O que acontece com o Brasil se a Rússia invadir a Ucrânia?

O que acontece com o Brasil se a Rússia invadir a Ucrânia?
O que acontece com o Brasil se a Rússia invadir a Ucrânia? (AP Photo/Nathan Posner)

Nos últimos dias, as dúvidas em torno de uma possível invasão russa à Ucrânia e as consequências que isso pode trazer para o Brasil têm ganhado força. Mas antes de falar como um suposto ataque no leste europeu pode reverberar por aqui, é preciso entender o que levou a esse conflito.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) desembarcou nesta terça-feira (15) em Moscou, capital da Rússia, em meio à tensão entre os dois países. Na quarta (16), ele vai se encontrar com o presidente russo, Vladimir Putin — mesmo dia que o mandatário da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que aconteceria o ataque russo, conforme informações recebidas.

Hoje, porém, o governo de Putin anunciou a retirada de parte de suas tropas das fronteiras com a Ucrânia. Estima-se que ao menos 100 mil soldados russos tenham se posicionado em torno do país vizinho.

Ao Yahoo, o professor de relações internacionais da Faap, Vinícius Rodrigues Vieira, explica que o principal motivo das tensões entre os países vizinhos acontece porque a Ucrânia quer afastar a influência russa, e fazer parte da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), fundada em 1949 com o objetivo inicial de impedir a expansão da União Soviética depois da Segunda Guerra Mundial.

Esta aliança militar conta hoje com a participação de 30 países, sendo os Estados Unidos a grande liderança do grupo. A Ucrânia não faz parte da Otan, mas este é um desejo do país, o que não agrada em nada o presidente russo Vladimir Putin, que quer continuar tendo a hegemonia e a influência na região.

Vieira conta que a Ucrânia como país independente tem uma história muito breve — apenas 30 anos, tendo atingido a independência depois da queda da União Soviética, em 1991. Segundo ele, desde então a Ucrânia passa por tentativas constantes de estabelecer uma democracia de fato, e virar uma aliada do Ocidente.

“A Ucrânia teve regimes que caíram e que não eram propriamente democráticos. Para se esquivar dessa influência russa, a Ucrânia sempre buscou ter uma proximidade com o Ocidente, sinalizando que poderia aderir à União Europeia e à Otan”, diz.

“E a Rússia, sabendo que outros países do leste europeu aderiram à Otan e à União Europeia, quer ter garantia de que a Ucrânia jamais entrará para a Otan. Assim, a Rússia terá chances de manter sua influência sobre o país.”

Além disso, conta o professor, essa crise também é consequência daquilo que foi mal resolvido em 2014: a invasão e a anexação da Crimeia pela Rússia e que não foi reconhecida pela comunidade internacional.

Viagem de Bolsonaro à Rússia

Para o professor da Faap, a ida de Bolsonaro à Rússia pode ser considerada "inoportuna" por conta das tensões na região. Porém, do ponto de vista de marketing político, pode beneficiar o presidente. Ele também diz que a viagem tem duas explicações, sendo que a primeira se deve ao agronegócio.

“Com essa viagem, Bolsonaro tenta segurar o fornecimento de fertilizantes para o Brasil, pois a Rússia é o principal fornecedor. Então, do ponto de vista doméstico, ele procura sinalizar para o agronegócio a preocupação com o setor, que sempre esteve com o governo em sua maioria, mas sempre criticou em parte a sua política externa", esclarece.

Isso significa que, para Vieira, ao ir para Moscou, Bolsonaro faz uma espécie de "mea culpa". "Ele reconhece que talvez não tenha feito uma política externa tão robusta como poderia ter feito num setor que sempre esteve do seu lado", diz o professor.

Vieira menciona também a questão eleitoral. Na avaliação dele, o mandatário brasileiro tenta buscar uma imagem de credibilidade para a opinião pública, especialmente para a sua base mais radical, como os olavistas e evangélicos, ao conversar com um líder da envergadura de Putin.

"Putin é muito conservador em pautas comportamentais. Com isso, Bolsonaro sinaliza ao seu eleitorado que é capaz de estabelecer alianças internacionais para avançar essa agenda a nível global. Ou seja, combater o chamado globalismo que Ernesto Araújo citava inspirado pelo Olavo de Carvalho, e que hoje é uma pauta, na minha leitura, muito forte entre os cristãos mais conservadores que ainda estão com Bolsonaro", argumenta.

Brasil terá de tomar partido?

Na visão de Vieira, se houver uma escalada das tensões em proporções mundiais, o Brasil vai ser um dos países mais pressionados para tomar uma posição.

"O último evento que tivemos dessa magnitude foi a Segunda Guerra Mundial. O Brasil foi até o limite ao lidar com os dois lados, até que teve que tomar partido e acabou se aliando com os Estados Unidos e os demais aliados em troca de recursos para sua industrialização", lembra.

"O Brasil vai ser pressionado [para se posicionar], mas o histórico indica que vamos procurar ter uma postura mais independente nas nossas relações exteriores, não aderindo a um lado", avalia.

O que acontece com o Brasil se houver uma guerra?

Caso haja um conflito entre a Rússia e a Ucrânia, Vieira explica que os russos vão sofrer sanções que tendem a se dar no plano econômico, como a suspensão de importações e exportações.

E, ainda que o Brasil não participe das sanções que venham a ser impostas pelos americanos e europeus, o professor da Faap diz que teríamos dificuldades para fazer pagamentos e receber fertilizantes do nosso maior fornecedor, que é a Rússia.

"Eu vejo o Brasil sendo afetado indiretamente. E um conflito na Europa traria uma onda de temor aos mercados mundiais e, com o mercado internacional ruim, o Brasil também tende a ter um crescimento baixo e dificuldade para se recuperar economicamente", diz.