‘O mundo das artes marciais perdeu o jovem que sonhava em lutar no UFC’, diz mestre de lutador morto durante ação policial na Zona Norte

Amigos e familiares do lutador Bruno Esteves de Mello usaram as redes sociais para lamentar a morte dele, nesta quarta-feira. Bruno foi morto durante uma operação da Polícia Civil na comunidade de Manguinhos, na Zona Norte do Rio, na tarde de terça-feira. Outras duas pessoas também foram baleadas na ação.

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Após a morte, agentes alegaram que Bruno tinha anotações criminais por porte/posse ilegal de arma de fogo, tráfico de drogas e associação para o tráfico. Em um relato publicado no Facebook, o professor de artes marciais Hugo Ricardo, mestre de Bruno, afirmou que o esporte tinha dado uma segunda chance ao lutador, que havia sido preso em 2016.

“Ele era aluno de um amigo, mas teve problemas com a justiça, terminou sendo preso. Quando saiu, veio me procurar e falou ‘mestre, preciso de ajuda, nunca mais quero me envolver com nada, quero ser um lutador de MMA, tenho um plano na minha vida”, relatou Hugo.

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Desde então, segundo os relatos de amigos e familiares, Bruno se dedicou integralmente à evolução no esporte e ao sonho de ser lutador profissional. No vídeo, o mestre de Bruno diz, ainda, que o acolheu por acreditar na segunda chance e no poder do esporte.

“De prontidão acolhi ele, porque acredito que todas as pessoas tem segunda chance, direito de querer ser algo na vida, ter um sonho. Acredito muito no esporte, acredito muito nas pessoas voltarem a ter o direito de ser algo pelo esporte, interagir com o esporte. O esporte educa, salva, resgata. Bruno passou a treinar comigo, ir todos os dias para a academia, se dedicar, ser campeão (..) Passou a ser atleta profissional de [MMA] amador, onde fez diversas lutas em diversos eventos importantes”, contou o professor.

Recentemente, o lutador tinha conseguido uma vaga como instrutor no projeto Escola de Lutas, por indicação de Hugo Ricardo. Segundo os relatos, também estava com viagem marcada para uma nova competição.

“Hoje é um dia muito difícil para mim. Perdi um menino, meu atleta, Bruno Mello. Ele foi assassinado em uma incursão policial na favela de Manguinhos, onde foi nascido e criado (...) Vai deixar muitas saudades e um buraco no coração de todos nós. O mundo das artes marciais perdeu o jovem que tinha o sonho de lutar no UFC. Deixo aqui meu relato do Rio de Janeiro sangrento que se tornou”, publicou o mestre de Bruno.

Além do professor, outras pessoas usaram as redes sociais para comentar a perda de Bruno Mello. No Twitter, um vídeo mostra o momento em que o corpo de Bruno é retirado do local. Ao lado, moradores gritavam por justiça. Em um dos muros da rua, os cinturões conquistados pelo lutador durante sua breve carreira foram expostos em protesto.

A operação

De acordo com a polícia, agentes da DRFC faziam uma ronda na Avenida Leopoldo Bulhões nesta terça-feira, em pontos de maior incidência de roubo de carga no bairro. Na ocasião, os policiais se depararam com um grupo de cerca de 20 pessoas que estavam na via, perto de caixas de laticínios, carne e frango congelados. Ao avistar a viatura, uma parte do grupo teria fugido para dentro da comunidade e outra parte seguiu na direção da linha do trem.

Na sequência, a equipe da DRFC parou no local para realizar a abordagem e verificar a procedência da carga. Nesse momento, os policiais relataram ter ouvido os disparos e acionaram a Core para prestar apoio. Parte dos produtos foi apreendida pelos agentes, que investigam de onde essa carga foi roubada.

Com a incursão da Coordenadoria na comunidade, houve troca de tiros entre policiais e criminosos. No confronto, três pessoas foram atingidas e uma delas não resistiu e morreu no local. Segundo os agentes, Bruno Mello tinha anotações criminais por porte/posse ilegal de arma de fogo, tráfico de drogas e associação para o tráfico. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), responsável pelas investigações, realizou perícia no local.

Por conta da ação policial, uma escola em Manguinhos atuou de forma remota nesta terça-feira para "garantir a segurança de alunos e funcionários, em decorrência de instabilidade na área", conforme informou em nota a Secretaria Municipal de Educação. O Centro de Atenção Psicossocial Carlos Augusto Magal (CAPS) e a Clínica da Família Victor Valla, também fecharam para a "segurança de profissionais e usuários", nesta terça, segundo informação da Secretaria Municipal de Saúde.