O luto dos cuidadores de idosos: como enfrentar a despedida sem culpa e as fases do doloroso processo

Raphaela Ramos
·4 minuto de leitura
Guilherme Leporace / O vínculo entre cuidador e “paciente” pode ser muito forte, sejam parentes ou não
Guilherme Leporace / O vínculo entre cuidador e “paciente” pode ser muito forte, sejam parentes ou não

RIO - Os cuidadores de idosos cumprem um papel fundamental na sociedade, apesar de muitas vezes não ser notado. A função ganhou destaque em meio à pandemia da Covid-19, em que os mais velhos são os mais vulneráveis, e passou a ser considerada essencial durante a emergência de saúde pública.

A responsabilidade é grande, e o dia a dia, muitas vezes, desgastante. A psicóloga Aline Gomes afirma que as pessoas que cuidam de outras estão entre as que mais sofrem a chamada síndrome de Burnout, um estado de exaustão, cuja prevalência cresceu neste ano:

— A síndrome acomete especialmente os profissionais que cuidam de outras pessoas, como médicos, enfermeiros e cuidadores, e tem como sintomas a tristeza e a raiva. Mas a pessoa muitas vezes não percebe.

E quando o “paciente” se vai, a situação não se torna mais fácil. Renata Bento, psicóloga que integra a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio, explica que, ao cuidar de alguém, a pessoa deposita um grande investimento emocional na relação, por isso, é comum que a morte deixe um sentimento de vazio.

— A pessoa cuidada demanda afetividade, não é só cuidado físico. O luto é individual e depende do tipo de afetividade que existe. Outro fator importante é o tempo: quando a pessoa vai embora de forma inesperada, o impacto pode ser maior. Quando se cuida da pessoa durante um tempo, é possível fazer essa elaboração interna e se preparar — explica Renata.

Nos casos em que a pessoa cuidada é um membro da família, a dor costuma ser ainda maior por causa do vínculo. No entanto, Aline destaca que vários idosos têm relações muito bonitas com seus cuidadores, em algumas vezes até mais forte do que com parentes.

— Um vínculo profissional pode ser tão bonito quanto o familiar — diz Renata.

O luto também pode ser acompanhado por um sentimento de culpa para os cuidadores, que muitas vezes se sentem de alguma forma responsáveis pela morte. A psicóloga Júlia Valderato afirma que o sentimento de arrependimento, de achar que não cuidou direito e que deveria ter feito alguma coisa diferente, é comum:

— Esse sentimento é muito presente precisa ser trabalhado. O cuidador tem que estar sempre se olhando, identificando o que sente, e trabalhar seus sentimentos. Não tem como cuidar do outro sem se cuidar.

As fases do luto

São cinco etapas, que podem se misturar. Não necessariamente a pessoa irá passar por todas, mas costuma sentir ao menos três.

Negação - Como mecanismo de autodefesa, a pessoa que sofreu uma perda pode ter dificuldade em acreditar no que aconteceu.

Raiva - Surgem as lembranças boas e os esforços que foram feitos, e aí entra o processo de culpa, com a pessoa pensando que poderia ter feito algo que não foi feito.

Negociação - A angústia diminui, e a pessoa começa a pensar em como se sentir melhor. Esta etapa também é conhecida como barganha, e muitas pessoas se apegam em crenças religiosas.

Depressão - É o momento de lidar mais diretamente com a perda. Não significa que a pessoa esteja deprimida, mas é preciso ter cuidado para que a fase não se estenda e leve a essa condição.

Aceitação - Fase final do luto, quando é possível vislumbrar esperança e se dar conta de que se fez o que estava ao alcance e que ninguém tem controle sobre os acontecimentos.

Como enfrentar a despedida: nunca é fácil

Viva o luto - É importante se permitir chorar, se tiver vontade, e expor os sentimentos. Se o luto não for vivido no momento inicial, a tristeza e a dor poderão se arrastar. Mesmo que seja uma relação profissional, é comum se envolver, e isso não significa fraqueza.

Converse - Falar sobre o assunto é um dos pontos mais importantes para elaborar os sentimentos e lidar com eles. A rede de apoio de amigos e parentes é essencial quando ocorre uma perda.

Cuide de você - Nas horas vagas, permita-se fazer atividades prazerosas, que tragam alegria e fortalecimento. Cuide também da saúde, mantendo uma boa alimentação e praticando exercícios.

Procure apoio profissional - Falar apenas com parentes e amigos é importante, mas pode não ser suficiente. Nesses casos, é importante buscar um especialista habilitado, que poderá ajudar a ressignificar e passar por esse momento.

Aceite - A morte faz parte da vida de todos, e principalmente aqueles que cuidam dos mais velhos precisam aceitar que um dia ela vai acontecer. Busque estar preparado da melhor forma para quando o momento chegar