O que as canções nos livros de James Baldwin revelam sobre o escritor americano

Silvio Essinger
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RIO - Negro, homossexual, escritor e ferrenho defensor dos direitos civis, o americano James Baldwin (1924-1987) escreveu no ensaio “Uses of the blues” (1964) que “não sabia nada sobre música”. Mas a sua obra é repleta de referências a canções — em boa parte, clássicos do blues, spirituals e o melhor da música negra do seu país — que acabaram reunidas no Spotify na playlist “The James Baldwin Soundtrack”.

Mais até do que uma trilha sonora para a sua literatura — que como poucas na história conseguiu exprimir as dores e as frustrações de indivíduos que lutam contra diferentes tipos de segregação —, a seleção de 60 faixas forma um admirável painel da melhor música gestada sob opressão e sofrimento no Século XX.

Brilho das cantoras negras

“Eles disseram que se você é branco, tudo bem / se você é moreno, fique por perto / mas se for negro, ah, irmão! / Dê a volta, dê a volta, dê a volta”, canta o bluesman Big Bill Broonzy (1898-1958) em “Get back”, uma das mais fortes canções da playlist. Em sua contundência, ele se junta a “I wish I knew how It would feel to be free”, hino de esperança da cantora Nina Simone (1933-2003), uma das pessoas que conviveram com Baldwin em seu exílio francês nos anos 1970.

Cantoras negras, por sinal, dão o brilho à playlist. Seja a voz eterna do blues Bessie Smith (1894-1937) nas desencantadas “Nobody knows you when you down and out” e “Backwater blues” (“quando troveja e relampeja e o vento começa a soprar / há milhares de pessoas que não têm para onde ir”) ou o canto agridoce, pungente, de Billie Holiday (1915-1959) em “Strange fruit” (notória canção que fala, de forma poética, dos lichamentos de negros no Sul dos Estados Unidos), “Billie’s blues” (“tenho sido sua escrava / desde que me tornei seu amor”) e “Loverman”.

'A voz suprema do blues'

Já “See see rider blues” (1924), canção sobre um amante infiel, apresenta para muitos o gênio de Ma Rainey (1886-1939), a matriarca de todas as cantoras de blues. Recentemente, Ma teve sua figura revivida pela atriz Viola Davis no filme “A voz suprema do blues”, última aparição no cinema do ator Chadwick Boseman (de “Pantera negra”), falecido em agosto do ano passado.

Do lado do sagrado, as grandes vozes da seleção são as de Mahalia Jackson, no spiritual “Go tell it on the mountain” (que viraria título de um romance de James Baldwin); e de Aretha Franklin, na devocional “Mary, don’t you weep”. Elas abrem caminho para o puro jazz, que pode estar nos trompetes de Louis Armstrong (em “Summertime”) e de Miles Davis (“Concierto de Aranjuez: Adagio”, peça de Joaquín Rodrigo) ou nos saxofones de Archie Sheep (na recriação do gospel “Steal away to Jesus”) e de Charlie Parker (“Now’s the time”).

E a seleção orientada pela literatura de James Baldwin não fica só por aí: ainda tem a soul music de Sam Cooke (“Mean old world”), a chanson de Joséphine Baker (conviva de Baldwin no retiro francês, com “J’ai deux amours”) e até mesmo o branco country do indignado Merle Travis (“Dark as a dungeon”). Tudo é uma questão de conexão com os sentimentos evocados pelo escritor.

Percussionista nigeriano

A única exceção na playlist à regra de ter sido citada em uma obra do americano é “Akiwowo (ah-key-wo-wo)”, faixa do LP “The drums of passion” (1960), do percussionista nigeriano Babatunde Olatunji, que entra porque o músico se apresentou no funeral de Baldwin.

E quem quiser mergulhar ainda mais fundo no universo musical do escritor pode emendar em outra playlist, essa com 484 faixas, que pode ser ouvida em meras 32 horas. Organizada por Ikechúkwú Casmir Onyewuenyi, curador do Museu Hammer, “Chez Baldwin” reúne as músicas da coleção de LPs que Baldwin deixou, ao morrer, em sua casa, em Provence, na França.

“Olhando as fotos da casa de Baldwin em Provence, vi seus discos e entendi seu ambiente sônico, como uma forma de preencher o espaço, mas ainda permitir espaço para esse vazio, para diferenças”, disse Onyewuenyi. “Além de ler os livros e ensaios que produziu enquanto morava em Provence, ouvir os discos foi algo que me transportou para lá.”

A playlist começa com o álbum “Try a little tenderness” (1960), da cantora Gloria Lynne, e segue por discos de Aretha Franklin, Randy Crawford e Diana Ross. Entre outros músicos representados estão Dinah Washington, Nina Simone, Patti LaBelle, Sarah Vaughan e Frank Sinatra.