O que esperar do superpedido de impeachment contra Bolsonaro?

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BRASILIA, BRAZIL - JUNE 30: Gleisi Hoffmann, National President of the Workers' Party (PT), speaks during a press conference at the National Congress on June 30, 2021 in Brasilia, Brazil. Government opposition files today an impeachment motion against President Jair Bolsonaro at the Brazilian Chamber of Deputies. The document gathers 120 impeachment requests and over 20 accusations. Bolsonaro, who is already facing a probe for pandemic mismanagement, is now involved in a multi-million-dollar corruption scandal related to the purchase of 20 million doses of the Indian Covaxin vaccines. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Foto: Andressa Anholete/Getty Images

No canto da foto, o deputado Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo, sorriam com o dedo indicador levantado para o alto. No centro da cena estava Eduardo Cunha, então presidente da Câmara. Completavam o quadro tucanos de alta plumagem, próceres do DEM e do MDB e integrantes barulhentos dos movimentos pró-impeachment, como os Revoltados Online, e do recém-nascido MBL, como Kim Kataguiri.

Era outubro de 2015 e Cunha, figura mais bajulada da República, mal disfarçava o jogo de cena, com um sorriso entreaberto, quando perguntado se daria sequência ao pedido de impeachment contra Dilma Rousseff.

A história dos rumos de cada um naquela mesa rende é um desses spin-offs que superam a trama original. A começar pelo destino de pai e filho no canto da foto.

De carona no movimento, os coadjuvantes na cena encontraram um portão arrombado à entrada do Planalto em 2018 após a passagem do rolo-compressor da Lava Jato. Esse rolo-compressor atropelou tucanos, democratas e emedebista, como o então todo-poderoso proprietário das chaves do impeachment, homenageado por Bolsonaro pai durante seu voto.

Quase seis anos depois, é Bolsonaro o alvo de centenas de pedidos de impeachments.

O maior deles foi protocolado na quarta-feira 30 e colocou na mesma lista de signatários dirigentes de partidos de esquerda, capitaneados pelo PT de Gleisi Hoffmann, e ex-aliados de Bolsonaro, como Joice Hasselmann, Alexandre Frota e Kim Kataguiri, hoje deputados, além de juristas e entidades organizadas da sociedade civil.

O rolo-compressor da Lava Jato é um gato que já não mia por obra do governo que subiu em sua garupa e jogou Sergio Moro na estrada. Mas essa é outra história. Ou não.

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No superpedido de impeachment, Bolsonaro é acusado de crimes contra a existência da União, contra o livre exercício dos poderes constitucionais, contra os exercícios dos direitos políticos, contra a segurança interna, contra a probidade na administração, contra a guarda e legal emprego de dinheiros públicos, contra decisões judiciais, entre outros.

A entrega do documento acontece no momento em que o governo solta fogos e parafusos com a acusação de que mantinha no Ministério da Saúde um esquema, com pedido de propina, para drenar recursos públicos para a compra de vacinas. Já são quase 520 mil mortos em uma pandemia gerenciada por Bolsonaro como os engenheiros de Rio das Pedras gerenciam os prédios construídos pela milícia.

Dessa vez, porém, os novos rolos compressores têm tudo para encontrar os portões trancados. À entrada do Planalto Bolsonaro colocou dois cães de guarda escolhidos a dedo: Augusto Aras, da PGR (pinçado fora da lista tríplice do MPF, vale sempre lembrar), e Arthur Lira, o mais novo todo-poderoso presidente da Câmara.

Lira, que aparentemente leu em tempo recorde as 271 páginas do documento, promete trancar o superpedido de impeachment na gaveta e deixar Bolsonaro dormir tranquilamente até 2022. Esse é seu posicionamento oficial.

Hamilton Mourão, vice-presidente e herdeiro da linha sucessória, também desdenhou o ato. Disse que ele não tem como prosperar.

Já se pode, então, pedir a conta e mudar de assunto?

Mais ou menos. Em 2015, nem os notáveis conspiradores Eduardo Cunha e Michel Temer, ex-vice de Dilma Rousseff, diziam abertamente o que pensavam quando os primeiros pedidos contra a petista começavam a pipocar. Nem diante do mais simbólico deles, o da foto descrita nos primeiros parágrafos.

Cunha mesmo só mudou o discurso de que mataria no peito qualquer ameaça quando o PT deu votos pela abertura de um processo contra ele no Conselho de Ética da Câmara.

Sinais trocados pululam aos montes. Mourão, humilhado diversas vezes pelo presidente, deu mostras explícitas de desobediência ao conceder entrevista recente para o Grupo Globo, inimigo declarado de Bolsonaro.

E Lira não moveu uma palha para demover o deputado Luis Miranda (DEM-DF) de seu intuito de implodir a República ao dizer que Bolsonaro foi avisado de um suposto esquema de desvios na Saúde e nada fez.

Como diz o jargão, observar contextos políticos tem a mesma validade de se observar o céu. Muda de cenário ao menos três vezes ao dia. Sem contar as nuvens.

O céu pode fechar de vez com a pressão das ruas, que terão agora o reforço do até ontem bamboleante PSDB.

Na dúvida sobre para onde aponta a biruta do Planalto, vale sempre ouvir quem consegue prever (e criar) tempestades antes mesmo das primeiras gotas de chuva.

Gilberto Kassab, um desses oráculos, acaba de dizer, em entrevista à Folha de S.Paulo, que ok, não se pode banalizar o impeachment, que requer cuidado. Afinal, a base governista é grande e não pode ser menosprezada. Mas, pontua o cacique do PSD, “quando é inevitável, é inevitável”.

Para ele, a situação ainda não chegou a esse ponto.

Ainda.

Se alguém ouvir de longe os barulhos das trovoadas, já pode correr para tirar a roupa do varal. A CPI já convocou para depor os novos atores de uma história construída com nitroglicerina e que sequer estavam em cena há menos de uma semana.

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