O nome por trás dos Tambores do Olokun

Mariana Teixeira
Alexandre Garnizé, um dos fundadores do Tambores de Olokun, grupo percussivo e de dança com inspiração no candomblé e do maracatu

RIO — A temporada de carnaval acabou e com ela algumas atividades que vão deixar saudade. A lista inclui os ensaios abertos do Tambores de Olokun, que une a percussão com a dança e faz referência à linguagem do candomblé, além de se inspirar no maracatu de baque virado do Recife. Nos ensaios, o batuque característico e o movimento das saias dominam o Parque do Flamengo. De setembro até o fim da folia, a área é ocupada pelos 300 membros do grupo, regidos por Alexandre Garnizé.

O músico, de 48 anos, nasceu na cidade de Camaragibe, em Pernambuco, e sempre esteve envolvido em projetos sociais com jovens da periferia. Vinte anos atrás foi convidado por Marcelo Yuka para integrar uma banda no Rio de Janeiro. Com o fim do grupo, começou a dar aulas no Complexo da Maré e sentiu necessidade de trazer o maracatu para o Rio. Incentivado pelos alunos, criou o Tambores de Olokun.

— O tambor é a minha vida. Eu só estou vivo hoje por conta da música. O Tambores (de Olokun) é a arte do encontro. É onde eu boto para fora meus bichos, onde eu utilizo minha música como arma. Eu gostaria que fosse um grupo itinerante — diz Garnizé.

Segundo o pernambucano, o maracatu, assim como o candomblé, vem da periferia e os dois se tornaram práticas escondidas. Por isso, ele insistiu que os ensaios do Tambores de Olokun ocupassem espaços da Zona Sul.

— As pessoas têm que entender que eu não quero falar da minha história de preto que sai da periferia para outro preto que sai da periferia. Eu quero falar para branco que mora na Zona Sul. Eu uso o Aterro como um terreiro a céu aberto, onde está todo mundo misturado e ninguém sabe quem é rico e quem é pobre. O que me interessa é fazer dali uma embaixada pernambucana, aquele espaço é onde eu sou mais pernambucano — afirma.

Assistir ao grupo se tornou um evento para muitos cariocas e Garnizé faz questão de exaltar o valor histórico e sociopolítico do Tambores. O objetivo é que as pessoas saibam de onde veio o maracatu, que desmistifiquem o candomblé e conheçam um pouco da história do povo negro, muitas vezes negada.

Desde 1998, o músico e historiador viaja o mundo dando palestras em escolas, universidades e comunidades sobre música afro-brasileira. Este ano, foi convidado para participar de um programa de educação musical para crianças e adolescentes no Benin, na África. Para que a viagem seja possível, Garnizé lançou uma vaquinha on-line para arrecadar verba e comprar passagem e instrumentos novos para os jovens.

— A África é um ponto de retorno para todo brasileiro. Essa minha ida é para fomentar, me conectar e trocar. Eu já tirei tanto de lá, música, religião, por que não devolver? — indaga.

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