O que esperar da luta antirracista em 2020, por Bianca Santana

A jornalista Bianca Santana. Foto: Caroline Lima

Texto / Redação I Edição / Simone Freire I Imagem / Caroline Lima | Colaboração / Pedro Borges

Não faltarão desafios para a luta antirracista em 2020. As eleições municipais e um segundo ano de governo do presidente Jair Bolsonaro tende a desafiar ainda mais a mobilização do movimento negro brasileiro.

Jornalista, escritora e integrante da Coalizão Negra por Direitos, que reúne movimentos negros de todo o país, Bianca Santana fala ao Alma Preta sobre a agenda, perspectivas e desafios da organização para o ano que vem, e também para a próxima década. 

Confira a entrevista!

Representatividades

O Movimento Negro é muito plural e ele se articula de muitas formas diferentes. Falando sobre a Coalizão Negra por Direitos, sobre estas mais de 100 entidades do Brasil todo que se reúnem, a gente, obviamente, quer aprofundar a incidência política tanto no Congresso Nacional, quanto nas instâncias internacionais, mas, agora, compreendendo um pouco mais como é que vai se dar a ação de incidência política nos estados. Este é um objetivo para 2020. A gente continua no Congresso, nas instâncias internacionais e aprofunda nos estados.

Luta histórica

Sempre que a gente olha para as mortes é o povo negro o mais afetado. Pelo que a gente tem conversado na Coalizão, pelas conversas que tivemos em nosso encontro internacional, é prioritário interromper o genocídio do povo negro. Ainda vivemos uma política de morte escancarada: de pessoas LGBTQIs — uma a cada 19 horas, por assassinato ou suicídio —, de quilombolas — que aumentou 350% entre 2016 e 2017—, da juventude negra — com um assassinato a cada 23 minutos —, das mulheres negras vítimas de feminicídio — com um aumento de 54% entre 2003 e 2013, enquanto entre mulheres brancas diminuiu 9,8%.

Estruturante

Também tem o Censo de 2020 [cujo questionário sofre graves alterações do governo Bolsonaro sob a justificativa de que é preciso haver cortes de orçamento]. É muito importante a gente manter as perguntas que tratam de cor de pele e raça, e também entender classe e gênero. Não se pode diminuir perguntas do Censo porque se não a gente corre o risco de não compreender como vive a população brasileira e o que é que marca as diferenças e a desigualdade na própria população brasileira. As perguntas que me permitem perceber que a população negra é a mais pobre e a mais vulnerável, a [pergunta] que atravessa raça, quando eu conecto com outros dados eu percebo como é a vida do povo negro no Brasil. Então eu preciso manter as perguntas para que eu tenha  dados e consiga produzir análises. É importantíssimo não reduzir o Censo para eu não deixar de compreender os detalhes que caracterizam a população brasileira para que eu poder estruturar políticas públicas para enfrentar estes problemas. Se eu não tenho a pergunta, eu não tenho o diagnóstico, eu não sei como atacar as desigualdades e o racismo que é tão estruturante no Brasil. 

Eleições

Também é importante a gente olhar para as eleições. Em 2020 a gente precisa de muito mais candidaturas de negros e negras mas, principalmente, de condição para que as pessoas negras sejam eleitas. A gente precisa de vereadores, vereadoras e prefeitos negros progressistas e comprometidos com a luta antirracista. O poder e a política institucional ainda estão muito distantes de 54% da população.

Online

Acho que é uma pauta também a gente compreender a segurança dos movimentos negros. A gente tem visto e percebido que a criminalização dos movimentos sociais tem crescido e é importante que a gente se prepare para garantir que a luta continue.  Os usos que grupos feministas e do movimento negro fazem das redes facilitam as articulações políticas e a disseminação de conteúdos, mas também podem nos tornar mais vulneráveis à vigilância e às perseguições a movimentos sociais. Cuidar de quem cuida e a defesa de defensoras e defensores de direitos humanos me parece,  assim, condicionantes para que tenhamos avanços na próxima década. 

Transversal

O Brasil tem hoje 812  mil pessoas presas, a maior parte delas na chamada guerra às drogas, que encarcera e condena negras, negros e pobres. A gente também precisa priorizar uma nova política de drogas no país porque a população negra é assassinada e encarcerada com esta “desculpa”. Então a discussão da segurança pública, de nova política de drogas e contra o encarceramento é também primordial quando a gente fala de interromper o genocídio do povo negro.

E a pergunta que não quer calar…

E será que na próxima década saberemos, finalmente, quem mandou matar Marielle?