‘O que aconteceu no Canadá foi genocídio’, diz parlamentar indígena

·9 minuto de leitura
Mumilaaq Qaqqaq em paisagem nevada
'O Canadá não foi construído a partir de gente branca, foi construído às custas dos povos indígenas', afirma a parlamentar Mumilaaq Qaqqaq

Em maio, foram encontrados restos mortais de 215 crianças em sepulturas não identificadas na província de Colúmbia Britânica, no Canadá.

Em junho, mais 751 sepulturas desconhecidas foram achadas na província de Saskatchewan. Alguns dias depois, mais 182 perto da cidade de Cranbrook.

O total de 1.148 sepulturas encontradas recentemente em diferentes partes do país têm algo em comum: ficavam no próprio local ou perto de internatos governamentais para crianças indígenas dirigidos pela igreja católica.

Entre 1883 e 1996, mais de 150 mil menores indígenas foram separados de suas famílias e enviados à força para esses lugares, onde sofreram de doenças, abusos físicos e sexuais.

"É algo que nós, indígenas, sempre soubemos. Mas agora podemos confirmá-lo à sociedade", diz a parlamentar Mumilaaq Qaqqaq, 27 anos, representante do território de Nunavut na Câmara dos Comuns canadense e parte do grupo indígena Inuit.

Ela diz que o retrato idealizado dos canadenses como "muito diversos, inclusivos, felizes e descolados" está longe de ser compartilhado pelos povos nativos do país.

"O Canadá não foi construído a partir de gente branca, foi construído às custas dos povos indígenas", afirma Qaqqaq, membro do Novo Partido Democrático (com orientação de centro-esquerda), em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

BBC News Mundo - O que as sepultaras recém-descobertas, e até então desconhecidas, dizem sobre a história do Canadá?

Mumilaaq Qaqqaq - Muitas coisas. A primeira: está é a história do Canadá; não é história indígena.

Para nós indígenas, isso não é uma descoberta, é apenas uma confirmação.

Sabíamos que nossos entes queridos estavam enterrados em algum lugar na terra, em túmulos não identificados, mas não sabíamos exatamente onde.

Para outros canadenses, isso confirma o que falamos sobre a história — especificamente a que afeta os povos indígenas do Canadá: a maior parte dela é muito perturbadora.

O importante, além disso, é enfatizar que se trata de indivíduos, pessoas com uma formação indígena comum, os primeiros povos deste país. E que todos esses são, em última análise, corpos de pele morena.

É algo que nós, indígenas, sempre soubemos. Mas agora podemos confirmá-lo à sociedade.

Em foto em preto e branco, crianças arrumam camas em abrigo
Crianças em internato indígena no Canadá; elas eram submetidas a abusos físicos e sexuais, além de condições precárias

BBC News Mundo - A Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá indicou há alguns anos que houve um "genocídio cultural" desses internados. Essas sepulturas são uma nova evidência disso?

Mumilaaq Qaqqaq - Não acho que o genocídio cultural seja uma opção [para nomear o ocorrido]. Acho que é genocídio, ponto final.

Porque a cultura vem de uma pessoa ou de um grupo específico de pessoas. E quando olhamos para o que aconteceu com os povos indígenas em todo o país, o que vemos não é [um ataque a] uma cultura específica, mas um estilo de vida e uma visão de mundo.

Ao longo da história no Canadá, é ensinado que isto tudo é errado, horrível e nojento.

É algo que os internatos representaram. Era um discurso como: "O seu jeito de viver, ser, pensar não se encaixa na sociedade branca ocidental. Ele está errado, e por isso precisamos te reeducar e te separar do seu jeito de pensar e viver".

Demos muitos exemplos de colonização para o mundo.

Mas tudo isso é embalado e apresentado de uma forma muito fofa: "Somos o Canadá, muito diverso, inclusivo, feliz e ótimo."

Na verdade, os indígenas não veem assim. E acho que cada vez mais canadenses estão percebendo isso.

BBC News Mundo - Você fala de genocídio, que por definição é o extermínio sistemático de um grupo racial, étnico, cultural, político ou nacional. É o que você diz que ocorreu no Canadá?

Mumilaaq Qaqqaq - Sim, acho que houve um processo muito estratégico, bem pensado e metódico para que continuemos vendo-o se desdobrar até hoje.

As pessoas acham que como indígenas não enfrentamos mais a colonização, o que é totalmente falso. Fomos colocados em situações de tal maneira que não temos hoje direitos humanos básicos.

Lutamos por moradias seguras, água potável, uma vida acessível — enquanto o resto do Canadá, principalmente os brancos, não precisam se preocupar com esse tipo de coisa.

Voltando à pergunta. Quando você olha para os internatos e, especificamente, para os povos do norte, para os Inuit, há muitas outras estratégias bem pensadas em que o governo estava tentando eliminar nossa vida "indígena": com o abate de cães de trenó, a realocação forçada, a internação compulsória para tratamento de tuberculose, entre muitas outras.

Vimos tudo isso de forma muito horripilante, e continuamos vendo.

Aproximadamente metade do sistema de abrigos do Canadá é composta por jovens indígenas (já na população menor de idade total, eles são apenas 8%).

Vemos padrões que se repetem continuamente e que não funcionam para os povos indígenas. Eles servem principalmente ao governo federal, que tem o poder e está ganhando muito dinheiro.

Ninguém pediu pobreza, ninguém pediu para ser colocado em uma epidemia de suicídio, ninguém pediu para viver quantidades imensas de abusos. Mas nós, Inuit, fomos forçados a sofrer com tais situações, dia após dia.

Buscamos os direitos humanos básicos para que os Inuit tenham as mesmas oportunidades que os canadenses do sul.

Os primeiros povos deste país sempre lutaram muito, nossas vidas são destinadas a sobreviver e depois ajudar os outros a sobreviver.

E isso não é justo: todos devem ter o direito de buscar o que desejam para suas vidas.

Sapatos em frente a prédio pichado
Canadenses deixaram calçados infantis em tributo a vítimas de internatos

BBC News Mundo - O último internato do Canadá fechou há 25 anos. Apesar disso, ainda existe um sistema que obriga as crianças indígenas a serem separadas de suas famílias?

Mumilaaq Qaqqaq - Sim, obrigado por mencionar o quão recente isso é.

O próprio Canadá é uma miscelânea de coisas e histórias.

Por exemplo, sou uma Inuit. Não me identifico como Primeira Nação, mas somos todos indígenas, povos originários deste país.

No sul do Canadá você verá uma história muito mais longa, de 100 ou 150 anos, que se refere a essa relação entre a instituição federal e os povos indígenas, enquanto para os Inuit e no norte isso aconteceu muito mais recentemente, nos últimos 70 anos.

Meu avô nasceu e foi criado na terra; meu pai nasceu na terra e foi transferido para um assentamento. Nesse processo, nasci em um hospital e fui criada em um assentamento. É uma mudança drástica no estilo de vida.

Casas em terreno árido, em frente a lago
'Em Nunavut, as pessoas se referem às suas casas como caixas de fósforos porque são muito pequenas', diz Qaqqaq.

BBC News Mundo - No ano passado, você viajou para diferentes lugares para ver em primeira mão as condições de vida dos povos indígenas no Canadá. O que pode nos dizer sobre o que viu?

Mumilaaq Qaqqaq - Se uma pessoa está deprimida ou estressada, muitas vezes você pode ver isso refletido em sua condição de vida.

O que eu vi quando visitei as comunidades e me encontrei com as pessoas foi que elas estavam lutando.

Em Nunavut, as pessoas se referem às suas casas como caixas de fósforos porque são muito pequenas.

Nos assentamentos, foi preciso construir tendas ou iglus ao redor, e também serviços assistenciais do governo, porque desde o início da remoção forçada, os Inuit nunca receberam moradia adequada.

Misturaram essas pessoas para que o Canadá pudesse estabelecer seu domínio do território. Os assentamentos Inuit que vemos no Canadá foram criados para que o governo pudesse dizer "esta terra nos pertence, temos gente suficiente aqui e eles pertencem ao nosso povo".

BBC News Mundo - Os direitos dos aborígenes foram reconhecidos na Constituição canadense em 1982. Isso mudou alguma coisa?

Mumilaaq Qaqqaq - É sempre positivo que as coisas sejam reconhecidas no papel ou na lei, mas às vezes isso também pode ser muito simbólico.

Os povos nativos do Canadá passaram por muita coisa. E quando os colonos chegaram, eles formaram o governo canadense, que queria ter poder sobre a terra e usar seus recursos.

Em vez de interagir e negociar com os povos originários, eles descartaram todas as oportunidades e decidiram usar suas próprias leis para decidir como os outros viveriam.

As pessoas não percebem que, se o Canadá tivesse sido construído pacificamente, não seria um país branco.

BBC News Mundo - Quem é responsável pelo que você descreve como continuidade entre o passado e o presente do Canadá?

Mumilaaq Qaqqaq - O governo federal, a Polícia Montada, e todos que dirigem essas instituições no momento.

O primeiro ministro Justin Trudeau pode dizer o que quiser, que não foi ele quem criou essas coisas — mas ele ainda está levando crianças indígenas aos tribunais, ele ainda não fornece água potável para reservas em todo o país, nem uma vida acessível.

Uma em cada três pessoas em Nunavut vive em moradias superlotadas, ainda temos a maior taxa de suicídio...

Então, quando ele diz que a relação com os povos indígenas é o mais importante, é ridículo, porque ele não faz nada pelos povos indígenas do Canadá.

Justin Trudeau de perfil em jardim
Parlamentar faz duras críticas ao primeiro-ministro Justin Trudeau, que apesar de dizer que povos indígenas são prioridades no seu governo, não aplica discurso na prática, em sua avaliação

BBC News Mundo - Trudeau expressou o reconhecimento dos "terríveis erros do passado". Isso não é o suficiente para você...

Mumilaaq Qaqqaq - Absolutamente não. As instituições canadenses têm milhares de registros destes predadores, destes pedófilos que atacaram crianças indígenas na época dos internatos.

O Departamento de Justiça canadense tem milhares de nomes e eles ficam apontando o dedo para a Igreja Católica.

BBC News Mundo - Seria importante algum ato específico do Vaticano ou do Papa Francisco?

Mumilaaq Qaqqaq - Não necessariamente de algum Papa ou alguém da alta cúpula.

Pessoalmente, acho importante que pedidos de desculpas e debates ocorram.

Eles precisam se desculpar, dizer algo, assumir de alguma forma a responsabilidade. E a recusa em fazer isso é mais um tapa na cara das pessoas marginalizadas por sua cor.

Infelizmente, a religião tem sido usada como uma ferramenta para oprimir as pessoas.

Embora possa ser importante para as pessoas, em última análise, ela tem sido prejudicial para os povos indígenas.

Crianças indígenas sentadas em sala de aula, com instrutora em pé; a foto é preto e branca
Escola Residencial Shingwauk; internatos para crianças indígenas eram dirigidos por católicos

BBC News Mundo - Na semana passada, no 1º de julho, Dia do Canadá, você compartilhou no Twitter uma postagem que dizia: "Hoje eu celebro o fracasso do Canadá em erradicar os povos indígenas de costa a costa. Estamos aqui, somos fortes." O que o Canadá significa para você?

Mumilaaq Qaqqaq - Ser deputada e ter o privilégio de crescer na minha posição me permitiu perceber que nunca tive direito à autodeterminação, às oportunidades.

Só agora, aos 27 anos, estou aprendendo sobre quais são os meus gostos, desejos e necessidades. É muito interessante.

Há muito mais espaço para outras pessoas seguirem qualquer sonho que quiserem.

Deveríamos ter a possibilidade de imaginar livremente, em vez de pensar em como sobreviver. Os indígenas canadenses estão tendo mais esse espaço.

Há progresso, mudanças — evidentemente, não da forma que precisamos —, mas as coisas estão andando.

Tenho esperança na força da nossa juventude. O desejo das coisas melhorarem é tão grande que acho que há um forte potencial para as coisas mudarem.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos