O presidente mais silencioso do mundo

José Eduardo dos Santos, o antigo presidente angolano, morto em Barcelona no último dia 8, parece um personagem inventado por Jorge Luís Borges.

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Em 1979, foi escolhido pelo seu partido, o MPLA, para suceder a Agostinho Neto, não por aquilo que pensava ou defendia — mas porque ninguém sabia quais eram as suas ideias. O MPLA estava tentando emergir de uma violentíssima purga interna. Uma das correntes, liderada por um antigo comandante dos tempos da guerrilha, Nito Alves, fora aniquilada, mas várias outras facções se digladiavam em surdina. José Eduardo, um jovem elegante e reservado, que estudara engenharia de petróleos em Baku, na antiga União Soviética, não era visto como ameaça por nenhum dos grupos. Assim, foi ele o escolhido. Um dos seus primeiros gestos foi libertar os dissidentes ligados ao grupo de Nito Alves, bem como outros presos políticos de esquerda, e acabar com os fuzilamentos.

Contra todas as previsões, José Eduardo conseguiu manter-se no poder durante os 38 anos seguintes, sequestrando o aparelho de Estado e enriquecendo prodigiosamente. O seu segredo pra sobreviver num contexto tão difícil? Um silêncio irrepreensível. Muitos jornalistas tentaram entrevistá-lo. Raríssimos conseguiram obter dele mais do que duas ou três suaves e delicadas palavras de circunstância.

Ninguém pode acusar José Eduardo dos Santos de uma gafe, de um pensamento equivocado, de uma frase imprópria ou desastrada. Aliás, ninguém pode acusá-lo de uma frase.

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Diante daquele silêncio inexpugnável, os seus ministros e camaradas de partido estremeciam. Muitos tendiam a derramar-se num excesso de palavras e confissões, expondo as pequenas intrigas partidárias e denunciando quem quer que estivesse sonhando em substituir o chefe. Aos militantes do partido que tentavam fazer-lhe sombra, José Eduardo afastava-os da corte, sem jamais erguer a voz, nomeando-os para cargos diplomáticos em países remotos. Raras vezes ordenou a prisão de contestatários do seu próprio partido.

Contudo, não soube como reagir quando, na sequência da chamada Primavera Árabe, emergiu em Luanda um movimento de jovens pacifistas, que saíram para as ruas clamando por democracia. A prisão dos jovens desencadeou um sismo contestatário, que sacudiu os alicerces do MPLA e terá contribuído para a decisão de José Eduardo, já muito enfraquecido por um câncer, de se afastar do poder.

A História reservou um desfecho particularmente irônico para um homem que governou através do silêncio e da invisibilidade: morto José Eduardo, família e governo disputam, numa gritaria infame, o destino do seu cadáver. O governo angolano, liderado pelo presidente João Lourenço, quer organizar um funeral de Estado, em Luanda; porém, alguns dos filhos, com destaque para Isabel dos Santos (que já foi considerada a mulher mais rica da África), e Tchizé dos Santos, defendem que o pai seja enterrado em Barcelona. Tchizé tem sido particularmente histriônica, acusando, sem provas, o atual presidente angolano de ter mandado assassinar o pai.

Como José Eduardo não terá deixado nenhum documento com os seus últimos desejos — silencioso até ao fim —, a barulheira prossegue.

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