"O Processo": Filme com F maiúsculo

Foto: Divulgação

* Por Filippo Pitanga

Enfim chega ao Brasil um dos filmes mais aguardados de todos os tempos para o nosso povo, “O Processo” de Maria Augusta Ramos, aclamado no último 68º Festival de Berlim e premiado com o terceiro lugar pelo voto popular, presente agora na programação do maior Festival de documentários da América Latina, o É Tudo Verdade, e em breve estreando no circuito comercial de salas de cinema no dia 17 de maio deste ano. E este que vos escreve esteve presente tanto na primeira exibição mundial do filme na Berlinale quanto em sua chegada no Brasil, com recepções ovacionadas em todos os espaços lotados. Não apenas por pessoas inteiradas da situação política do país, como também por leigos, vide o caso da exibição no exterior que contou com muitos alemães, turistas de outros países e mesmo realizadores da América Latina que também estavam competindo em Berlim e queriam conferir “O Processo”. A questão é que Maria Augusta e sua montadora Karen Akerman tiveram de traçar uma linha narrativa coerente e cronológica, com pungência o bastante para formar um longa-metragem, desbravando por todo o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff em mais de 400 horas registradas por sua equipe (formada em sua maioria de mulheres, por sinal, o que fez toda a diferença para o ‘olhar opositivo’ contestador e crítico para o que se estava captando, como diria a pensadora bell hooks). Sem falar na disponibilidade quase infinita de acervo de arquivo, de jornais a canais televisivos como da TV Senado, ou mesmo de inúmeras outras equipes também filmando a política do país, para outros filmes concomitantes ou outros trabalhos… Dezenas de câmeras todos os dias por vários ângulos numa narrativa que até agora só havia sido contada pelos “vencedores”… ou deveria se dizer: “golpistas”? Ou mesmo “usurpadores”? Então, o que estaria se perdendo entre tantas imagens que talvez não deixassem um ângulo escapar sob tantos olhares?

Estamos vivendo uma disputa de narrativas. Isto é um fato. Porém, acrescenta-se a isto que não se trata de uma disputa justa. Por um bom tempo andamos sendo expostos ao “perigo da história única”, parafraseando a máxima bastante pertinente da escritora africana Chimamanda Ngozi Adichie. As grandes redes de comunicação, impressas e televisivas, receberam muitos incentivos dos últimos governos democráticos que priorizaram acesso à informação e liberdade investigativa, mas as mesmas redes não devolveram absolutamente nenhuma responsabilidade inerente a estas informações prestadas. Como se fossem aquele tipo de documentarista que filma a fome e a pobreza, polui o ambiente ao redor dos documentados, afeta o meio, consome os mesmos recursos que ali estão em jogo, e depois vai embora sem se preocupar no valor da imagem captada e do seu uso potencialmente transformador. Contanto que lucre com a ultraexposição e a coisificação do que antes eram sujeitos de direito — ora transformados em produtos. Produtos na vitrine. Vitrines isoladas. Um produto não pode contaminar o outro, como carnes expostas, pois possuem valores diferentes, de acordo com o quão difícil foi pagar o fornecedor e o abatedouro, e, como estamos lidando com carne humana…alguém teve de se tornar a caça e outrem o caçador. Foi assim que foram feitos negócios lucrativos pelo monopólio da imagem, e que vem sendo tratada como imagem única, sem mostrar os outros lados espelhados desta vitrine de consumo instantâneo e descartável.

A primeira prova cabal desta inversão de valores no filme “O Processo” já começa com a filmagem do fatídico dia da votação da Câmara dos Deputados pelo acolhimento ou não do Impeachment… E que dia!

 

Marcado a ferro e fogo na memória dos brasileiros que, mesmo diante da ciência da disputa de narrativas ocorrendo ali e ante quem registrava e transmitia as imagens, independente de “lados”, direita ou esquerda, todos ficaram impressionados com a virulência e deturpação da matéria tratada através de discursos dos mais ensandecidos. Discursos feitos, aliás, pelos mesmos agentes políticos que deveriam representar todas as regiões desta Nação… Um horror dantesco. Pessoas votando em nome do Estado de Israel (ou seja, por outra nação que não a nossa), por valores puros e “contra a corrupção” (estas mesmas pessoas que foram indiciadas por corrupção em seus respectivos estados no dia seguinte, e seus votos sequer foram invalidados!). Ou, pior ainda, votando em nome da aclamação de torturadores e da Ditadura Militar! Ou seja, defendiam a democracia em nome de algo que a retira e cancela das mãos do povo. E tudo isso é dolorosamente revivido no filme de Maria Augusta Ramos. Então como ela alcançou algo tão catártico e inovador a partir de uma história aparentemente já conhecida e saturada? Qual foi o tratamento da imagem e o ordenamento lógico que conseguiriam enxugar as gorduras daquilo que foi tão manipulado, de modo a encontrar a essência inalterada, separando o joio do trigo, para olhos tão cansados ou marejados dos espectadores até então impotentes?

Logo no primeiríssimo plano de “O Processo”, a câmera vai se aproximando em silêncio sepulcral de um magnânimo quadro aberto do vasto corredor da Praça dos Três Poderes, na direção do Congresso Nacional, onde três fileiras se estendem de forma quase indistinta e murada, somente separadas por borrões de cores: um terço vermelho e a outra terça parte verde e amarela, sendo o vão do meio completamente vazio com a estática das tensões contrapostas. E talvez seja nesta lacuna entre dois extremos em que iremos encontrar as maiores informações que, de outra forma, poderia se deixar passar despercebidas historicamente… ou seja, iremos falar sobre o que está entre os quadros do filme.

“O Processo” irá se destilar por uma montagem dialética de planos e contra-planos que passam a traduzir a disputa de narrativas que se instalou na separação de um país, onde até então havia se priorizado os relatos de apenas um dos lados nas principais mídias de (des)informação. Um esmagamento ao direito de se ter uma oposição, parte intrínseca da política, em geral representando a mão-de-obra trabalhadora brasileira, tratada de forma não proporcional a seu merecimento e pisoteada pela hierarquia de poder unilateral, hegemônica e elitista.

A montagem prossegue e o som volta a se impor, como única âncora de coerência em espaços de loucura entre os planos onde ninguém escuta a razão, mesmo quando bradada de forma tão lúcida por alguns que ainda ousam se erguer ante a violência imagética indiscriminada. Ser obrigado a adjetivar com a palavra ‘loucura’ um dos lugares onde se decide o destino de uma nação é inclusive um absurdo de se cogitar, mas o que não é exatamente loucura calculada senão tentar calar a dialética com a qual se almeja chegar a algum nível de racionalidade? A política brasileira anda sendo feita na base do sufocamento da palavra e imposição de silenciamentos e pontos de surdez seletivos, e o que é política da Polis, das cidades, da sociedade, senão justamente ‘Palavra’ colocada em exercício compartilhado? Palavra é diálogo, é dialética, e temos hoje em dia uma via única de ordens em contraposição à obediência, sob risco de considerar quaisquer diferenças como um erro a ser penalizado, o que se traduz como sinônimo de uma ditadura. Este silenciamento de defesa é a maior significação da poderosa e evidente simbologia que o filme adota com o título homônimo ao livro de Franz Kafka, onde o protagonista é alvo de um processo e condenado à morte sem jamais saber do que está sendo acusado, e, portanto, não possuindo defesa. E isto é verbalizado até explicitamente quando o senador Lindbergh Farias chama a ex-presidenta de ‘Dilma Joseph K.’, nome do personagem principal do livro. O óbvio precisa ser enunciado, para limpar os ouvidos.

E o som deste filme, realizado por Marta Lopes, é tão importante que invade através do extra-campo, vai além, como real linha cronológica narrativa, libertando a dialética e curando a política padecida pela unilateralidade que a aprisionou e condicionou através das mídias jornalísticas tendenciosas por tempo demais. Também ousa na forma como, por exemplo, na maneira que a câmera se ajeita às vezes para reenquadrar personagens, de acordo com o ânimus dos sujeitos, todos participantes deste processo já decidido e imposto como um circo pelos acusadores, desafiando o conteúdo retratado que fora da bolha do filme não permitiria o reenquadramento de seus agentes afixados. Um bom exemplo disto são as cenas de transição, com respiros entre acusações do julgamento, como nos encontros oblíquos de personagens recorrentes do naipe dos Senadores Raimundo Lira e Antonio Anastasia, membros da Comissão de Impeachment, abraçados com participações especiais tipo Romero Jucá, alguns dias antes do vazamento do áudio em que este assume acordo junto ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado para “estancar a sangria” através do controle do STF.

 

A obra se torna, através de uma grande montagem dialética de dar orgulho ao saudoso Eisenstein, numa evidência jurídica das mais possantes do Golpe Parlamentar criminoso que está sendo cometido contra esse país.

 

“O Processo”, como uma obra cultural resultante da participação de quem o realizou e de quem o assiste, torna-se ele próprio testemunha ocular e prova da nulidade do processo em si a que retrata. Um filme-evidência, que talvez chegue tarde para voltar atrás o relógio dos efeitos processuais, mas não para o tempo de uma Nação. Sem falar que o faz sem parecer um fardo imposto como remédio goela abaixo de uma criança, apenas porque é obrigada a aceitar o que lhe faz bem. Pois o trabalho de Maria Augusta Ramos possui um intenso carisma e até mesmo pequenas doses de humor, surpreendentes para tema tão pesado para o país. Muito por causa dos momentos de respiro que a câmera se permite entre uma cena e outra, especialmente para mostrar a reação de um ou outro personagem à fala de terceiros (como a sobrancelha levantada da senadora Gleisi Hoffmann em incredulidade às ilações de Janaína Paschoal). Ou mesmo nos momentos de ócio, onde mostra que todos ali são humanos, feitos igualmente com qualidades e fraquezas. — o que aproxima o espectador dos personagens e agrega um tom de ironia à montagem de Karen Akerman, sem nunca faltar ao respeito com os envolvidos.

Apesar de ser um filme verborrágico, focado em debates e reflexões orais, porém prescindindo de depoimentos diretos para a tela, e sim como uma câmera observacional (às vezes, mais de uma) que naturaliza aqueles ao redor e seleciona o que irá iluminar para seguir uma coerência narrativa, o curioso é que o roteiro fala ainda mais através de seus silêncios; das não-respostas a perguntas óbvias. Como pelo exemplo do rosto engessado e amorfo no cinismo conivente do Senador Anastasia; ou do sorrisinho insolente de Eduardo Cunha que rejeita interpelações pertinentes e incisivas quando se vê acuado, pois sabe que nada pode ser dito para mudar a realidade dos fatos quando se tornam evidentes em suas rugas de expressão. Há sim momentos de revelações extremamente diretas, como alguns dos protagonizados por outro dos personagens centrais, o senador Lindbergh Farias, que em vários momentos precisa ser um cortador de gelo a singrar contra o bullying de politicagem midiática que parece ter criminalizado o Partido dos Trabalhadores como um todo, simplesmente por respirar de forma diferente aos interesses hegemônicos. Mas é justamente no absurdo das acusações tão facilmente refutadas que as idiossincrasias da injustiça no Impeachment se revelam ainda mais, especialmente pelo abismo desproporcional entre as concessões legais em detrimento dos direitos de Dilma. Na verdade, é até curiosa a ambivalência oposta do comportamento de Lindbergh e a senadora Gleisi Hoffmann, os dois principais responsáveis pela defesa da ex-presidenta ao menos na edição do filme, que opõe de forma interessante as questões de gênero no Senado em relação à misoginia dos acusadores e a inversão de papéis da defesa, onde Gleisi permanecia impassível enquanto seu colega era obrigado a adotar as posturas mais enérgicas. Existe todo um tratado antropológico acontecendo ali dentro que reflete as mesmas injustiças a pesar sobre o povo na ascensão deste conservadorismo fascista.

O tempo é outro aspecto interessante de estudos na dinâmica cinematográfica trazida em “O Processo” por Maria Augusta Ramos. Há a passagem de dias e meses e ano. Não apenas pelas cartelas de datas mais importantes, como no dia da infame e vergonhosa votação da Câmara dos Deputados, ou do acolhimento do pedido de Impeachment ou do depoimento de Dilma ao Senado… Mas pelos pequenos detalhes captados pelo corpo popular através dos olhos da lente das várias câmeras, e revelados com minúcias intimistas na edição sucessiva de imagens temporais: como a ferida, provavelmente ao fazer a barba, do advogado de defesa no Impeachment José Eduardo Cardozo, ou os tons do cabelo da impávida senadora Gleisi, pequenas transformações pelo desgaste da passagem do processo como um trator impiedoso. — Tanto pela quantidade de tempo decorrido em tela para cada fase dos argumentos, quanto pelo estresse decorrente de jogar um jogo de cartas marcadas, com extrema segurança da condução do suspense como num thriller político. — Aliás, demonstra, conforme o processo se afunila, e vira determinismo fatalista kantiano e unilateral de uma Lei hierarquizada pelo poder, que cada vez mais a imprensa vai se fazendo presente nas arestas até chegar no eixo central do quadro…, bem como o uso da palavra ‘polícia’ passa a se intensificar, desvelando a verdadeira força draconiana metaforicamente por trás de tudo, como uma ameaça constante de tomada de poder caso algo saísse fora do planejado (como visto recentemente de novo quando do julgamento do habeas corpus de Lula pelo STF, onde generais ameaçaram um golpe militar, caso o ex-presidente não fosse preso).

Por falar na senadora Gleisi Hoffmann, parte indispensável da defesa da Presidenta Dilma Rousseff, não é à toa que uma equipe deste filme predominantemente composta por mulheres refletiria na tela o protagonismo feminino das participantes do processo. De Gleisi a Fátima Bezerra a Vanessa Grazziotin, a tantas outras mulheres nos bastidores misóginos do Impeachment, de modo que até mesmo a acusação do outro lado do julgamento também é prestigiada com uma personagem feminina realçada: Janaína Paschoal. A equipe de produção de Maria Augusta Ramos procurou autorização de todos os envolvidos dos dois lados do processo para tentar acompanhar cada lado da história, porém, curiosamente, a única a dar acesso bastante amplo e autorizar o uso das imagens foi a controversa Janaína, que, mesmo parecendo o alívio cômico do filme por seu histrionismo e gestos pantomímicos impensados, parece levar a si própria muito a sério. Quase como se estivesse ela mesma fazendo campanha através destas imagens, como em duas cenas cruciais onde se autodenuncia filiando sua lealdade a momentos de moral duvidosa. Acontece que esta não deixa de ser a perfeita metáfora de todo o caso: um absurdo que parecia impossível e gerava risos à mera menção, e que de repente se levou a sério o bastante para se concretizar além de qualquer ponto de retorno.

A clareza com que os fatos e direitos são dispostos deixam de forma inequívoca o quanto o absurdo se tornou a nova referência de normalidade, mesmo diante da tranquilidade com que personagens como Gleisi manteve para refutar cada ataque deliberado contra Dilma, contra o PT ou mesmo até contra sua própria vida pessoal — Pois uma espécie de toxicidade se espalha como lepra a todos que tentam sequer erguer a lei em defesa do que se tornou um inconveniente que a coligação corrupta do governo, com nomes como os do Lava Jato, não queriam permitir que fugisse ao controle deles. Simples assim, como o áudio vazado de Romero Jucá. Para haver impunidade para poderosos de partidos cujo interesse estava no mesmo sentido, como PSDB e PMDB, há de citar como exemplos, eles precisavam retomar o governo para estancar a sangria da hemorragia deles. Deter as investigações da Lava Jato.

E tudo isto ordenado de forma simples, e sem o glacê sensacionalista em que as principais mídias se tornaram, consegue transmitir de forma transparente quais foram os reais interesses por detrás. Uma lenta e longa manipulação para que nem o povo com toda sua potência coletiva pudesse se opor, já anestesiado por tantas fake news e pautas bombas. Ninguém mais sabe o que era verdade e o que não era, e passou a ser alvo fácil para informações expressas sem fundamento. Por isso o advogado José Eduardo Cardozo em determinado momento fala que eles não tinham pressa na defesa, porque qualquer delação premiada ou novo vazamento de informações só iriam queimar mais ainda os próprios mandantes do Impeachment, que são aqueles a querer tanta pressa.

Por sinal, em parte é por esta mesma razão que o presente texto também não se precipitou a discorrer sobre a personagem principal, que deveria ser a mais citada nesta resenha, e não o é: Dilma Rousseff. Assim como no próprio filme ela é a mola motora que a tudo move, está no subtexto de tudo, mas também não tem sua imagem desgastada. E isso se dá por uma razão consciente: como já supracitado, o PT, Dilma, Lula e etc já sofreram consecutivas desconstruções vexatórias de forma seletiva e imposta pelas grandes mídias, num processo lento e longo de desarme da governabilidade e do modus operandi de políticas públicas assistencialistas, que não serviam aos interesses do Capital, mas ajudou muita gente grata até hoje. À conta disso, eles foram praticamente demonizados para outra parcela da população que não tenha usado de senso crítico a discernir uma enxurrada de placebos prometidos a curar esta suposta crise econômica privativa do Brasil, quando na verdade foi a pior crise mundial desde a quebra da bolsa de 1929 nos EUA.

A ex-presidenta aparece em momentos de calmaria, entre inúmeras batalhas travadas, para não apenas poupá-la até a última parte do filme, com o depoimento que violenta terrivelmente sua pessoa para o Senado, bem como para dar chance de humanizar uma figura a quem nunca foi dado tempo de se conhecer melhor. Não pensem os detratores políticos que “O Processo” se escora numa chapa branca à conta disso, pois, muito pelo contrário, alguns dos melhores momentos são justamente os de admissão de mea culpa por parte dos erros cometidos para deixar chegar nesse estado de divisão de um país (como os momentos de lucidez esfuziante de Gleisi sobre o feminismo da juventude e de Gilberto Carvalho sobre a perda da comunicação do PT com o povo de quem ele se originou).

Afinal, é o povo quem enquadra e ancora todas as passagens do filme, não apenas na cena inicial e final, de impactos equivalentes, bem como em sutis presenças, como no mar de rosas para Dilma no início; nos cânticos de guerra intermitentes; no rapaz da selfie com Dilma vestindo a camisa LGBTQ; ou a senhora com a camisa do MST tentando furar a corrente de seguranças para dar apoio à sua presidenta. Até mesmo no fato de o braço direito de Cardozo, Gabriel, ser um profissional negro – o único membro negro em meio a todo o julgamento da Comissão de Impeachment. Em outras palavras, é a representatividade das pessoas que importa.

O documentário “O Processo” é isso. É palavra, é tempo. É documento. É Filme com F maiúsculo, pois, mesmo que se tratasse de uma ficção, consegue alcançar um nível de ritmo e roteiro dignos de figurar dentre os melhores filmes do ano desde já. Ainda mais para o cinema brasileiro, que em geral é tratado injustamente como primo pobre frente o cinema americano de importação, visto que quase nenhum de nossos filmes atrai a atenção local e mundial com tanta repercussão como “O Processo” atraiu este ano. Já viralizou discussões na internet e enfileirou quilômetros de pessoas por horas a fio na porta dos cinemas, como no recente Festival É Tudo Verdade. E isto tudo com uma produção independente que não teve qualquer suporte do governo (mesmo lembrando que incentivo à cultura e ao cinema é direito fundamental na Constituição Federal). A obra acaba construindo uma narrativa tão impressionante com a sucessão de diálogos registrados num espaço de tantos meses de história real condensada em 2h20min que a proximidade ficta dada pela edição nos faz sentir dentro do julgamento, sentindo os dois lados. E, ao mesmo tempo, faz com que recebamos a transferência psicanalítica na pele. Uma empatia de nos colocar no lugar do outro de que quaisquer quebras de direito ou formas de torcer a lei, no pseudo intuito de fazer o fim justificar os meios, sempre irá arrebentar para o lado mais fraco da corrente. Ou seja, se eles fizeram isso com os ex-presidentes Dilma e Lula, não apenas se abre precedentes e jurisprudências contra os réus em geral, como amplia o punitivismo cego e não sociabilizante contra as camadas mais pobres e leigas do Brasil, que não podem arcar com uma defesa melhor, e mais facilmente cairão na vala comum dos precedentes abertos. Mas o filme decerto se tornará uma das maiores defesas democráticas dos nossos tempos, contanto que o povo saiba usá-la bem.

Filippo Pitanga é Jornalista e Advogado. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCR. Professor na Academia Internacional de Cinema – AIC-RJ, curador de Cineclubes no Estação Net de Cinema e Editor-chefe do Almanaque Virtual