Temor de protestos e expectativa com o discurso: o que esperar da estreia de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU

REUTERS/Adriano Machado

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Bolsonaro vai discursar no dia 24 de setembro na abertura da Assembleia Geral da ONU

  • Improvisos do presidente e presença de desafetos preocupam especialistas e interlocutores

Por Stella Lima

O Palácio do Planalto e o Itamaraty acenderam o sinal de alerta para possíveis protestos durante o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU diante das recentes declarações dele sobre o presidente da França, Emmanuel Macron, e a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, além repercussão do aumento das queimadas na Amazônia. Atualmente, Bachelet ocupa o cargo de alta comissária da ONU para Direitos Humanos.

Mesmo se recuperando de cirurgia para correção de uma hérnia, realizada no último dia 8, o governo confirma que Bolsonaro fará o discurso de abertura do evento no dia 24 de setembro - é tradição que o presidente brasileiro o faça.

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A Assembleia Geral é o principal órgão deliberativo da ONU. É lá que todos os Estados-Membros da organização - são 193 países - se reúnem para discutir assuntos como direitos humanos, segurança, paz e desenvolvimento sustentável.

Interlocutores do presidente temem que representantes de países deixem o evento no momento em que ele for discursar, o que causaria um desgaste ainda maior para a imagem do Brasil no exterior. Oficialmente, o governo nega qualquer receio. Em entrevista à rádio Guaíba no último dia 12, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, disse que Bolsonaro vai falar “a verdade” na ONU.

“Não temos preocupação nenhuma, porque o presidente quer falar a partir da verdade dos fatos (...) (No caso da Amazônia), queremos expor a verdade dos fatos. Se a verdade ofende determinadas pessoas, aí é problema delas. Chegamos a um ponto onde um líder falar a verdade é objeto de rejeição. Acho que o problema não é nosso, é de quem tem essa tão visão distorcida”, declarou.

Discurso

Fontes da área diplomática disseram ao Yahoo! que o presidente receberá um discurso pronto, mas estão preocupados com os improvisos. O texto passará pelas mãos de Araújo, e também terá as digitais do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), indicado para a embaixada em Washington, e de Filipe Martins, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais.

Interlocutores do presidente aconselham que ele faça uma exposição moderada para evitar novos desgastes diplomáticos, mas lembram que ele não costuma seguir os scripts preparados e fala de improviso, o que acaba resultando em algumas gafes.

“Do ponto de vista político, o que se espera é qualquer coisa. O presidente é imprevisível. A expectativa é de que seja um discurso defensivo, que não estenda a mão”, avalia Carlos Melo, cientista político do Insper.

Até o momento, a expectativa é que a questão ambiental ocupe boa parte do discurso do presidente, com ênfase na defesa da soberania sobre a Amazônia justamente no momento em que a comunidade internacional questiona a política do Brasil sobre o tema por causa da repercussão do aumento das queimadas neste ano. Bolsonaro também deverá deixar claro que não vai tolerar intromissões em assuntos internos, de acordo com essas fontes.

Para Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas), a Amazônia deve de fato ocupar uma parte importante da fala de Bolsonaro. Em sua avaliação, o presidente deveria dizer que o Brasil está comprometido com a preservação da floresta.

“A grande questão é que você tem que corresponder o discurso à prática .Vai ter que ter muito alinhamento nessa hora para que o discurso não se torne uma falsa promessa e em dois ou três dias ter focos de incêndio na Amazônia, coisas que a gente acompanhou com intensidade nas últimas semanas”, diz.

Para Carlos Melo, Bolsonaro deveria fazer um discurso ponderado, já que o Brasil tem tradição de ser um país amistoso, capaz de ser interlocutor em várias crises, mas não crê que isso ocorrerá.

“Estamos vivendo uma interrupção nesse padrão de visão internacional que nós tínhamos. Um discurso feito por essas mãos não tende a ser de paz, de moderação. Tende a ser defensivo e a forma do governo brasileiro ultimamente de se defender é normalmente atacando”, avalia.

Relembre os ataques e gafes

Chile e Bachelet

Na reunião de presidentes do Mercosul realizada na Argentina, em julho, Bolsonaro interrompeu seu discurso de abertura ao avistar o presidente do Chile, Sebastián Piñera, que chegara atrasado.

“Bem-vindo, Piñera! Ei, Piñera! Bem-vindo! O seu problema é com o Peru, não com o Brasil. Na Copa América, quero deixar bem claro”, disparou.

A “piada” não foi bem recebida já que Peru e Chile tem um histórico de tensão desde a Guerra do Pacífico, no século 19, quando o Chile invadiu o Peru e ficou com parte do território peruano.

Visto como um dos principais aliados regionais de Bolsonaro, Piñera também mostrou descontentamento com os ataques feitos pelo brasileiro contra Michele Bachelet e seu pai, Alberto Bachelet, morto durante a ditadura militar que governou o Chile. Ela também foi presa e torturada pelo regime liderado por Augusto Pinochet.

O ataque de Bolsonaro, no início deste mês, foi uma resposta à Bachelet depois que ela disse em entrevista que o Brasil sofre com uma “redução do espaço democrático”.

Além de dizer que a comissária da ONU se intromete em assuntos internos, o presidente disse que ela se esquecia de que seu país “só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai”.

“Ele mexeu com uma chaga no Chile. A própria direita chilena não defende o regime do Pinochet. O Piñera é de direita, mas é um cara moderado, ponderado”, explica Carlos Melo.

França e Macron

No fim de agosto, um seguidor postou fotos de Bolsonaro e do presidente francês, Emmanuel Macron, acompanhados de suas esposas com a seguinte pergunta: “Entende agora pq Macron persegue Bolsonaro?". O seguidor ainda acrescentou "é inveja presidente do Macron pode crê (sic)".

O presidente respondeu ao comentário dizendo: “não humilha kkkkk". Os dois casais presidenciais têm em comum a diferença de idade, sendo que Brigitte Macron, de 66 anos, é 25 anos mais velha que o marido, que tem 41. Já Bolsonaro tem 64 anos, ou seja, é 27 anos mais velho que a esposa, Michelle, que tem 37.

A declaração irritou Macron, que classificou-a como “extremamente desrespeitosa” e disse esperar que os brasileiros tenham rapidamente um presidente à altura do cargo.

Macron também afirmou que Bolsonaro “mentiu” sobre seus compromissos com o meio ambiente, o que irritou o brasileiro.

Posteriormente, um vídeo divulgado por uma TV francesa mostrou Macron criticando Bolsonaro nos bastidores da reunião do G7, encontro das sete nações mais ricas do mundo. As imagens mostram que tanto Piñera como a chanceler alemã, Angela Merkel, endossam as críticas do francês.

Na gravação, Macron também desabafa sobre quando seu ministro das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, esteve no Brasil e teve seu encontro cancelado com Bolsonaro -- na mesma hora em que o compromisso deveria acontecer, Bolsonaro fez uma live em que apareceu cortando o cabelo.

Noruega e Alemanha

Em agosto, em reação à suspensão de repasses para o Fundo Amazônia pela Noruega, Bolsonaro perguntou se o país não é aquele que mata baleias e explora petróleo. Na ocasião, ele declarou que tanto a Noruega e a Alemanha não têm o que oferecer ao Brasil.

O Fundo Amazônia é uma reserva de capital estrangeiro gerida pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) destinada a ações de preservação ambiental e combate ao desmatamento. Na última semana, governadores da Amazônia Legal se reuniram com embaixadores europeus para discutir o financiamento de políticas de combate ao desmatamento.

"A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós. Pega a grana e ajuda a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha", declarou à época.

Dias antes, depois que a Alemanha também decidiu cortar verbas para projetos de preservação da floresta, Bolsonaro mandou Merkel pegar o dinheiro e reflorestar o país europeu.

"Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu US$ 80 milhões para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui", afirmou.