O que a escolha do vice tem a dizer sobre seu candidato a presidente?

Foto: Pedro Ribas/ANPr

Ana Amélia Lemos (PP). Kátia Abreu (PDT). Germano Rigotto (MDB). Eduardo Jorge (PV). Antonio Hamilton Mourão (PRTB). Fernando Haddad (PT) – ou Manuela D’Ávila.

Um desses nomes pode ser o futuro governante do Brasil em caso de vacância ou impedimento (por aqui, uma probabilidade sempre alta) do presidente que será eleito em outubro. Com a definição das chapas, a maioria recrutada em bases gaúchas (quatro dos postulantes nasceram no Rio Grande do Sul) e após semanas de negociações frustradas com planos A, B e C, os presidenciáveis, em sua maioria, terão no palanque aliados que conferem mais mensagens simbólicas ao eleitor, para o bem ou para o mal, do que tempo de TV e musculatura para a coligação.

Como escreveu, em sua página no Facebook, o jornalista Mauricio Savarese: os eleitores que pensam em votar nulo ganharam muitos argumentos neste fim de semana.

Abaixo, listamos o que a escolha do vice tem a dizer sobre seu candidato a presidente.

 Ana Amélia Lemos (PP). Com a aliada do PP, partido com mais nomes envolvidos na Lava Jato, Geraldo Alckmin (PSDB) opta pelo pragmatismo. Com discurso antipetista e proximidade de movimentos como o MBL, a senadora gaúcha certamente ajudará o candidato tucano a rivalizar com Jair Bolsonaro pelos votos conservadores, sobretudo no Sul, onde os tucanos vinham perdendo terreno. Ela, porém, não tem experiência no Executivo, não ajuda o ex-governador paulista a dialogar com os eleitores mais jovens e não estende qualquer ponte em direção a outros redutos onde o partido vai mal, como o Nordeste.

Kátia Abreu (PDT). A senadora do Tocantins, dizem aliados, ajuda a atrair setores do agronegócio e o eleitorado feminino a Ciro Gomes. Ou melhor: ajuda a conter a rejeição do eleitorado feminino ao candidato marcado por declarações consideradas agressivas. Será? É verdade que a aliada foi uma combativa defensora de Dilma Rousseff durante o processo de impeachment no Congresso. Mas, ao mesmo tempo, a ex-presidente da Confederação Nacional da Agropecuária (CNA), que já foi filiada ao DEM, tem no currículo o troféu Motosserra de Ouro, concedido pela ONG Greenpeace a personalidades que mais contribuem para o desmatamento no Brasil. Isso provoca um curto-circuito entre os eleitores que identificam a candidatura do ex-governador do Ceará como uma opção à esquerda. A chapa puro-sangue não acrescenta um segundo a mais na já minguada exposição de Ciro na TV. Nem promete um manancial de votos. Neste ano, Katia Abreu tentou se eleger governadora na eleição suplementar no Tocantins e, com 15% dos votos, não foi sequer para o segundo turno.

Fernando Haddad (PT) – Manuela D’Ávila. É a chapa dos sonhos dos que buscavam um plano B, com plano C, para a iminente candidatura barrada do ex-presidente Lula. Vice-tampão, Haddad é uma liderança jovem, com experiência no Ministério da Educação e sem grandes encrencas com a Justiça. Manuela, se confirmada, será uma ponte com o eleitorado jovem e feminino. Haddad, porém, falhou em seu maior teste eleitoral até aqui: não foi sequer ao segundo turno quando tentou se reeleger prefeito de São Paulo. Ficou conhecido como um governante que beneficiou as áreas centrais em detrimento da periferia. Com Manuela, uma jovem liderança gaúcha sem experiência no Executivo, será capaz de herdar os votos do espólio lulista em redutos como o Norte e o Nordeste?

Sônia Guajajara (PSOL). A líder indígena formada em Letras, em enfermagem e especialista em educação especial pela Universidade Estadual do Maranhão reforça a contraposição do candidato do PSOL, Guilherme Boulos, aos partidos tradicionais. Com ela, a legenda terá representantes dos movimentos populares do campo e da cidade, sinalizando a opção pelos pequenos produtores em um país onde a agricultura familiar corresponde a 50% da produção da cesta básica. Ambos, porém, são novatos em eleições, terão pouco tempo de exposição, e terão como desafio mostrar competitividade em uma campanha até aqui simbólica para demarcar posição e eleger uma bancada.

Germano Rigotto (MDB). Com o ex-governador gaúcho, Henrique Meirelles, também do MDB, traz um pouco mais de experiência à sua primeira disputa presidencial. A chapa puro sangue não ajuda a expandir o tempo de exposição, mas garante a ele um nome importante do partido que não está diretamente associado ao núcleo central de  um governo marcado pela Lava Jato e pela impopularidade, não exatamente nesta ordem. Ele deve ajudar Meirelles a conversar com outra plateia que não as áreas VIPS onde costuma discursar. Será difícil, no entanto, expandir os votos para além da região Sul-Sudeste.

Eduardo Jorge (PV). O vice de Marina Silva (REDE) reforça o projeto ligado à pauta ambientalista e confere um pouco mais de exposição a um partido nanico e rachado. Na última eleição, Eduardo Jorge angariou a simpatia dos eleitores pelo estilo despojado que rendeu muitos memes e poucos votos (0,6% do total). O recall do espólio não ganha jogo. Mas também não atrapalha.

Antonio Hamilton Mourão (PRTB). Em 2018, o eleitor verá um general bater continência a um capitão. Resultado de uma aliança com o PRTB, do incansável Levy Fidelix (o homem do aerotrem que, na última eleição, se enrolou após declarações homofóbicas em um debate), o vice da chapa faz Jair Bolsonaro parecer um líder progressista diante de suas posições, inclusive a defesa, sem rodeios, de uma intervenção militar no auge da crise política. Ambos nutrem simpatia pelo torturador Brilhante Ustra. Com a chapa militar puro-sangue, Bolsonaro reforça o apelo a um grupo muito específico do eleitorado já disposto a votar nele. E ajuda a dirimir a imagem de um militar malvisto pelos superiores em sua passagem pelo Exército, o que não parece ser um argumento suficiente para diminuir sua rejeição fora do nicho ou convencer um eleitor indeciso a dar a ele um voto de confiança.