O nutricídio da classe média do país

No próximo mês, completará um ano que escrevo quinzenalmente neste espaço. Falei sobre obesidade, alimentos, nutrientes, dietas e escolhas alimentares, assuntos que estudo e trato em consultório diariamente, tentando desmistificar a Nutrição e exaltando a importância da comida nos contextos social, cultural e comportamental.

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Porém, depois das manchetes sobre o preço do leite, comercialização de pele e osso de carnes, pontas de macarrão instantâneo, faz-se necessário abordar a alimentação em seu contexto político especificamente.

Desde 2015, o Brasil voltou ao mapa da fome mundial, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e essa situação se agravou em 2020 com a pandemia da Covid-19. Um país entra no mapa da fome da ONU quando mais de 2,5% da população enfrentam falta crônica de alimentos. No Brasil, estima-se que esse número esteja em 4,5%. Isso quer dizer que quase 5% dos brasileiros não sabem quando farão a próxima refeição.

Alguns de nós podem pensar que apenas os mais pobres terão insegurança alimentar e que a classe média consegue ao menos substituir os alimentos mais caros por alternativas que possibilitam fazer pelo menos três refeições ao dia. Não é bem assim. A partir do momento em que carne fresca é substituída por salsicha, creme de leite por mistura de creme de leite e soro, leite em pó por composto lácteo, requeijão por creme de queijo com amido de milho, ou seja, substituir a proteína por carboidrato a fim de baratear o custo e aumentar a venda, observa-se um fenômeno denominado nutricídio, ou seja, o genocídio nutricional.

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O nutricídio é um termo adotado pelo médico Llaila O. Afrika, usado para definir a degradação da saúde das pessoas negras pela falta de alimentação. No Brasil, o nutricídio está cada dia mais presente no nosso cotidiano, intensificado pela pandemia e diminuição de investimentos em políticas públicas sociais.

O marketing da enganação reforça esse movimento. Anuncia-se sanduíche de picanha ou costela que não possui como ingredientes nenhum dos dois cortes de carne, sucos em que a concentração da fruta é de 0,2%, praticamente composto por água, açúcar, corantes e aromatizantes.

Na maioria das vezes, o nutricídio na classe média é imperceptível e silencioso. Você tem a sensação de que está comendo, faz todas as refeições, não passa fome, não tem a dor do estômago vazio, de não saber o quê ou se vai comer na próxima refeição, tem acesso à comida e, por isso, não se iguala aos quase 61 milhões de brasileiros que enfrentam dificuldades para se alimentar. Não precisa vender nenhum bem para pagar a fatura do açougue, no máximo, parcela a conta do supermercado para encaixar no orçamento.

E como funciona esse genocídio nutricional da classe média? A renda diminuiu, seja pela diminuição da oferta de empregos, seja pelo aumento dos preços causado pela guerra internacional. E, a indústria, a fim de baratear seus produtos ou de manter os preços, vem lançando alternativas menos saudáveis e fazendo com que a população consuma alimentos cheios de gorduras/açúcar/aditivos. O consumo prolongado desse tipo de alimentos, aliado à inatividade física, sobrecarga do sistema público de saúde, estresse, condições inadequadas de habitação faz a população adoecer.

Doenças como obesidade, colesterol alto, diabetes e osteoporose, entre outras, podem surgir como consequência de uma alimentação rica em produtos ultra processados. São normalmente doenças silenciosas, que não causam nenhuma dor, incômodo e, quando causam, estão em um estado avançado que dificulta sua cura ou remissão. Sem tratamento adequado, podem levar à incapacidade e à morte.

Desde fevereiro de 2010, a alimentação saudável e adequada foi incluída entre os direitos sociais previstos no artigo 6º da Constituição Federal e é necessário fazer valer esse direito na hora de escolher o próximo governante do país.

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