O texto da Bíblia supostamente descoberto no Irã que aparece em um vídeo viral não é autêntico

Um vídeo visualizado mais de 9 mil vezes nas redes sociais supostamente mostra o pergaminho original do Livro de Ester, um texto bíblico que narra a libertação do povo judeu de um plano para exterminá-lo no século V a.C. As publicações, que circulam pelo menos desde 18 de março de 2022, exibem um objeto com inscrições douradas e afirmam que ele foi "recentemente" descoberto no Irã. Mas especialistas disseram à AFP que a gravação exibe um documento com letras hebraicas aleatórias e que não há indicação de antiguidade genuína.

“O livro original de Megillah Ester. Foi descoberto recentemente no Irã por judeus que moram lá. O pergaminho data de 2500 anos atrás. Tudo está escrito em ouro puro”, diz o trecho de uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Twitter e no YouTube, que também se referem ao texto como sendo de 1.500 anos atrás.

Captura de tela feita em 26 de abril de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

Conteúdo semelhante também circula em espanhol e inglês.

No entanto, especialistas consultados pela AFP disseram que o objeto visto no vídeo, no qual também aparece uma pessoa não identificada desenrolando o suposto pergaminho sem luvas ou qualquer outra técnica de conservação, claramente não é o Livro de Ester nem dessa época. As avaliações foram feitas com base nos escritos e nas marcas no pergaminho.

"Isso é uma falsificação", disse à AFP Lawrence Schiffman, professor e diretor da Rede Global de Pesquisa Avançada em Estudos Judaicos da Universidade de Nova York. "Há uma disposição arbitrária das letras hebraicas. Não estamos diante do Livro de Ester", completou o especialista.

Schiffman destacou que várias antiguidades falsificadas surgiram no Oriente Médio nos últimos anos, mas que o objeto retratado nas imagens não pode enganar ninguém que conheça a história hebraica ou judaica.

O texto é "confuso", ou uma construção com linguagem difícil de entender, já que as marcas de vogais hebraicas abaixo das letras foram usadas muito mais tarde, na época Tiberiana, observou Schiffman. Ele acrescentou que parece não haver correções no pergaminho, algo incomum para um manuscrito antigo.

"As correções deveriam ser vistas; ninguém escreve um texto na primeira versão sem correções", explicou o professor.

O Livro de Ester conta a história da rainha judia que ajudou a evitar uma aniquilação planejada da população durante o tempo de Xerxes I, rei da Pérsia de cerca de 486 a 465 a.C. Este texto do Antigo Testamento inspirou a festa judaica de Purim, que tem caráter carnavalesco.

Um dos mais antigos pergaminhos verificados de Ester, também chamado de Meguilá, foi doado em 2021 à Biblioteca Nacional de Israel. Acredita-se que ele seja de 1465, aproximadamente.

Sem relação

O pergaminho no vídeo não pode ser vinculado a um documento antigo dessa época, disse à AFP Jodi Magness, arqueóloga e professora de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, que trabalhou no Oriente Médio e também foi presidente do Instituto Arqueológico dos Estados Unidos.

Segundo a especialista, o uso da Estrela de Davi sugere que o pergaminho tampouco é uma boa falsificação. "A Estrela de Davi não se tornou um símbolo do judaísmo antes da Idade Média", esclareceu Magness em entrevista por telefone de Jerusalém.

Segundo a arqueóloga, é significativo que o vídeo não ofereça nenhuma prova da proveniência do objeto, impossibilitando a verificação de sua antiguidade. "Não parece antigo, mas de qualquer forma não poderia ser datado antes da Idade Média sem qualquer documentação de suas origens. É impossível para os arqueólogos", disse.

"A arqueologia é como [a série policial norte-americana] CSI. Tem que haver uma cadeia de custódia. É preciso saber onde [o objeto] foi descoberto e em quais circunstâncias, ou não há como verificá-lo", acrescentou.

Com base na falta de evidências, Magness acredita que não valeria a pena submetê-lo à análise científica e que, na falta de informações sobre sua procedência, os arqueólogos não poderiam fazer isso sem violar seu código de ética.

"Eu não perderia meu tempo tentando autenticá-lo", disse. "Parece algo que um dos meus alunos faria para uma tarefa de classe", opinou.

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