Apesar de ter mantido silêncio sobre a saída de Sergio Moro, reagiu ao pedido por "uma palavra de apoio ao presidente", após a demissão do colega, com um "Sim! #tamojunto pelo Brasil". Resta saber o que vai acontecer antes: o desentrave burocrático entre ministérios ou o fim da paciência da secretária para manter tanta fidelidade sem ter condições para trabalhar.

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