O que é pegada de carbono e como é calculada? Entenda

Você já ouviu falar na pegada de carbono? O nome vem do inglês - carbon footprint – e sua tradução ao português é literal: pegada de carbono. Em um primeiro momento, o termo soa estranho, mas ele se refere justamente à “pegada” que indivíduos, empresas, governos, municípios, ONGs, todos deixamos de emissões de gás carbônico na atmosfera. Em outras palavras, é a quantidade de gás dióxido de carbono que produzimos nas atividades diárias.

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O conceito é simples. Em um dia corriqueiro, uma pessoa se levanta, toma um café da manhã, lê o jornal, dirige seu carro até o trabalho ou pega o ônibus no ponto mais próximo, usa o computador para suas atividades, faz reuniões em salas climatizadas, volta para casa, toma banho e prepara seu jantar no fogão a gás.

Durante todo o seu dia diretamente ou indiretamente ela está gerando gás carbônico. Diretamente por meio de sua respiração e com a combustão do carro e o uso do fogão; e indiretamente pelo uso de energia que nem sempre é de fonte renovável, e consumindo produtos que produziram gases poluentes durante sua fabricação. Ninguém para para pensar qual foi a geração de gases poluentes – os gases de efeito estufa (GEE) - na fábrica de automóveis ou de shampoo, mas elas agora começam a importar.

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Os GEE são os grandes responsáveis para o aquecimento da temperatura do planeta e, cada vez mais, as empresas e governos estão sendo cobrados para diminuir ou parar suas emissões. O primeiro passo, porém, é entender quanto emitem e aí entra a pegada de carbono.

A ONG ambientalista The Nature Conservancy estima que cada pessoa gere, em média, quase 4 toneladas anuais de CO2. Deveríamos, individualmente, reduzir para pelo menos a metade (até 2 toneladas/ano) nossa pegada de carbono até 2050 para contribuir para frear o rápido aquecimento global.

Como surgiu o termo pegada de carbono

A origem do conceito de pegada de carbono ou pegada ecológica, como também é chamada, data da década de 1990, quando os pesquisadores William Rees e Mathis Wackernagel procuravam formas de medir a dimensão das marcas que deixamos no planeta. Em 1996 publicaram o livro “Ecológica – reduzindo o impacto do ser humano na Terra”, apresentando o conceito.

A ideia era fazer as pessoas perceberem o quanto de recursos naturais utilizam para sustentar seu estilo de vida. Isso inclui a cidade onde moram, os móveis que decoram a casa, que tipo de residência, as roupas que usam, o transporte que utilizam, o que comem, as atividades do lazer e produtos em geral que consomem.

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A pegada de carbono é, portanto, uma metodologia criada para calcular o volume total de GEE gerado pelas atividades de indivíduos, empresas e governos. Além do gás carbônico, entra na conta de GEEs também o gás metano, óxido nitroso, clorofluorcarbonos e ozônio. A quantidade de gases produzida e acumulada na atmosfera é, então, convertida em medidas de carbono equivalente (CO2eq). Esta é a unidade de medida no cálculo da pegada de carbono.

A partir daí, a medição da pegada de carbono foi se aperfeiçoando e se adaptando a complexidades dos negócios e setores. Uma empresa que ajudou a popularizar foi a petroleira British Petroleum, que nos anos 2000 foi rebatizada como 'Beyond Petroleum' e iniciou uma campanha internacional de marketing e relações públicas que popularizou o termo pegada de carbono. Em 2004, chegou a lançar uma campanha institucional explicando o conceito e convidando às pessoas para calcular suas emissões de GEE em seu site. Um dos slogans trazia: “é hora de começar uma dieta de baixo carbono”. Naquele ano, mais de 300 mil pessoas calcularam sua pegada no site da empresa.

Como é calculada a pegada de carbono?

Há calculadoras que ajudam na medição da produção de gases poluentes, como a da Organização das Nações Unidas (ONU), disponível em inglês, francês e espanhol. Há ainda a da ONG de conservação ambiental WWF-Brasil e, um terceiro exemplo, da organização voltada para a restauração florestal Iniciativa Verde. Na última, é possível ver quantas árvores seria preciso plantar para compensar essas emissões. Veja os links:

ONU: https://offset.climateneutralnow.org/footprintcalc

WF-Brasil: https://promo.wwf.org.br/pegada-ecologica-calculadora

Iniciativa Verde: https://www.iniciativaverde.org.br/calculadora

Essas calculadoras são mais focadas em indivíduos. As empresas acabam optando por contratar consultorias especializadas para fazer essa medição devido à complexidade de suas operações. As emissões são contabilizadas em Inventários de Gases de Efeito Estufa, que funcionam como retratos (uma fotografia do momento) das emissões de gases geradas pelas atividades diretas e indiretas de uma organização.

Padronização

Vale explicar, porém, que as fontes de emissões de GEE são classificadas em diferentes escopos: os escopos 1, 2 e 3, conforme metodologia desenvolvida pelo Greenhouse Gas Protocol (GHG Protocol), um protocolo internacional que é seguido também por empresas brasileiras. Para organizar a mensuração das emissões de gases de efeito estufa, foi criado m 2008 o Programa Brasileiro GHG Protocol, que é responsável pela adaptação do método GHG Protocol ao contexto brasileiro e pelo desenvolvimento de ferramentas de cálculo para estimativas de GEEs.

Entenda cada escopo de emissões de carbono:

Escopo 1: são as emissões de gases poluentes provenientes das atividades diretas da organização e sob as quais a empresa tem a responsabilidade. Por exemplo: o combustível usado para o transporte de funcionários; energia gasta para desenvolvimento de produtos; lixo gerado e que emite gases; entre outros. Ou seja, são as emissões que vêm diretamente do processo produtivo da empresa, fruto do uso dos recursos do próprio negócio.

Escopo 2: refere-se às emissões vindas da geração de eletricidade que a empresa consome (energia elétrica, térmica, eólica, etc.).

Escopo 3: diz respeito às emissões indiretas, de fornecedores, prestadores de serviço, clientes, fabricação de matérias-primas utilizadas e fabricadas por terceiros, entre outros. Entra nessa conta, os gases gerados em viagens internacionais,

Dos três escopos, o mais complexo de se medir é o 3, já que depende que todos os envolvidos na cadeia também meçam suas pegadas de carbono para ser contabilizado no escopo indireto.

Segundo o Carbon Disclosure Project, o escopo 3 produz 5,5 vezes mais emissões, em média, do que os outros dois escopos. As empresas, hoje, são obrigadas a informar apenas os escopos 1 e 2, quando são exigidas suas pegadas de carbono; o relato do escopo 3 ainda é voluntário. Porém, a legislação especialmente para companhias com capital aberto está apertando no mundo e é possível que em um futuro não muito distante comecem a ser cobradas – oficialmente da medição e divulgação de seu escopo 3. Algumas companhias já fazem isso voluntariamente, por entenderem como um diferencial competitivo.

Net Zero

Quem se compromete com metas de neutralização de carbono – o chamado net zero – também terá que medir o escopo 3 mais cedo ou mais tarde. O net zero nada mais é do que o estado de neutralização de emissões. net zero significa zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono. Na prática, significa que as emissões e as compensações precisam se igualar.

Muitas metas condicionadas para recebimento de empréstimos ou emissão de dívida corporativa “verde”, sustentável, já começa a pedir que essas medições sejam feitas nos três escopos, para que investidores passem a acompanhar a evolução da empresa nessa jornada.

Vale aqui uma distinção que pouco é explicada: net zero é diferente de neutralidade de carbono. A neutralidade é alcançada quando uma empresa, país ou planta/edifício não adiciona mais nenhum gás poluente na atmosfera. Isso pode ser feito por eliminação de emissões, a compensação ou ambas as estratégias (escopos 1 e 2). O net zero é um passo a mais. Segundo a ONU, ser net zero também significa não adicionar novas emissões à atmosfera, ou seja, eliminar também as emissões indiretas geradas por sua cadeia de valor (escopo 3).

Como as empresas podem reduzir sua pegada de carbono?

Uma das soluções e que tem sido amplamente adotada por grandes empresas no Brasil é a busca por substituição de uso de energia mais poluente por energia de fontes renováveis, como solar, eólica e biomassa. Outra frente é cuidado do lixo, aumentando a taxa de reuso e reciclagem (a matéria orgânica produz metano).

Além disso, muitas empresas investem em projetos de conservação e/ou restauração ambiental, o que lhe gere “créditos” de carbono. Há formas, porém, de comprar créditos de carbono – instrumentos compensatórios pelas emissões – no mercado voluntário e sem necessariamente precisar investir em plantação de árvores. Há países que começam a aplicar até impostos verdes, para empresas poluentes.

Protocolos internacionais e auditoria

O Greenhouse Gas Protocol (GHG Protocol) é o mais usado hoje no mundo. Ele é compatível com a ISO 14.064, do Inmetro, e com as metodologias de quantificação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). O próprio IPCC tem seus Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories também. O ISO 14.064 tem ferramentas para o desenvolvimento de programas de redução de emissões de gases do efeito estufa para indústria e governos.

Além disso, a PAS 2050, desenvolvida pela British Standards Institution (BSI), também quantifica as emissões de gases do efeito estufa no ciclo de vida dos produtos e serviços de uma empresa. Por fim, o ISO 14067 especifica princípios, requisitos e orientações para quantificação e comunicação da pegada de carbono dos produtos (PCP).

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Já há diversas consultorias no Brasil que prestam o serviço de mensuração, plano de ação e oferecimento de soluções para a questão dos GEEs, a exemplo de Carbon Trust, WayCarbon, Carbon Next, Future Carbon, Sustainable Carbon, entre outras.

Auditoria externa - Para verificação sobre os inventários e as estratégias e ações das empresas, muitas têm ainda contratado auditorias externas, independentes. Isso pode ser importante para dar transparência ao processo e aos dados apresentados. O PBGHGP tem publicado as Especificações de Verificação do Programa Brasileiro GHG Protocol definindo os requisitos para auditorias e verificações de Inventários de GEE.

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