O primeiro amor de 2022

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Arão já nasceu famoso: apareceu nos jornais, nos sites de notícias e em reportagens da tevê. Ele foi o primeiro bebê de 2022. A imagem marcou o começo do ano e deu esperança a todos para enfrentar o que virá. Que o pequeno Arão tenha muita sorte, mas não é para ele esta coluna.

Quero falar aos que viveram o primeiro amor do ano. Sim, leitor, escrevo para os dois que, nos segundos iniciais de 2022, descobriram um sentimento esquecido, talvez perdido, ou mesmo nunca encontrado. Aos que se apaixonaram logo após a meia-noite. Enquanto muitos foram dormir no primeiro dia do ano preocupados com a nova variante da Covid, as besteiras do presidente ou chuva que teimou em cair e outros tantos acordaram elaborando dezenas de planos precisos e exatos para o ano que começa, os apaixonados desligaram o mundo, acenderam a vida e, com encanto, desejo e delicadeza, tornaram o fascínio de um pelo outro a sua única resolução de ano novo.

Podem ter sido os dois desconhecidos que se encontraram por acaso num elevador, atrasados para uma celebração onde já voavam rolhas de espumante. Ela perguntou para onde ele ia, ele sorriu com a coincidência, as mãos se encontraram no botão do primeiro andar. Certas coisas, por sorte, ainda acontecem do nada. Chegaram depois da hora esperada, ficaram apenas o necessário e saíram pelo caminho que o acaso tinha desenhado para eles naquele primeiro momento de 2022. Sentiram no corpo a primeira luz do ano entrar pelas janelas abertas de um quarto com cortinas esvoaçantes. Não foram notícia nos jornais.

Ou então as duas pessoas, conhecidas apenas de vista, que aguardaram a noite toda mensagens que não vieram, tracinhos cinzas que não se tornaram azuis, uma DM vinda do passado que não se fez presente. De onde esperavam tudo, não chegou nada. À meia-noite levantaram — finalmente — o rosto das telas e deixaram seu olhar se conectar off-line. Onde só existiam cinzas frias de afetos e esperanças, surgiu, inexplicável, a faísca.

Deu match. Foi o que bastou para que a solidão e a angústia ficassem para trás, com o ano que passou. Os dois seguiram juntos, em modo avião, por uma longa madrugada. Não, elas não apareceram nas reportagens das tevês

Quem sabe aqueles dois amigos que tentaram durante muito tempo flutuar incólumes entre o desejo e a amizade, escondendo o que ia no fundo com diálogos artificiais e insights dissimulados. Não deu. Na urgência do tempo que escorre, sentindo nos pés a areia da praia e no rosto a brisa do mar, perceberam, no primeiro instante do ano novo, que por cima daquelas nuvens densas e da chuva fina havia estrelas, uma lua minguante e até um cometa voando ao infinito. Faltava só se permitir. Um beijo sob o clarão dos fogos de artifício mostrou a eles há quanto estavam apenas se enganando. A foto dos dois, caminhando de mãos dadas, cintilando em ouro e azul, não foi para os sites de notícias.

O primeiro amor de 2022 pode ter sido o de qualquer um deles. Talvez de outros. Nunca teremos certeza, leitor, e é melhor assim: não fará diferença. Os primeiros apaixonados do ano devem estar saindo agora da cama, do quarto, de casa, para encarar a vida lá fora, o dia a dia, o mundo e as notícias da primeira página. A eles dedico a coluna: este 2022, com muita sorte e a esperança de todos, é de vocês.

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