Tiago Camilo ataca o estagnado judô brasileiro e incomoda

Tiago Camilo comemora medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em 2015 (AP Photo/Julio Cortez)

Por Alessandro Lucchetti

O semblante é calmo, a fala, pacata. Paulista de Tupã, mas criado em Bastos, a cidade que tem o maior plantel de galinhas de postura do país, Tiago Camilo nunca chamou a atenção por entrevistas assertivas nem por declarações contundentes. No entanto, o judoca que orgulha a capital do ovo (a forma como se distingue Bastos, por antonomásia) deu à Folha de S. Paulo uma entrevista que chacoalhou a pasmaceira da CBJ (Confederação Brasileira de Judô). “O judô brasileiro está ultrapassado”, disse o campeão mundial dos meio-médios do primeiro Mundial realizado no Rio, em 2007.

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O tupãense relatou ao jornalista Daniel E. de Castro que Ney Wilson, o gestor de alto rendimento da CBJ, havia oferecido a ele o cargo de treinador-chefe da seleção brasileira masculina. A notícia não é nova – o Uol já havia informado a respeito disso, em abril do ano passado. Mas Camilo deu detalhes. Disse que apresentou um projeto de integração e desenvolvimento de um plano nacional de treinamento e que pediu carta branca para montar uma comissão técnica. Alega que não foi possível que chegassem a um acordo, por questões orçamentárias e políticas. Bastante crítico, o dono de duas medalhas olímpicas (prata em Sydney, bronze em Pequim) vê o Brasil dependendo de talentos que brotam aqui e acolá, sem um trabalho de fomento que propicie uma renovação bem-feita. O sereno judoca finalmente empregou um discurso que combina com a reconhecida agressividade camiliana no dojô: recorde-se que ele obteve seu título mundial finalizando todas as suas sete lutas no certame por ippon.  

As declarações causaram um certo estrondo na CBJ, lembrando aquele “scataplá” que fazem os corpos dos judocas quando se chocam no tatame, no treino de técnicas de queda. No dia seguinte, foi publicado um texto defensivo da entidade, que contou o número de medalhas colecionadas pelo Brasil nas etapas com status Grand Slam do Circuito Mundial da IJF (International Judo Federation): foram 34 em 2019. Apenas o Japão, com 79, obteve mais.

Ney Wilson atendeu o telefonema da reportagem do Mundo Olímpico no Japão, que recebeu a última etapa de Grand Slam do ano, em Osaka, no último final de semana (22, 23 e 24/11). Instado a comentar as declarações de Camilo, o dirigente logo brandiu o número 34 como argumento. Em seguida, concordou com uma observação do repórter. “Sim, no Mundial o Brasil está devendo”.

Na última edição, encerrada no dia 1º de setembro, em Tóquio, os judocas da seleção masculina brasileira subiram ao pódio apenas para dividir com as colegas da equipe mista a conquista do bronze. Só Rafaela Silva e Mayra Aguiar desfrutaram de conquistas individuais, ambas abiscoitando bronze. É pouco para um país que depende do judô para figurar bem no quadro de medalhas olímpico. Naquele saudoso Mundial de 2007, o Brasil obteve três medalhas de ouro (Luciano Corrêa e João Derly, além de Tiago) e um bronze (João Gabriel Schlilittler).

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Wilson concorda com uma avaliação que predominou num grupo de WhatsApp do qual participam os três repórteres do Mundo Olímpico, ao lado de diversos jornalistas de renome e de outros fanáticos por esportes olímpicos. A passividade, a falta de combatividade e a constante espera por oportunidades de contra-ataque incomodaram esses especialistas.

“Alguns de fato ficam esperando. Boa parte dos judocas do masculino e do feminino adotam essa postura. Temos mudado o treinamento em função disso, e temos pedido para que sejam mais ofensivos”.

Quanto ao convite formulado a Tiago, Wilson destaca que isso se deu antes que a japonesa Yuko Fujii assumisse o cargo. “O Tiago não apresentou projeto algum, apenas colocou suas ideias. Não chegamos a um acordo porque ele não poderia trabalhar full time conosco, devido aos seus compromissos com sua academia e com o Instituto Tiago Camilo, que impediriam que ele fizesse viagens mais longas. A ideia dele era enviar algum outro integrante da comissão técnica para essas competições em locais mais distantes, e nisso divergimos”.

Com tom mais conciliatório em comparação com seu antigo rival, Flávio Canto fez questão de falar das flores. Lembrou que, de fato, os judocas da seleção masculina têm sido ofuscados nos últimos ciclos olímpicos pelo sucesso feminino, encabeçado por Sarah Menezes, Mayra Aguiar e Rafaela Silva. Mas destacou que existe renovação, citando Daniel Cargnin (campeão mundial júnior em 2017), Leonardo Gonçalves (vice-campeão mundial júnior em 2015) e o campeão dos Jogos Pan-Americanos de Lima na categoria até 60kg, Renan Torres (“esse vai chegar”, carimba Canto).

Daniel Cargnin, de azul, é um dos poucos bons nomes da renovação do judô masculino (Reuters/Guadalupe Pardo)

“A estratégia do Brasil é massificar, é dar chances para vários judocas. Já Portugal aposta em poucas categorias. Escolhe alguns judocas e os envia, acompanhados por seus técnicos, para as competições mundo afora. Se o Brasil trabalhasse assim e eu fosse um desses beneficiados, para mim seria melhor. Mas não sei se seria melhor para o Brasil, entende? Lembre que o cara do Brasil na categoria até 73 kg era o Sebastian Pereira (campeão do Pan do Winnipeg). Mas, por ter um sistema mais aberto, a CBJ deu ao Tiago a oportunidade de competir em Sydney (Tiago bateu Sebastian nas seletivas) e ele correspondeu, sendo vice-campeão olímpico”.

Hoje, Canto analisa que a única categoria em que o Brasil está verdadeiramente bem servido é a dos pesados. Ele vê a competição interna entre Rafael Silva e David Moura como um fator que impulsiona o crescimento de ambos, e compara esse nível elevado de competitividade com aquele que se via nos pegas entre Tiago e ele mesmo. Saudosos tempos.  

Mais para o final da entrevista, Canto enfim aponta graves pecados do judô brasileiro de hoje. “Acho inadmissível o Brasil não ser a grande referência no ne waza (a luta de solo). Deveríamos beber da fonte do jiu-jítsu, em que somos tão fortes, e nos fortalecer no solo. Ainda somos fracos no chão, e isso define muitas lutas. O judô mongol colhe frutos do wrestling mongol, o russo se aproveita do sambo, o uzbeque se beneficia do kurash. Por que não aproveitamos o jiu-jítsu? Acho imperdoável”.

Por falar em solo, Canto enaltece o esforço do já citado David Moura, que tomou a iniciativa de procurar o hoje apresentador de programas do grupo Globo para progredir no ne waza. “Acho que o judoca deve ir atrás do seu aperfeiçoamento. Tem que sair da zona de conforto e buscar melhoras. Sempre corri atrás. Treinava wrestling, por exemplo. Nesse aspecto, acho que minha geração era mais comprometida. Quando acaba o seu preparo físico, você tem que estar com seu espírito fortalecido para resistir. E isso você desenvolve no treinamento”, diz Canto, dono de uma medalha de bronze conquistada no Ano Liossia Olympic Hall, em Atenas/2004.

E o que disse à reportagem do Mundo Olímpico aquele judoca de fala habitualmente pacata, nascido na Capital Nacional do Amendoim (Tupã)?

“Estou vendo outros países adotando novos procedimentos e programas. No Brasil, continuamos dependendo de talentos isolados e estamos ficando para trás. E hoje já não temos tantos celeiros. Eu fui revelado em academia, assim como o Aurélio (Miguel), o Honorato (Carlos) e tantos outros. As academias estão sumindo. As crianças e adolescentes têm hoje outras distrações, como videogames e escolinhas de futebol, que se multiplicaram. Note que a academia do Luiz Shinohara, na Vila Sônia, perdeu muitos alunos. Estamos dependendo apenas de projetos sociais. Estou vendo sérios problemas estruturais e problemas técnicos”, diz Camilo.

Na visão do conterrâneo de Tupãzinho, o judô brasileiro não soube se adaptar às mudanças de regra que alteraram a face da arte marcial de Jigoro Kano. “O judô hoje está muito mais dinâmico. Continuamos na quinta marcha, mas os europeus e asiáticos estão na sexta e na sétima. Em Mundiais, vejo que esses países lutam uma luta, e nós estamos lutando outra. O judô pede hoje outro tipo de pegada, outro tipo de entrada, pede mais criatividade e mais velocidade”, diz o antigo colecionador de ippons, hoje com 37 anos.

Segundo Camilo, as dificuldades financeiras da CBJ, que perdeu diversos patrocínios no atual ciclo olímpico, pesaram para que ele não fosse contratado como head coach. Na verdade, hoje a CBJ economiza o salário de head coach – Fúlvio Miyata, que era pago pelos cofres da entidade, saiu em abril do ano passado, e Fujii, que hoje ocupa o cargo, é remunerada pelo COB.

“Mas não é só a questão financeira que nos separa. Antes eu viajava para competir pelos meus sonhos. Hoje teria que viajar pelos sonhos dos judocas. Se fosse para ser head coach da seleção, teria que acreditar no trabalho. Caso contrário, a conta não fecha, já começaria desestimulado. Não tenho pretensões políticas. Teoricamente, hoje sou apenas um torcedor, e não gosto do que vejo. Mas quero destacar que as críticas não são destrutivas”.

Ao ouvir da reportagem as observações que Camilo nos fez, Ney Wilson se sentiu incomodado e disse que vai procurar o vice-campeão olímpico para conversar. De qualquer forma, o dirigente, de forma elegante, agradece a oportunidade de debater o esporte. “O judô só tem a crescer com essa troca de ideias”.

Resta saber se Camilo de fato poderá contribuir para que o judô seja sacudido. Talvez caiba a ele o papel de libertador do atual quadro de pasmaceira. Não seria o primeiro tupãense libertador. O mais antigo representante dessa estirpe foi Tupãzinho, que encerrou o jejum de títulos nacionais de futebol do Corinthians, em 1990.

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