O que esperar do último debate entre os presidenciáveis na TV Globo?

Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva (R), candidate for re-election, walks before a television debate in the Globo TV studio in Rio de Janeiro October 27, 2006.  REUTERS/Sergio Moraes (BRAZIL)
Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva (R), candidate for re-election, walks before a television debate in the Globo TV studio in Rio de Janeiro October 27, 2006. REUTERS/Sergio Moraes (BRAZIL)

Na reta final da campanha de 2006, o então candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cometeu um erro ao faltar ao debate promovido pela TV Globo às vésperas da votação. Fora do estúdio, ele se tornou alvo de todos os outros postulantes, a começar pela ex-petista Heloisa Helena (PSOL) e chegou ao dia da votação com a fama de "fujão". A disputa foi para o segundo turno.

Lula não demorou a admitir que a estratégia havia sido equivocada: o que tentava evitar a todo custo voltou com mais força contra ele nos debates seguintes, contra Geraldo Alckmin, na época no PSDB, quando já não tinha a opção de não participar.

A presença do ex-tucano em sua chapa é um dos muitos indícios de que o debate desta quinta-feira (29/9), na mesma emissora, terá um viés inédito desde a redemocratização.

Lula não quer repetir o erro de 2006 e já confirmou presença. Chegará ao embate fortalecido com uma gama de apoios recolhida nos últimos dias. Não só na classe política, mas também jurídica e artística. Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, e as apresentadoras Xuxa e Angélica puxam a fila.

Mas o esboço de frente ampla em seu entorno não será observado no debate. Lula tende a ser o alvo principal de todos os adversários. Só não será o único porque o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), estará em campo –e todos ali, com exceção de Padre Kelman (PTB), o preposto de Roberto Jefferson, querem provar ao espectador que merecem a confiança de quem não confia no capitão. Bolsonaro chega ao último embate com índice de rejeição, apontado pelo Ipec, superior a 50%. Ou seja: ninguém perderá voto se explorar a ojeriza.

O fato de haver, entre os participantes, dois candidatos já testados como presidentes garante o ineditismo da disputa.

Mas que ninguém duvide: é de Lula que todos ali tentarão tirar uma casca, possivelmente arremessando um caminhão de cascas de banana contra o candidato que tem chances reais de liquidar a fatura já no domingo (2/10).

Isso porque, noves fora o discurso oficial de que é a democracia que está em risco, e que uma eventual reeleição de Bolsonaro será uma estrada aberta a um projeto autoritário, nenhum adversário petista quer ver a eleição acabar dali a três dias.

Sim, todos sabem que a vitória de Lula é a condição básica para que eles disputem o pleito novamente daqui a quatro anos. Mas em política a teoria é outra na prática.

Primeiro porque ninguém ali quer sair menor do que entrou. Ciro Gomes (PDT) sabe que não tem chance de botar o pé no segundo turno, mas está engajado até o último fio dos cabelos que ainda lhe restam a evitar uma desidratação vexatória entre 2018, quando obteve quase 13% dos votos, e agora.

Segundo: se a eleição acabar agora, nenhum dirigente dos partidos dos presidenciáveis receberá na segunda-feira algum emissário dos postulantes finalistas para negociar apoio dali em diante. O valor do passe do MDB de Simone Tebet, por exemplo, para um eventual apoio, com possibilidade de discutir participação em um futuro governo, subirá razoavelmente.

Ninguém imagina também que algum pedetista vai botar o boné com as inscrições “Deus, pátria e família” daqui a alguns dias. Ciro pode viajar para onde quiser, mas os dirigentes de seu partido, um aliado até ontem histórico do PT, não pecariam pela omissão. Mas uma coisa é ficar de fora a partir de segunda-feira; outra é receber um zap de “oi, sumido” já no domingo.

Por isso não faltará artilharia contra o candidato favorito.

Bolsonaro certamente elevará em alguns decibéis os ataques contra Lula, o PT, o globalismo, o socialismo, a tal “ideologia de gênero” e todos os espantalhos que ainda assustam uma parcela razoável do eleitorado. Terá ao seu lado um falso padre para ungir a pista com o óleo do falso moralismo. A essa altura não tem mais nada a perder, a não ser a paciência de quem ainda vê nele um projeto de moderação e compromisso com o país.

Ciro, Tebet e até Soraya Thronicke (União Brasil) seguirão como franco atiradores. A ordem dos sopapos será definida apenas por sorteio.

No debate da TV Bandeirantes, no começo da campanha, Lula deixou sem resposta acusações graves levantadas por Bolsonaro no campo da corrupção. Terá a seu favor algumas cartas relacionadas a graves suspeitas envolvendo o presidente e seus familiares, como a compra de imóveis com dinheiro vivo.

Mas não erraria quem apostasse que essa é uma carta que Lula fará de tudo para não usar. Afinal de contas, foi a compra frustrada e controversa de um apartamento no Guarujá que o levou à prisão.

Não será fácil encontrar um ponto de equilíbrio entre defesa e ataque. Principalmente quando o ataque virá de todos os lados.

Lula tem se fiado até aqui na imagem de candidato que veio em missão de paz –um ativo em falta desde que o atual presidente decidiu que poderia ameaçar tudo e todos, inclusive a Justiça Eleitoral, se sua vontade não for obedecida pelos eleitores.

Este é o grande contraponto da campanha até aqui. Um candidato alvejado que devolve na mesma moeda pode colocar em risco um detalhe importante de uma campanha a ser decidida nos detalhes.

Não responder não é uma opção. Ainda mais diante do vacilo embutido em uma série de declarações de voto a favor do petista observado nos últimos dias – a manifestação de Angélica, que antes de anunciar sua decisão disse ter sofrido demais, é um exemplo.

Como todos os anos, este será o debate com maior audiência do pleito. Na multidão de espectadores estará o naco de eleitores que ainda não decidiram em quem votar. E eles nunca tiveram tanto peso.

Ninguém dos candidatos pode errar. Principalmente quem entra com a vantagem do empate e o regulamento debaixo do braço.