O polêmico teste de míssil russo que forçou astronautas a buscar refúgio

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Estação Espacial Internacional (ISS) fotografada pelos membros da tripulação da Expedição 56 de uma espaçonave Soyuz após o desencaixe, em outubro de 2018
Astronautas da ISS estão cada vez mais tendo que tomar medidas de precaução quando fragmentos de velhos satélites e foguetes se aproximam

O governo dos Estados Unidos criticou a Rússia por conduzir um teste de míssil "perigoso e irresponsável" que, segundo eles, colocou em perigo a tripulação a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês).

O teste explodiu um dos próprios satélites da Rússia, criando destroços que forçaram a tripulação da ISS a se abrigar em cápsulas.

A estação tem atualmente sete tripulantes a bordo — quatro americanos, um alemão e dois russos.

A estação espacial orbita a uma altitude de cerca de 420 km (260 milhas).

Como é morar na ISS?

"Hoje cedo, a Federação Russa conduziu imprudentemente um teste de satélite destrutivo de um míssil anti-satélite de ascensão direta contra um de seus próprios satélites", disse o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, em uma entrevista a jornalistas.

"O teste gerou até agora mais de 1,5 mil fragmentos orbitais rastreáveis e centenas de milhares de fragmentos orbitais menores que agora ameaçam os interesses de todas as nações."

O administrador da Nasa, Bill Nelson, disse que ficou indignado com o incidente.

"Com sua longa e célebre história em voos espaciais humanos, é impensável que a Rússia coloque em risco não apenas os astronautas americanos e internacionais parceiros da ISS, mas também seus próprios cosmonautas", bem como "taikonautas" (astronautas chineses) a bordo da estação espacial da China, disse ele em um comunicado.

A agência espacial russa Roscosmos minimizou o incidente.

"A órbita do objeto, que forçou a tripulação hoje a se deslocar para a espaçonave de acordo com os procedimentos padrão, se afastou da órbita da ISS. A estação está na zona verde", escreveu a agência no Twitter.

A origem dos destroços, que não causaram maiores danos, está agora sob os holofotes.

Eles parecem pertencer a um satélite espião russo desativado há muitos anos, o Kosmos-1408, pesando mais de uma tonelada e lançado em 1982.

LeoLabs, uma empresa de rastreamento de detritos espaciais, disse que sua instalação de radar na Nova Zelândia detectou vários objetos onde a nave espacial extinta deveria estar.

Price descreveu a ação russa como "perigosa e irresponsável" e disse que isso demonstra que as "alegações do país de se opor ao armamento do espaço são falsas e hipócritas".

"Os EUA trabalharão com nossos parceiros e aliados para responder a seu ato irresponsável", disse ele.

E o secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, disse que o teste "mostra um desprezo total pela segurança, proteção e sustentabilidade do espaço".

"Os destroços resultantes deste teste permanecerão em órbita, colocando satélites e voos espaciais humanos em risco por muitos anos", acrescentou.

Análise por Jonathan Amos, correspondente de Ciências da BBC

É difícil não ver os testes de mísseis anti-satélite como uma forma de loucura.

É impossível controlar o campo de destroços que resulta de um impacto de alta velocidade. Milhares de fragmentos são produzidos. Alguns serão lançados para baixo em direção à Terra e fora de perigo, mas muitos também irão para altitudes mais elevadas, onde vão pertubar missões operacionais por anos no futuro - incluindo aquelas do estado-nação que realizou o teste.

O que os cosmonautas russos na estação espacial pensaram quando se abrigaram em sua cápsula Soyuz na manhã de segunda-feira, devido ao risco de que os fragmentos deste teste atingissem onde estavam?

O lixo espacial é uma situação que piora rapidamente. Sessenta e quatro anos de atividade acima de nossas cabeças resultaram em cerca de 1 milhão de objetos viajando descontrolados por lá na faixa de tamanho de 1 cm (0,4 pol.) a 10 cm.

Um impacto de qualquer um desses poderia ser o fim da missão de um satélite de clima ou telecomunicações vital. As nações precisam limpar o ambiente espacial, não poluí-lo ainda mais.

Vários países têm a capacidade de lançar satélites ao espaço, incluindo os EUA, Rússia, China e Índia.

O teste de tais mísseis é raro, mas sempre atrai ampla condenação sempre que ocorre, porque polui o ambiente espacial para todos.

Quando a China destruiu um de seus satélites meteorológicos aposentados em 2007, ela criou mais de 2 mil fragmentos rastreáveis. Este material representava um perigo contínuo para as missões espaciais operacionais, principalmente as da própria China.

Brian Weeden, um especialista em consciência situacional do espaço, disse anteriormente que, se fosse confirmado que a Rússia havia conduzido um teste que colocava a ISS em perigo, a conduta teria sido "além de irresponsável".

A estação espacial ocupa uma concha orbital que outros operadores tentam manter longe de satélites, estejam funcionando ou aposentados.

No entanto, os astronautas estão cada vez mais tendo que tomar medidas de precaução quando fragmentos de velhos satélites e foguetes se aproximam.

A velocidade com que esse material se move significa que ele pode facilmente perfurar as paredes dos módulos da estação.

A precaução costuma envolver o fechamento de escotilhas entre os módulos e, como aconteceu na segunda-feira, a escalada nas cápsulas que levaram os astronautas até a estação. Esses veículos ficam presos à ISS durante todo o período de serviço das tripulações, caso haja a necessidade de uma fuga rápida por "barco salva-vidas".

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