O mago do samba: Conheça o escultor responsável por todas as peças da campeã Viradouro

Natália Boere
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Artista plástico foi o responsável por todas as 280 esculturas da Viradouro, a campeã do carnaval deste ano

RIO - Um artista dos bastidores do carnaval carioca, cujo nome é desconhecido para a maioria do público, mas cujo trabalho é valorizado e enaltecido por quem já o teve como parceiro. Nascido no Andaraí e morador da Tijuca, o artista plástico Flavio Polycarpo era, até agora, um segredo bem guardado das escolas de samba que o recrutaram como escultor de suas alegorias. Mas este é um ano especial. Aos 50 anos de idade, ele completa 35 de carreira, 31 deles dedicados à Marquês de Sapucaí. E, com a discrição e a modéstia habituais, conquistou seu oitavo título do Grupo Especial, com a Viradouro.

— Quando a escola ganhou, eu me senti recompensado por todo esforço que foi feito, não só por mim, mas por toda a minha equipe. Nosso trabalho começou em junho e só acabou quando o último carro entrou no Sambódromo — conta Polycarpo.

A vermelha e branca contou na avenida a história das ganhadeiras de Itapuã, descendentes de escravas que viviam na Bahia. E teve todas as 280 peças dos seus carros alegóricos e tripés confeccionadas por Polycarpo e sua equipe de quatro pessoas.

— As palavras que o definem são talento e dedicação. Ele é uma pessoa incrível, com uma energia muito positiva. No início deste trabalho, dissemos que este seria um ano de muitas esculturas, e em momento algum ele esmoreceu ou nos deixou desanimar. Ele foi imprescindível ao nos dar o seu olhar, o seu toque e os acabamentos de que precisávamos — elogia Tarcísio Zanon, carnavalesco da escola ao lado do marido, Marcus Ferreira.

Neste carnaval, Polycarpo também foi campeão pela Lins Imperial, escola da Intendente Magalhães, e pela Aliança, agremiação de Joaçaba, Santa Catarina. No Rio, ele ainda foi o responsável por metade das esculturas (cerca de 70 peças) do desfile da Mangueira, que defendeu o enredo “A verdade vos fará livre” e ficou em sexto lugar.

— Flavinho é um artista do carnaval que atravessa gerações e se mantém contemporâneo. Ele é de um vigor artístico sem tamanho e é uma das minhas mãos mais habilidosas. É um luxo poder contar com ele no meu trabalho — destaca Leandro Vieira, carnavalesco da verde e rosa.

Polycarpo começou a carreira aos 16 anos, fazendo painéis para peças de teatro do Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier, onde estudava. Depois, frequentou o curso de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas não chegou a se formar.

Em 1989, foi convidado a produzir esculturas de carnaval no Atelier Getúlio Barbosa pelo então diretor de adereços da Mocidade Independente de Padre Miguel, Geraldinho, que assistiu a um espetáculo com cenário assinado por ele. Aceitou o desafio e começou a fazer pequenas peças. Mas foi o carnavalesco Max Lopes que o levou pela primeira vez para um barracão de escola de samba, em 1991, quando estava à frente da Viradouro.

— Eu o peguei numa garagem, fazendo umas coisas pequenininhas. Vi a maneira como esculpia e percebi que podia passar a fazer peças gigantes. Ele tem um nível de proporção muito perfeito, é muito detalhista. É merecedor disso tudo, porque o caminho dele foi o do trabalho, da perfeição e do bom caráter — constata o carnavalesco.

A maior escultura feita por Polycarpo até agora foi, inclusive, por encomenda de Max: uma deusa que media 27 metros de comprimento por sete metros de altura, para o desfile de 2005 da Mangueira. As peças, que antigamente eram confeccionadas em papel machê, hoje são feitas de blocos de isopor e esculpidas com fio de níquel cromo quente, faca ou serrote. Os projetos e as dimensões são enviados digitalmente pelos carnavalescos de cada escola. Mas nem sempre foi assim...

— O Joãosinho Trinta, com quem trabalhei na Viradouro, falava: “Flavinho, quero um dragão de mais ou menos três ou quatro metros de altura” — lembra Polycarpo, às gargalhadas.

Montado na própria alegoria

Acostumado a acompanhar os desfiles à paisana, para garantir que tudo corra bem com as alegorias na avenida, Polycarpo debutou fantasiado na Marquês de Sapucaí este ano. Foi vestido de Rei Mago em cima de uma escultura de elefante de sete metros de altura, que abria o cortejo da Mangueira junto com um cavalo e um camelo também gigantes. Aceitou um desafio do carnavalesco Leandro Vieira, que perguntou se ele tinha certeza de que era seguro desfilar em cima das peças. Elas tinham três vezes o tamanho de cada animal.

—Leandro falou: “Se ninguém topar, você vai”. Aí, na semana do desfile, ele me chamou no ateliê e pediu para eu vestir a fantasia. Acabei aceitando. A sensação de desfilar em cima de uma alegoria que você fez é indescritível. Chorei muito, foi uma consagração. Eu me senti, literalmente, coroado — conta Polycarpo.

Encerrado o carnaval, ele voltará as atenções para a Polyscultura, empresa que abriu em 2015 em Del Castilho. O foco são peças para festas de 15 anos, festivais de música e comerciais de televisão. Polycarpo também tem no currículo painéis de shoppings, restauração cenográfica em filmes e esculturas na exposição permanente do Forte de Copacabana.

Ele ainda não tem qualquer contrato fechado com escolas de samba para o carnaval do ano que vem. Mas torce para realizar um desejo pessoal.

— Sou devoto de Nossa Senhora Aparecida e tenho muita vontade de fazer uma escultura dela em tamanho monumental. Ela foi responsável pela união da minha família, tenho muito a agradecer — afirma.

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