‘O público europeu está cansado da guerra na Ucrânia’, diz estudioso das relações entre Rússia e Ocidente

O búlgaro Ivan Krastev, cientista político do Instituto de Ciências Humanas em Viena, é considerado um dos mais originais pensadores da geopolítica em atividade na Europa. Estudioso da democracia e das relações entre a Rússia e o Ocidente, nesta entrevista ele discute as divisões europeias frente à guerra, o temor de um inverno sem gás barato russo e qual tipo de acordo pode satisfazer Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky.

O quão sério o senhor julga ser o cansaço do público na Europa com a guerra?

Em qualquer crise, em particular quando se trata de algo que não acontece na sua frente, após um interesse muito intenso inicial, há uma espécie de cansaço. As pessoas não acompanham os temas como antes, mas isso não significa que mudaram de posição: só mudou a intensidade do interesse. É basicamente isso o que vemos agora na Europa. Nos dois ou três primeiros meses, a primeira ação das pessoas ao acordar era se informar sobre a guerra, e agora não. Além disso, há as férias de verão: na Europa, nenhuma crise é grande o bastante para atrapalhá-las.

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O senhor conduziu uma pesquisa de opinião na Europa sobre a guerra. Quais são as principais convergências?

A maioria dos europeus em todos os Estados que pesquisamos culpa a Rússia pela guerra. Isso vale tanto para Polônia e Romênia, vizinhos da Ucrânia, como para os distantes Portugal ou Espanha. Esta é uma guerra em preto e branco, e a Rússia é vista como errada.

E em termos de divisões, quais são as maiores?

Há um lado que quer parar a guerra o mais rápido possível, mesmo que isso signifique o sacrifício pela Ucrânia de partes de seu território, e outro lado que defende a expulsão de todas as tropas russas. Chamamos estes grupos de “partido da paz” e “partido da justiça”. No lado da paz está quem prioriza o fim da guerra, e são muitos; a maioria dos países que estudamos, na verdade, com exceção da Polônia, onde o partido da justiça prevalece. O lado da paz culpa a Rússia pela guerra, mas quer um cessar-fogo por várias razões, seja porque acreditam que haverá muitas vítimas, ou então que, no fim das contas, a Ucrânia sairá derrotada.

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E em termos de reação, como os europeus entendem que devem reagir?

Há também diferenças sobre como as pessoas acreditam que a Europa precisa mudar por causa da guerra. Em países como a Polônia, mas também Alemanha e Suécia, as pessoas querem um grande aumento de suas capacidades de defesa e orçamentos militares. Já em outros países como a Itália a população não acredita que a guerra seja uma razão séria para aumentarem seus orçamentos militares. Mas, de forma geral, e isso é algo comum a todos os europeus, está muito claro para as pessoas que as relações com a Rússia vão mudar drasticamente devido à guerra, independentemente de como o conflito vai acabar. As pessoas entendem que haverá separação econômica e, em certa medida, cultural entre Europa e Rússia

O que pode exacerbar essas tensões?

O que mais vai afetar o público é o que acontece no campo de batalha. Qualquer tipo de morticínio pode mudar as percepções. Além disso, quem está ganhando e quem está perdendo? Há ainda o custo econômico, sobretudo a inflação da energia, que afetará muito a vida cotidiana. Mas a mudança mais importante é a seguinte: nos furiosos primeiros dias da guerra, a União Europeia estava muito mais segura, porque a opinião pública exigia uma resposta dura. Agora, essa unidade depende mais dos líderes políticos, porque o público está muito mais cansado da guerra, e sua posição se tornará mais diversificada.

O gasoduto Nord Stream 1 está em manutenção, e a Rússia reduziu o seu abastecimento. Após o conserto, o fornecimento para a Europa se normalizará?

Acredito que a Rússia cortará o fornecimento, porque o presidente Putin sabe que nos próximos três ou quatro meses ele terá maior poder de influência com a energia. No final do ano, os suprimentos europeus já serão muito mais variados. Podemos fazer uma piada: se antes o mais famoso dos generais russos, o “general inverno”, atuava dentro da Rússia, agora querem enviá-lo para trabalhar na Europa. Mas os europeus, sobretudo os alemães, estão se preparando muito para isso.

Estão mesmo? O governo alemão às vezes parece temer muito ficar sem gás no inverno.

Ninguém quer comprar uma energia muito cara, e não podemos esquecer que grande parte da competitividade alemã se baseou em gás russo barato. As mudanças estruturais para a Alemanha são de uma importância incrível. Mas as elites políticas e o público do país sabem que não há caminho de volta. Portanto, pretendem fazer racionamento. Serão tempos difíceis, e indústrias inteiras serão cortadas. Mas a Alemanha entende que não pode mais viver da misericórdia de Putin. Ninguém gosta do que está acontecendo, mas não há mais escolha.

Quais serão os efeitos econômicos para a Europa de um embargo total do gás russo?

Grande. Provocará uma recessão na Europa, e criará um grande problema para muitas empresas. A economia de vários países dependia do gás russo barato, então haverá uma crise real. De certa forma, a crise com a Rússia significa a repetição de todas as crises da última década. A recessão econômica pode ser mais profunda do que durante a crise financeira global e durante a pandemia, e os refugiados ucranianos superam em mais de duas vezes os que vieram durante a crise síria. Ou seja, é muito sério. Por outro lado, a Europa está mais bem preparada para responder, porque, a partir dessas crises, desenvolveu novos instrumentos.

O efeito bumerangue das sanções econômicas foi bem avaliado?

Houve uma ligeira superestimação do poder da arma econômica. As sanções não podem impedir a guerra, aprendemos. E, também, que sanções são muito dolorosas para todos os lados em um curto prazo. Então, a Europa vê a transição de um mundo em que o mais importante era o “soft power”, a atratividade de seu modelo econômico, político e social, para um mundo em que tudo diz respeito a resiliência, a quanta dor você pode aguentar para defender seus objetivos e seu modo de vida. E, para a Europa, este teste de resiliência não é fácil. Estamos muito acostumados a uma vida confortável.

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Comparada aos EUA, qual pressão a Europa pode exercer sobre a Ucrânia para buscar um acordo com a Rússia?

É claro que a Europa fornece a maior parte do dinheiro que mantém a Ucrânia funcionando, mas há duas questões principais quando se trata de usar essa capacidade para pressionar Kiev. Primeiro, muitos europeus têm a sensação de que não temos o direito de fazer isso, porque são os ucranianos que estão morrendo, então a decisão cabe a eles. Além disso, a Europa está dividida entre, de um lado, países como Suécia e Polônia, que acreditam que um compromisso não trará mais segurança para a Europa, mas ao inverso, trará mais insegurança, e, de outro, os que acreditam que um cessar-fogo é preferível a um conflito prolongado. Por esta divisão, não pode haver uma pressão europeia comum. Desse ponto de vista, a diferença é que os EUA têm um governo, e a Europa tem 27.

Alguém realmente acredita que a Ucrânia consiga expulsar a Rússia de seu território?

Não penso que muitas pessoas acreditem que a Rússia vá sair da Crimeia [anexada em 2014], mas muita gente, a maioria dentro da Ucrânia, mas também algumas pessoas fora, acredita que os russos podem ser obrigados a retroceder às fronteiras de antes da guerra. A ideia da vitória é vagamente definida dos dois lados: para a Rússia, também é claro que a vitória não é mais a mesma coisa que Putin esperava no início. Não tenho certeza se muitos ucranianos realmente acreditam que vão expulsar a Rússia de todos os territórios, mas, para eles, é fundamental empurrar a Rússia para trás e mostrar que as invasões militares podem falhar. A definição do que é uma vitória e um fracasso será central durante as negociações.

Que tipo de perdas você acha que a Ucrânia pode tolerar antes de ser forçada a um acordo?

O fator mais importante é o tempo, quem vai perder mais enquanto a guerra se prolonga. Do lado ucraniano, apostam em duas coisas: que a sua motivação é muito maior no combate e que essas pequenas armas sofisticadas ocidentais cheguem. Ao mesmo tempo, um risco elevado é que, quanto mais a guerra se estende, mais os refugiados ucranianos, sobretudo mulheres e crianças, ficam fora do país, e a probabilidade de voltarem diminui. O despovoamento da Ucrânia é um risco enorme.

E o que a Rússia arrisca?

No momento, Putin tenta pelo menos consolidar seu poder no Donbass sem fazer uma mobilização parcial, porque a guerra não é particularmente popular entre os mais jovens. A população russa vê a guerra da mesma maneira que um torcedor acompanha o próprio time. Estão prontos para assistir e torcer, mas não querem participar nem entrar em campo. Então, se houver uma mobilização e os jovens russos forem convocados, não está claro qual será a reação. Ambos os lados avaliam suas condições econômicas e psicológicas, e a história que podem vender ao público. Porque, para esse tipo de cessar-fogo funcionar, ambos os lados precisam ter a sensação de que foram ao menos em parte bem-sucedidos.

Quais conquistas poderiam a satisfazer Putin?

O objetivo mínimo é o controle sobre o Donbass, e ele provavelmente pode conseguir isso até o final do verão. O problema é: ele está preparado para ficar lá? Em segundo lugar, ele está preparado para tentar anexá-lo como parte da Federação Russa? Estamos falando de áreas que estão totalmente destruídas, onde já não há muitas pessoas. É uma zona devastada e deserta.

Em um contexto de rivalidade entre grandes potências, qual espaço vai haver para países que não estão automaticamente alinhados a um oulado, como Brasil ou Índia?

Eu não acredito que será como na Guerra Fria, com um campo americano muito consolidado. Também não acredito que será o Ocidente contra o resto. Haverá fragmentação, e o que veremos é que, embora particularmente o confronto entre Estados Unidos e China tenha uma dimensão estrutural muito importante, países como Brasil, Índia, Turquia, Israel, Arábia Saudita e assim por diante serão extremamente ativos, porque são muito grandes e importantes para não fazerem nada, e o mundo está muito desordenado para que possam se sentir seguros. Então,veremos muitas atividades dessas potências médias. E, ao contrário da Guerra Fria, quando a polarização geopolítica foi capaz de disciplinar os países, agora a fragmentação será muito mais poderosa do que a polarização geopolítica e em diferentes partes do mundo. Vamos ver uma dinâmica política diferente. Então todos estes países vão tentar maximizar a sua margem de manobra. Basicamente, vão buscar ter o máximo de liberdade de ação possível.

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