O que está acontecendo no Cazaquistão, onde a população tomou as ruas

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Polícia disparando contra manifestantes cazaques nesta quarta
Polícia disparando contra manifestantes cazaques nesta quarta; protestos começaram após aumento no preço dos combustíveis

Em meio ao aumento das tensões no Cazaquistão, forças de segurança informaram ter matado dezenas de manifestantes antigoverno em uma operação para restaurar a ordem na principal cidade do país, Almaty.

A ofensiva ocorreu depois que os manifestantes tentaram assumir o controle de delegacias, disse uma porta-voz da polícia. Pelo menos 18 membros das forças de segurança morreram em confrontos na cidade.

Segundo o governo cazaque, 2.298 manifestantes foram detidos no país.

Os protestos nesta e em outras partes do país são motivadas pelo aumento do gás liquefeito de petróleo (GLP), que dobrou de valor.

Em entrevista à agência de notícias AFP, Saule, uma mulher de 58 anos que trabalha no ramo da construção civil, afirmou ter visto forças de segurança abrindo fogo contra manifestantes.

"Vimos mortes", ela relatou. "De uma vez, cerca de 10 pessoas foram mortas."

A Rússia enviou tropas a pedido do presidente do Cazaquistão. O objetivo, segundo o governo russo, é "estabilizar" o país, que é membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), junto com Rússia, Belarus, Tadjiquistão, Quirguistão e Armênia.

A OTSC confirmou que paraquedistas russos estavam sendo enviados como soldados da paz, com unidades avançadas já posicionadas.

Há previsão de envio de 2,5 mil soldados ao Cazaquistão, segundo alguns relatos.

Rancor político

Os protestos começaram no domingo (2/1), quando o governo elevou o teto de preço do GLP, que muitas pessoas usam para abastecer seus carros, mas a agitação social desde então passou a incluir queixas políticas.

Acusando "gangues terroristas" treinadas por estrangeiros de estarem por trás das manifestações, o presidente cazaque, Kassym-Jomart Tokayev, impôs um estado de emergência em todo o país, o que inclui toque de recolher e proibição de reuniões em massa.

Tokayev anunciou que procurou a ajuda da OTSC e seu presidente, o primeiro-ministro armênio Nikol Pashinyan, confirmou que a aliança enviaria forças de paz "por um período limitado de tempo".

O presidente cazaque é apenas a segunda pessoa a liderar o Cazaquistão desde que o país declarou independência da extinta União Soviética em 1991. Sua eleição, em 2019, foi condenada pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) por mostrar pouco respeito pelos padrões democráticos.

Grande parte da raiva nas ruas, no entanto, parece ser dirigida a seu antecessor, Nursultan Nazarbayev, que ocupou um poderoso papel na segurança nacional desde que deixou o cargo. Na quarta-feira (4/1), ele foi demitido em uma tentativa de conter a crescente agitação e todo o governo também renunciou.

Manifestantes foram ouvidos gritando o nome de Nazarbayev, enquanto um vídeo mostrando pessoas tentando derrubar uma estátua gigante de bronze dele em Taldykorgan, sua região natal, foi compartilhado online.

Obter informações sobre o que está acontecendo no país da Ásia Central tem sido dificultado pelo que grupos de monitoramento descrevem como um "apagão da Internet em escala nacional".

Carro de polícia incendiado em Almaty
Carro de polícia incendiado em Almaty; recuo do governo não fez os protestos arrefecerem até agora

A porta-voz da polícia de Almaty, Saltanat Azirbek, pediu às pessoas que ficassem em casa temporariamente, enquanto uma operação "contraterrorista" continuava em três prédios administrativos na quinta-feira.

Dezenas de manifestantes foram contidos depois de tentarem invadir prédios da polícia na cidade, disse ela, acrescentando que armas foram roubadas.

Segundo informações oficiais, cerca de mil pessoas ficaram feridas nos distúrbios. Desse total, pelo menos 400 foram hospitalizadas e 62 estão na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Os manifestantes também invadiram o gabinete do prefeito em Almaty, onde vídeos nas redes sociais mostraram uma nuvem de fumaça subindo do prédio, enquanto tiros podiam ser ouvidos.

Os funcionários do principal aeroporto do Cazaquistão tiveram que fugir de manifestantes antigoverno.

Já na cidade de Aktobe, no oeste do país, canhões de água foram usados contra manifestantes. Há relatos de que as forças de segurança apoiaram manifestantes em alguns lugares.

Origem das manifestações

Os protestos começaram depois que autoridades da ex-república soviética revogaram limites de preços do gás GLP, usado por muitas pessoas como combustível para carros, e causando aumento nos preços aos consumidores.

As manifestações eclodiram no domingo em apenas uma parte do país, mas já na terça-feira (4/1) a maioria das cidades cazaques registrava protestos em massa e confrontos com a polícia.

Esses confrontos rapidamente se tornaram violentos: a polícia usou gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral contra uma multidão de milhares de pessoas em Almaty.

Centenas delas - tanto manifestantes quanto policiais - ficaram feridas.

Nesta quarta-feira, foi declarado estado de emergência em várias partes do país, enquanto milhares de pessoas continuavam a tomar as ruas. A internet ficou fora do ar em diversos lugares, segundo relatos de moradores.

O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, prometeu abaixar o preço dos combustíveis para "garantir a estabilidade no país". Mas manifestantes responderam com a invasão do gabinete do prefeito de Almaty, incendiando o local.

Nesta quarta-feira, o presidente afirmou que a instabilidade é causada por "gangues terroristas" treinadas no exterior.

Por que esses protestos são incomuns?

Policiais diante dos protestos em Almaty
Policiais diante dos protestos em Almaty; analista aponta que, sem eleições diretas livres, população só consegue manifestar sua insatisfação nas ruas

Rico em petróleo e gás, o Cazaquistão é o país mais influente da Ásia Central, responsável por 60% do GLP da região. Também é comumente descrito como um Estado autoritário.

É o nono país de maior território do mundo, mas tem uma população relativamente pequena, de 18,8 milhões de pessoas.

O Cazaquistão declarou independência em 1991, durante o colapso da União Soviética. Foi liderado durante muitos anos por Nursultan Nazarbayev, que se tornou primeiro-ministro ainda em 1984, quando o país era uma república soviética.

Nazarbayev depois foi eleito presidente em uma eleição que, na prática, não teve adversários, e sua liderança foi marcada por elementos de culto à personalidade - estátuas dele foram erguidas pelo país, e uma nova capital foi batizada em sua homenagem.

Nazarbayev só deixou o poder em 2019, em meio a raros protestos antigoverno, que ele tentou conter com sua renúncia.

Ainda assim, indicou seu sucessor, o atual presidente Tokayev, em uma eleição que foi alvo de críticas de observadores internacionais.

Embora não esteja mais no poder, Nazarbayev continua sendo uma figura influente, e analistas afirmam que ele é o alvo principal dos atuais protestos.

Nesses três anos desde sua saída do poder, muito pouco mudou - e muitas pessoas no Cazaquistão se ressentem da ausência de reformas, do baixo padrão de vida e das limitações em liberdades civis.

Kate Mallinson, do centro de estudos Chatham House, disse à BBC Rússia que "Nazarbayev tinha uma espécie de acordo social com a população: as pessoas eram leais ao regime porque viam melhoras na situação econômica".

No entanto, agrega, "a partir de 2015, a situação começou a piorar. E, nos últimos dois anos, com a pandemia de covid-19, a taxa de inflação ficou muito alta", batendo os níveis mais altos dos últimos cinco anos e encarecendo o preço dos alimentos.

A maioria das eleições cazaques são vencidas pelo partido governista, com quase 110% dos votos, e não existe oposição efetiva.

Para muitos cazaques, o aumento do GLP, combustível tradicionalmente barato que é usado no transporte público e privado, foi a última gota - e as pessoas foram às ruas para serem ouvidas.

O que os manifestantes querem?

Manifestantes tentam derrubar van durante protesto
Manifestantes tentam derrubar van durante protesto; insatisfação ganhou contornos políticos

Apesar de membros do governo de Tokayev terem renunciado em reação aos protestos e do anúncio de que os preços do GLP voltariam a baixar, os manifestantes não dão sinais de que vão sair das ruas.

Depois da experiência com a renúncia de Nazarbayev em 2019, eles se deram conta de que mudanças no governo não necessariamente trazem os resultados desejados.

A cidade de Zhanaozen, no sudoeste do Cazaquistão, se tornou um dos principais epicentros da insatisfação popular.

Ali já haviam ocorrido grandes manifestações laborais em 2011, quando ao menos 14 trabalhadores da indústria petrolífera foram mortos em confronto com a polícia, e mais de cem ficaram feridos.

Foi em Zhanaozen que ativistas listaram suas demandas: mudanças reais no governo; eleições diretas para cargos locais (atualmente, os governadores regionais são nomeados pelo presidente); retorno à Constituição de 1993 (que limita os poderes e mandatos presidenciais); anistia a manifestantes; permitir que pessoas não ligadas ao regime atual tenham a chance de ascender ao poder.

Não há líderes claros dos protestos. Analistas afirmam que, ao longo de décadas, atos de oposição foram esmagados logo em seus estágios iniciais, e a democracia eleitoral não existe na prática no país.

"Sob condições autoritárias, protestos de rua são uma reação normal da população a medidas econômicas impopulares", explica à BBC Rússia o cientista político Grigorii Golosov, da Universidade Europeia de São Petersburgo (Rússia).

O que pode acontecer agora?

A situação cazaque vai se tornando cada vez mais volátil, embora boa parte dos protestos tenham ocorrido de maneira pacífica até agora - o que pode mudar com a presença de tropas russas.

Para Alexander Baunov, do Carnegie Centre de Moscou, a interpretação dos protestos no Ocidente está condicionada ao fato de o Cazaquistão não ser um tradicional aliado ocidental - por isso, as manifestações serão vistas como "um levante democrático contra um governo opressivo".

"Será difícil que líderes ocidentais não apoiem os manifestantes e que as autoridades cazaques não respondam. O mais provável é que os protestos coloquem o Cazaquistão mais perto (da influência) de Moscou no longo prazo", opina.

Diana Kudaibergenova, pesquisadora na Universidade de Cambridge, vê sinais de que as autoridades cazaques vão tentar reagir aos protestos de modo pacífico.

"Um jeito de pôr fim a isso pacificamente é o presidente se sentando na mesa de negociação com alguns dos manifestantes e as pessoas sentindo que suas vozes estão sendo representadas", diz.

Como grande exportador de combustível e minérios, o Cazaquistão costuma levar em consideração a confiança de investidores externos. E a estabilidade política é um fator-chave para preservá-la.

Ao mesmo tempo, parece que muita gente no país está cansada de viver sob a sombra do ex-presidente Nazarbayev e se mostra pronta para lutar por mudanças mais profundas.

E levantes no Cazaquistão sem dúvida reverberam para o restante da região.

A Chancelaria da Rússia emitiu nota expressando esperança em "uma rápida normalização da situação no Cazaquistão por meio do diálogo" e frisou que "trata-se de um assunto interno do Cazaquistão".

No entanto, já crescem na mídia estatal russa vozes expressando a visão de que os manifestantes cazaques são instigados por "forças do Ocidente".

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