O Palmeiras é campeão mundial? Entenda a polêmica da Copa Rio de 1951

Vitor Seta
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Com o Palmeiras às vésperas do embaque para a disputa de mais um Mundial de Clubes, uma velha discussão sobre títulos volta à pauta. Afinal, o Alviverde é ou não reconhecido como campeão mundial de 1951, ano em que consquistou a Copa Rio? A briga pelo reconhecimento do título como um Mundial de Clubes é uma reivindicação antiga do clube da torcida, e O GLOBO ouviu jornalistas e pequisadores para entender até que ponto tal pedido faz sentido.

O Torneio Internacional de Clubes Campeões, ou Copa Rio,foi uma competição que reuniu Palmeiras, Vasco, Sporting (Portugal), Austria Viena (Áustria), Nacional (Uruguai), Nice (França) e Juventus (substituto do Milan), em uma primeira tentativa de torneio de âmbito internacional entre clubes do mundo. Boa parte das equipes eram as principais campeãs de seus países ou regiões, ou substitutos à altura das equipes desistentes.

O Palmeiras foi à final da competição e bateu a Juventus em duas partidas: 1 a 0 na ida e 2 a 2 na volta. A Velha Senhora, campeã italiana em 1949/50, substituía o Milan, que desistiu da Copa Rio para disputar outro torneio.

— Até ganhar a equivalência da Fifa, não é um Mundial. A Copa Rio é um torneio extremamente importante, o Palmeiras tem razão em comemorar os 70 anos dela e pode pedir a equivalência. A diferença central é as pessoas do mundo conhecerem a história — opina o comentarista Paulo Vinicius Coelho, do Grupo Globo.

Um caso análogo é usado como exemplo pelo jornalista: o do Vasco, que teve reconhecido pela Conmebol o seu título de 1948 do Sul-Americano de Clubes, embora sem equivalência ao de uma Libertadores, que seria criada 12 anos depois. Para PVC, a Copa Rio foi um torneio mais difícil que um Mundial de Clubes.

— O dossiê que o Palmeiras mandou para a Fifa tem relatos de publicações de todos os países que tinha clubes envolvidos. Os jornais brasileiros e uruguaios chamavam de Mundial de Clubes. Os jornais austríacos, portugueses e italianos chamavam de Torneio Internacional do Rio. Isso não tira a importância do torneio, mas tira a equivalência — elabora.

O comentarista ressalta a importância do clube valorizar a conquista, independente das decisões de equivalência ou não. PVC lembra a colocação da estrela vermelha no uniforme do clube, em 2017, em homenagem à glória.

— O Palmeiras tem que comemorar os 70 anos da Copa Rio com o cuidado de deixar claro, "é a nossa conquista, não estou preocupado sobre o que você pensa, essa conquista para nós é muito importante". Quando colocaram a estrela vermelha acima do escudo, ficou bonito e relevante. Tem uma estrela vermelha ali por uma conquista que está no meu coração, não no seu. Está na minha história. Isso é melhor do que brigar para dizer que é Mundial de Clubes enquanto não houver equivalência.

Pesquisador não considera equivalência necessária

Para o jornalista e historiador Celso Unzelte, um possível reconhecimento do torneio como um Mundial de Clubes é desnecessário. Ele ressalta a grandeza do torneio e indica que a Copa Rio é uma competição singular por si só.

— Todas essas tentativas de usar uma nomenclatura atual só desvalorizam um torneio tão importante como a Copa Rio. Ela não precisa desse carimbo de mundial para ser um título importante — avalia.

Segundo ele, a briga dos torcedores se caracteria como um caso de anacronismo, ou seja, exergar um evento passado com os olhos do momento atual e completamente diferente:

— Tenho máximo respeito pela Copa Rio, ninguém está dizendo que ela não foi uma competição importante. Ela simplesmente não teve essa chancela que se procura colocar retroativamente.

Unzelte relembra o papel da Fifa na confusão. A entrada da entidade na organização de competições de clubes contrariou mudou um posicionamento de décadas focado em seleções.

— O grande problema é que até 2000, a Fifa não se ocupava de questões relativas a clubes. Ela transferia essas questões para as confederações continentais e para as federações nacionais. Se você fizer uma pesquisa no 'Jornal dos Sports' da época, vai ver o Jules Rimet (então presidente da Fifa) muito preocupado que a chancela 'campeão mundial' ficasse restrita a seleções, e não a clubes.

Indefinição na Fifa

De fato, até mesmo a Fifa se divide quanto ao reconhecimento do título como um Mundial. Se hoje, o atual mandatário Gianni Infantino descarta qualquer equivalência por parte da entidade, a situação já foi mais favorável ao alviverde em mandatos anteriores.

Em abril de 2019, o antigo presidente da entidade, Joseph Blatter, chegou a declarar, em entrevista ao site Uol que "o Palmeiras é o primeiro campeão mundial e ponto final". Na época, o suíço já não comandava mais a instituição — deixou o cargo em 2015.

É também do período de Blatter uma das principais materialidades utilizadas na argumentação pelos que defendem a equivalência dos torneios. Em fevereiro de 2019, a ata de uma reunião da Fifa realizada em 2014 passou a circular nas redes. O documento confirma o atendimento de uma requisição da CBF pelo reconhecimento do título como a primeira competição mundial de clubes.

Apesar de não ter havido formalidades e da posição intransigente de Infantino, hoje a Fifa trata a Copa Rio como a 'primeira torneio internacional de clubes'. Foi assim que a entidade descreveu o campeonato, em texto de apresentação da final da Libertadores, publicado na última semana.