O que explica sumiço de Jair Bolsonaro enquanto apoiadores botam fogo no país?

Supporters of Brazil's President Jair Bolsonaro block highway BR-251 during a protest against President-elect Luiz Inacio Lula da Silva who won a third term following the presidential election run-off, in Planaltina, Brazil, October 31, 2022. REUTERS/Diego Vara
Apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) bloqueiam BR-251 durante protesto contra vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições. Foto: Diego Vara/Reuters

Ideia para um best-seller do futuro próximo: reconstituir as primeiras 24 horas de Jair Bolsonaro após o resultado das urnas em 30 de outubro de 2022.

Parte da história é conhecida: por margem apertada, o ex-presidente Lula (PT) foi eleito para comandar o país pela terceira vez, um feito inédito.

Após sacramentado o resultado, o ex-metalúrgico, que passou 580 dias preso, celebrou a vitória em uma festa com seus apoiadores na avenida Paulista.

“O povo brasileiro quer viver bem, comer bem, morar bem. Quer um bom emprego, um salário reajustado sempre acima da inflação, quer ter saúde e educação públicas de qualidade. Quer liberdade religiosa. Quer livros em vez de armas. Quer ir ao teatro, ver cinema, ter acesso a todos os bens culturais, porque a cultura alimenta nossa alma. O povo brasileiro quer ter de volta a esperança”, discursou.

Fim da história? Mais ou menos.

A quilômetros dali, o primeiro presidente da República que não conseguiu um novo mandato na disputa pela reeleição se trancou em um bunker particular e deixou um país inteiro a se perguntar por onde anda. Sem notícias dele, parte dos apoiadores decidiu agir por conta própria e trancar as pistas das estradas em protesto contra a eleição de Lula.

Numa dessas viradas surpreendentes de roteiro, não foram sem-terra, sem-teto e outros militantes de movimentos sociais que ganharam as manchetes promovendo desordem, como Bolsonaro sempre acusou a esquerda de fazer, mas seus próprios apoiadores que viam nele um defensor da lei e da ordem. (Não é hilário? Não. Roberto Jefferson, bolsonarista que atirou na polícia quando soube que seria preso por promover a violência e ameaçar uma juíza, pode provar. Carla Zambelli, que perseguiu armada um eleitor pelas ruas, também).

O silêncio do presidente deu margem a todo tipo de rebeliões e também muitas teorias.

Há quem acredite que, enquanto o circo pega fogo, ele esteja apenas descansando e tirando o sono atrasado pelos dias em que realmente trabalhou neste ano – não como presidente, mas como candidato.

Não deve ter sido fácil trocar os finais de semana de passeios de moto e jet ski por uma agenda intensa de encontros com lideranças e apoiadores. Não deve ser fácil também fingir o tempo todo que se importa com parte da população a quem, em outros tempos, queria apenas tirar da vista por meio da pandemia, guerra, das políticas de controle de natalidade e pílulas abortivas.

Cansado, ele pode ter dado início apenas à primeira das muitas das sessões de sonoterapia a que terá direito a partir de agora.

Mas essa é só uma das hipóteses.

Uma outra é que ele simplesmente acreditou que era um enviado divino para a terra e não tinha um plano B na manga em caso de derrota ou negativa quando prometeu ser eleito, se Deus quisesse. Deus e os eleitores não quiseram.

Havia, é verdade, ensaios aqui ou ali de rebelião, como fez seu ídolo Donald Trump ao tomar um toco das urnas nos EUA e iniciar o que desandou na invasão do Capitólio.

Os processos pelos quais respondem os comparsas da tentativa de invadir o Congresso em Washington e conseguir a vitória no muque certamente pesam como sombra aos pastiches brasileiros uma hora dessas. Mas é bom não subestimar o que podem fazer auxiliares que acumularam salários e benefícios e agora não querem voltar à aposentadoria e à vida sem foro privilegiado.

É preciso pensar em plano B, mas pensar não é exatamente o forte da turma.

Esta hipótese exclui a versão sonolenta do personagem do best-seller.

Em vez disso, uma outra teoria é que Bolsonaro não pregou o olho desde que soube que não pode mais dizer que à minoria cabe se curvar à maioria.

Não deve faltar gente, a essa altura, falando aos ouvidos do capitão que a hora do golpe é agora.

Pelo país, uma pequena multidão de caminhoneiros e eleitores revoltados pede que Bolsonaro desça de sua Sierra Maestra e anuncie a revolução por meio de uma intervenção militar e soldados civis armados. Nesse caso, o autor do best-seller seria um dos raros sobreviventes de um país prestes a desaparecer.

Mas o tempo é inimigo: a essa altura, os atores mais relevantes já reconheceram a vitória de seu adversário. Puxam a fila os líderes dos EUA, Europa, China e América Latina. E também os chefes do Judiciário e do Legislativo Brasileiro.

Até a emissora que se comportou como trincheira do bolsonarismo nas últimas semanas reconheceu e exigiu, de parte do (ainda presidente), o reconhecimento da derrota.

Mas, passado um dia e meio desde o revés, Bolsonaro não havia dado as caras nem dito o que pretendia fazer ou não fazer.

Talvez esteja ocupado demais para se preocupar agora com assuntos menores como transição, respeito ao rito democrático e alternância de poder. E esteja curtindo a fossa ao som de Leonardo e um balde de leite condensado.

Bolsonaro nunca soube se comportar como presidente desde que foi eleito.

Talvez seja demais esperar que ele se comporte como se espera de um presidente não reeleito.

Nos bolões de aposta há quem imagine que ele uma hora dessas está apenas sozinho em seu quarto brincando com seus hominhos dos Comandos em Ação. E que a transição já tenha começado à sua revelia, enquanto alguém é escalado para entreter o presidente e evitar que ele cometa alguma loucura.

Talvez nunca saibamos de fato o que fez, falou, ouviu, pensou e como agiu Jair Bolsonaro nas primeiras horas após as eleições.

Teria reunido seus auxiliares em um bunker, como no filme “A Queda”, para passar a última descompostura pelos erros estratégicos da campanha? Teria corrido para queimar arquivos sob sigilo que possam ser abertos daqui a dois meses, e não a cem anos?

Teria simplesmente fugido pela porta dos fundos e, como um personagem de Peter Sellers, descoberto que havia um mundo longe de seu jardim regado a ódio e começado a viver e descobrir as coisas boas e simples do mundo aos 67 anos?

Redes de fofoca, dessas que fazem das pegadas nas redes sociais um sistema próprio de apuração jornalística, garantem que uma grande crise em família impede Bolsonaro de priorizar as urgências do país neste momento.

Isso porque a primeira-dama Michelle Bolsonaro teria deixado de seguir o marido e um de seus filhos no Instagram. Em seguida, publicou uma mensagem enigmática na mesma rede. Crise na Vivendas da Barra? Ninguém sabe ao certo. Tem coisas que só Dalton Trevisan poderia antever da fechadura da alcova para dentro.

Tudo isso dá um bom roteiro para livros e filmes no futuro.

Nenhum deles será melhor do que o imaginado pelo cientista Carlos Hotta no Twitter: “um filme onde o presidente autoritário perde as eleições, foge no porta-malas de um carro, para ficar preso na estrada por causa de manifestações de caminhoneiros protestando ao seu favor”.

Não seria demais?

Como thriller, a história do Brasil sob Bolsonaro daria um ótimo filme de ficção.

Uma pena que, no encontro entre suposições, realidades e absurdos, esse país já virou roteiro de uma triste série documental baseada em alucinógenos e fatos reais.