‘O que eu sou até aqui eu construí na Magueira’, diz Leandro sobre renovação com a escola

Geraldo Ribeiro
Leandro Vieira vai para o sexto ano na Mangueira

Uma reunião na manhã desta quarta-feira com a direção da escola selou a renovação do carnavalesco Leandro Vieira com a Mangueira para o carnaval de 2021, conforme antecipou o colunista Alcemo Gois, de O Globo. Com isso, o carnavalesco que deu os dois últimos títulos para a escola (2016 e 2019) vai para o seu sexto ano na verde e rosa. “O eu eu sou até aqui eu construí na Mangueira”, justificou Leandro, que também agradeceu o carinho dos torcedores e da comunidade que perdiram nas redes sociais sua permanência na Estação Primeira.

O carnavalesco que esse ano se desdobrou entre a verde e rosa, que ficou em 6º lugar e voltou no Desfile das Campeãs, e a Imperatriz Leopoldinense, que se sagrou campeã na Série A, confirmou que foi sondado por outras agremiações, mas recusou os convites. O que pesou na escolha pela Estação Primeira, segundo Leandro, foi o desejo de marcar sua assinatura como artista por uma escola. “Quem eu admiro no carnaval treinou assinatura. O Renato (Lage) treinou anos na Mocidade a Rosa (Magalhães), na Impetatriz. Acho que isso também é o entendimento de que o carnavalesco é um artesão de si.

Você está indo para o sexto ano seguido na escola. Como é a sua relação com a Mangueira?

Eu sempre achei bonito esse treino de assinatura que alguns carnavalescos fazem em determinadas escolas. Quem eu admiro no carnaval treinou assinatura. O Renato (Lage) treinou anos na Mocidade a Rosa (Magalhães), na Impetatriz. Acho que isso também é o entendimento de que o carnavalesco é um artesão de si. E ele precisa do treino da sua assinatua. E treinar a assinatura é fazer anualmente. É tentar entender a escola e criar para ela. Isso acaba sendo um compromisso não só do artista com a escola, mas do artista com o artista.

Além da Imperatriz há informações de que você tinha sido sondado por outras escolas. O que pesou na sua decisão de se manter na Mangueira?

— O olhar para a minha trajetória. O artista que olha o artista. O artista que olha o que esse artista quer. E eu estou querendo esse treino, esse exercício. Estou querendo fazer o meu trabalho com coerência comigo.

Houve um pressão também pelas redes sociais para a sua permanência. Como você avalia essa sua parceira não só com a escola, mas também com o público, a comunidade e os torcedores?

Eu acho que isso é uma prova de carinho. Essa manifestação de torcedores e da comunidade é um carinho que me deixa feliz. O que eu sou até aqui eu construí na Mangueira. A verdade é essa. Eu cheguei na Mangueira em 2016 com todas as restrições possíveis dessas pessoas que hoje pedem a minha permanência. Eu acho isso um carinho e isso é importante para mim.

Numa entrevista recente você disse que quer sair da prateleira que te colocaram como um carnavalesco político. Isso significa que para 2021, o público verá um desfila da Mangueira mais próximo do que você mostrou na Imperatriz?

Quando a gente escolhe o que mostrar no nosso trabalho, as pessoas avaliam isso. Mas não exclui todo o resto. E eu ainda tenho muito o que mostrar. O que incomoda é esse rótulo “político”. Espera-se que a pessoa faça a mesma coisa. Que reforce isso. O que é colocar você dentro de uma gaiola. E essa gaiola é muito apertada. Eu estou começando. Estou indo para o sexto carnaval (na Mangueira). Estou me construindo enquanto artista e nessa construção, quero fazer muita coisa. Essa marca política, com um olhar mais distanciado, pode ser um momento do meu trabalho, mas não o que resume o meu trabalho.

Você disse em outra entrevista que vai mudar sua linha de enredo, isso quer dizer que a gente pode esperar para 2021 algo bem diferente do que você mestrou até agora?

Bem diferente do que mostrei até agora não. Embora eu tenha desenvolvido nos últimos anos enredos com a temática política eu nunca deixei de falar do Brasil. Nunca deixei de colocar a cultura brasileira, a sociedade brasileira e de como pensa o Brasil dentro do meu trabalho. Se você olhar todos os meus cinco carnavais na Mangueira encontrará um ponto em comum em todos. Eu sou um artista brasileiro apaixonado pelo Brasil. Só que na intenção de rotular não me rotularam como artista brasileiro mas como artista político. Mas esse artista político é um artista debruçado sobre o Brasil. É o memo que debruçou sobre Bethânia, que é uma artista brasileira, sobre a religiosidade brasileira, que se debruçou sobre o Lamartine Babo, que é um compositor brasileiro. Não é mudar completamente, é mudar alguma coisa, mas mantendo a coerência que eu tenho em enxergar como artista brasileiro que precisa falar sobre para e do Brasil.

Ainda falando de enredo, já definiu o que levará para Avenida em 2021?

Tenho algumas ideias, mas não sei se são as melhores ainda. Não parei ainda para avaliar. Não tenho ainda nada (fechado) que vá ser o enredo. Acabei de sair de um carnaval e quero tirar férias

Na sua conversa com a escola, o assunto enredo chegou a ser tocado. Fizeram algum pedido, deram alguma sugestão?

Não. A única coisa que se falou a respeito de enredo na minha conversa com a escola é que não abro mão dessa liberdade e dessa autonomia da escolha de enredo.

Qual foi a importância pra você de ter feito o carnaval da Imperatriz?

— Foi fundamental pra mim enquanto artista porque em 2013 e 2014 eu era o assistente do carnavalesco da Imperatriz. Era o desenhista da Imperatriz Leopoldinense. Na ocasião fui demitido da escola e essa demissão abriu o caminho que me trouxe até aqui. Fui carnavalesco da Caprichosos (2015) e depois da Mangueira (a partir de 2016) e pude construir minha história dentro da Mangueira. O convite da Imperatriz também rerpresentou voltar no tempo e poder concluir algo, uma história que talvez não tenha ficado definitivamente concluída. Voltar num momento difícil da escola e ter podido contribuir no seu retorno (ao Grupo Especial) e mais que isso, garantir um resgate de identidade e ao autoestima. A Imperatriz é uma escola com relevância para a história do carnaval do Rio de Janeiro.

Você disse que gosta da ideia de produzir um material textual para teorizar sobre os três últimos carnavais da Mangueira. Signifca que você está preparando um livro?

Isso. Estou alimentando essa ideia e conversando com algumas pessoas sobre como tornar isso viável. O carnaval precisa de registro. A memória do carnaval ainda não é muito registrada. As pessoas têm dificuldade de enxergar o desfile de uma escola de samba e as manifestações carnavalescas como uma atividade cultural de alto nível. E por ser uma atividade cultural de alto nível acho que merece esse registro. Merece uma documentação, a produção de um material que registre o trabalho dos artistas envolvidos com a festa. E não é só o meu. São muitos os envolvidos. Não é só o carnavalesco. Tem as costureiras, bordadeiras, carpinteiros, ferreiros, pintores, escultores, aderecistas. Esse trabalho preciso ser registrado e momória disso perpetuada. E eu acho que esses meus últimos três carnavais na Mangueira são importante para a Maguieira e para o entendimento do desfile de uma escola de samba como algo maior do que só uma festa. Meus últumos carnavais são marcados e ficaram caracterirzados como uma possibilidade de uma reflexão.