'O manto da noite': Muito além de uma bela paisagem

A habilidade de narrar o inenarrável, ambígua apenas na aparência, é o que converte textos oníricos ou de fluxo de consciência em grandes livros. “O manto da noite”, romance mais recente da escritora Carola Saavedra, consegue este feito com uma voz potente, permeada de profundas ancestralidades, e que transforma subjetividades tão inconscientes das identidades latino-americanas em uma obra lúdica, sensível e que ao mesmo tempo é um dedo pesado em feridas doloridas.

Trata-se de uma história contada a partir de tempos sobrepostos, signos e símbolos típicos da linguagem dos sonhos, muito bem pensados e inseridos de forma meticulosa em uma narrativa diversa, que vai do texto em primeira pessoa ao teatro. Uma personagem de corpos místicos e políticos, ora menina, ora mulher escritora, ora animal, nascida no Chile e que foi morar ainda criança com sua família no Rio, busca as essências de sua identidade na direção que o pintor e escritor uruguaio Joaquim Torres Garcia já apontava, se quisermos descobrir quem somos: nosso Norte é o Sul. Caminha incessantemente pela Cordilheira dos Andes nessa direção e tem a própria cordilheira — lindamente personificada, como em várias tradições indígenas andinas — , uma das vozes mais importantes de toda a narrativa, a que destaca a ancestralidade de povos originários por tanto tempo apagada. Interage com ela, ao mesmo tempo em que também revisita suas origens espanholas em Madri e caminha por um Rio de Janeiro assolado por uma guerra contra o fascismo. Apesar das claras diferenças e dos momentos históricos que os separam, é impossível não ver no romance de Carola traços do realismo mágico, um dos mais importantes e conhecidos movimentos literários latino-americanos e que tem no colombiano Gabriel García Márquez um dos seus principais expoentes.

A busca pelas origens da personagem é transposta de forma simbólica durante todo o livro para o plano coletivo e para os desafios e dificuldades seculares nas construções identitárias e nacionais latino-americanas. E a presença do colonizador se faz tanto nas caravelas europeias quanto na extrema direita brasileira que bombardeia impiedosamente e desfigura a paisagem do Rio de Janeiro, histórias que se repetem na violência dizimadora de vidas dos antigos e a dos modernos, e que leva a personagem a caminhar ao mesmo tempo sobre mortos centenários na cordilheira e sobre pilhas de cadáveres ainda frescos na Zona Sul carioca.

Em outros momentos, o invasor também é representado ironicamente como um fungo extraterrestre, praga capaz de extinguir a Humanidade e tema de um dos livros fracassados da escritora.

Nenhuma palavra sobra durante a leitura, mas quase todas transbordam seus sentidos literais e abrem passagem para diversos níveis de interpretação. Dos anjos e missas crioulas que relembram a imposição da fé cristã, ao berçário de baleias na Baía de Guanabara, não muito distante do boêmio bairro da Lapa, em chamas, e que juntos ressaltam a destruição da natureza e das sociedades provocada por dominações de diferentes tempos.

Nada é tão emblemático, contudo, quanto a figura de Caliban, que aparece na parte final, referência direta ao ser mitológico descrito em ensaios de Montaigne e depois convertido em personagem na peça “A tempestade”, escrita por Shakespeare em 1610. Monstro de traços humanos e animalescos e por muito tempo usado para simbolizar a selvageria dos indígenas caribenhos, e que na versão de Carola surge no Rio em uma caravela, e mostra que é preciso mudar o passado para mudar o futuro, é preciso recontar, reviver, reformatar.

“O manto da noite” pode ser apontado como uma das obras literárias recentes com mais características decoloniais, campo do saber que se debruça sobre a necessidade de libertação, em seu sentido mais amplo — cultural, político, econômico e ideológico — dos povos um dia colonizados, mas ainda subalternos à mentalidade colonizadora. Em um país ainda preso às referências, gostos e opiniões de antigas metrópoles, inclusive na literatura, isso não é pouca coisa.

O romance, contudo, passa longe de ser um texto acadêmico ou um manifesto político, é uma linda história onde tanto a forma quanto o conteúdo rompem de forma lírica com o complexo da dependência, e onde as personagens, com suas tantas vozes e corpos, alertam para o quanto são imperativas nestes tempos de disputa política e narrativa com forças retrógradas a retomada de antigas identidades e, a partir delas, a construção de formas contemporâneas e menos colonizadas de nos olharmos no espelho.

Leonardo Valente é escritor e jornalista, autor, entre outros livros, de “Criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos”