O médico não é um monstro

Segunda-feira. O Brasil acorda e lê a primeira notícia da semana: um anestesista estuprou uma parturiente em pleno centro cirúrgico, ao lado dos colegas envolvidos no atendimento à mãe e ao bebê. Não dá para imaginar isso. Não há roteiro de filme de horror ou distopia em que uma cena dessas se encaixe.

A notícia provoca nojo e repulsa, um asco profundo que não sai com nada, nem gato enroscado no sofá, nem passarinho na janela, nem música.

O poeta Carlos Drummond de Andrade conhecia a intensidade desse sentimento, que traduziu em meia dúzia de palavras:

“Minha mão está suja. Preciso cortá-la.”

Há um pedaço de nós que ficou irremediavelmente sujo ao tomar conhecimento dessa abominação. O médico não é um monstro: ele é um ser humano, um semelhante que não chamaria a atenção de ninguém na praia, no restaurante, na fila do supermercado. Estão lá as selfies do homem comum que atestam a sua banalidade, as imagens do jovem profissional exercendo o ofício.

A sua mãe deve ter se sentido orgulhosa ao ver o filho formado, bem-sucedido. Tantos perigos no mundo e o seu rapaz que deu certo, que conquistou uma carreira de prestígio e um lugar na sociedade.

É impossível vislumbrar o horror que domina agora essa mãe (se ela ainda vive). Não há no mundo o que possa limpar o nojo e a vergonha que carregará para sempre.

O seu filho está sujo, é preciso cortá-lo: mas como?

As vítimas diretas do criminoso terão de conviver com a repugnância eterna, mas pelo menos têm o benefício de saber que não têm nada a ver com ele; não a mãe, não a família, portadoras dos mesmos sobrenomes e dos mesmos genes, sujas de “um sujo vil, não sujo de terra, sujo de carvão, casca de ferida, suor na camisa de quem trabalhou”, mas sim “um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto”.

______

Não há punição para um crime assim: não há pena que baste, nem nos criativos registros da Santa Inquisição. Como se paga conspurcar o nascimento de um filho, aquele momento que se aproxima do sagrado? Arranca-se a pele, pica-se o criminoso em pedacinhos, salga-se a terra? E daí?

Não há punitivismo que resolva o caso, até porque esse é um caso que não se “resolve”, na medida em que é impossível compreendê-lo.

A lei não está preparada para o homem que seda e estupra uma parturiente na sala de parto diante da equipe. “Estupro de vulnerável” é um genérico tão insuficiente quanto a pena prescrita no Código Penal, que prevê de oito a 15 anos de reclusão.

A sociedade tem que ter instrumentos para se defender melhor; um criminoso como este não pode voltar a conviver com os seus semelhantes tão cedo.

______

Nas redes sociais, novos perfis usando o nome e a foto do anestesista acumulam centenas de seguidores, enquanto esquerda e direita produzem imagens falsas em que ele aparece ora como bolsonarista, ora como petista.

Monstros? Que nada. Apenas seres humanos portando-se como seres humanos.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos