O que falta para termos uma vacina contra o novo coronavírus?

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Em alguns locais do mundo, como na Austrália, voluntários participam de testes preliminares da vacina (Paul Kane/Getty Images)
Em alguns locais do mundo, como na Austrália, voluntários participam de testes preliminares da vacina (Paul Kane/Getty Images)

Por Nathan Fernandes

O Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército já produziu mais de 2,2 milhões de comprimidos de cloroquina. A pedido do presidente Jair Bolsonaro, a fabricação deve aumentar para 1 milhão de comprimidos por semana. Mesmo com avisos de especialistas sobre a necessidade de maiores estudos, a medida foi tomada como forma de combate à pandemia do novo coronavírus — mostrando que o ocupante da cadeira presidencial é alheio a recomendações, como deixou claro ao demitir o ministro Luiz Henrique Mandetta.

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Tratar a cloroquina como uma espécie de vacina não muda o fato de que médicos e cientistas pouco sabem sobre sua eficácia. “Todo o carnaval que está sendo feito em cima da cloroquina é baseado em estudos péssimos, fracos, de qualidade metodológica bastante baixa”, afirma o infectologista Rico Vasconcelos, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “A questão é que sempre que existe uma lacuna no conhecimento — e no caso do coronavírus são várias — as pessoas querem forçar verdades para caber ali.”

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A pressa, nesse caso, não só é inimiga da perfeição, como também pode piorar o que já está ruim. No dia 13, um estudo feito em Manaus pela Equipe CloroCovid-19, formada por cientistas de várias instituições, precisou ser interrompido depois que alguns pacientes apresentaram efeito colaterais como arritmias cardíacas.

Atualmente, não existe um tratamento específico para doentes de Covid-19. “Enquanto a imunidade da pessoa não consegue eliminar o vírus do corpo, temos que mantê-la viva. Se ela tem insuficiência respiratória, damos oxigênio, por exemplo; se tem insuficiência renal, fazemos hemodiálise, e assim vai... Isso é suporte, fazemos isso enquanto o corpo da própria pessoa resolve a infecção sozinho”, afirma Vasconcelos.

Imunização racional

Diante do crescente número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, o desenvolvimento de uma vacina se torna cada vez mais urgente. Segundo a Organização Mundial de Saúde, existem, pelo menos, 41 pesquisas avançadas de vacinas sendo desenvolvidas no mundo hoje — duas delas já contam com testes em humanos, nos Estados Unidos e na China. Os cientistas estimam que há chances, ainda que limitadas, de existir uma imunização aprovada em até dois anos, o que seria um recorde incomum.

Com investimento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, dois pólos de pesquisa se destacam no Brasil: o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (INCTV), que conta com pesquisadores da Fiocruz Minas. Cada um desenvolvendo uma estratégia diferente.

“São instituições bem relacionadas. Nossa ideia é que, talvez, no final do projeto, a gente use uma combinação das duas estratégias”, explica o pesquisador Ricardo Gazzinelli, líder do Grupo de Imunopatologia da Fiocruz Minas, coordenador do INCTV e presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia. “Pode ser que uma delas já seja suficiente, mas são duas frentes diferentes trabalhando no mesmo objetivo.”

O grupo mineiro pesquisa o uso do vírus da influenza para gerar uma resposta imunológica contra ao novo coronavírus. A ideia é que, além de um vacina contra a Covid-19, os pesquisadores tenham também uma vacina contra a gripe comum. Já os paulistas estudam partículas semelhante ao vírus (VLPs, na sigla em inglês), que não se multiplicam, mas que induzem a uma forte resposta imunológica.

“Desenvolver uma vacina não é produzir, industrializar. Primeiro, existe a parte conceitual, com hipóteses científicas que precisam ser testadas. Se eu fizer um anticorpo errado contra esse vírus, eu posso facilitar o crescimento dele”, explica o imunologista Jorge Kalil, diretor do InCor, que lidera a equipe de pesquisadores da USP.

“No exterior, as pesquisas têm mais dinheiro, isso pode acelerar as coisas, mas, como a gente não sabe qual é o alvo certo, os pesquisadores que testam em humanos não estão necessariamente na frente. É como se você estivesse em São Paulo, sem saber seu objetivo de chegada. Você pega a estrada para Porto Alegre, mas o destino certo seria o Rio de Janeiro. A pessoa pode sair na frente, mas não quer dizer que esteja indo para o lado correto.”

Nem Kalil, nem Gazzinelli acreditam no desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz em menos de dois anos.

“Para você ter uma ideia, começamos a fase 3 da vacina para dengue [a última fase de testes em humanos] em 2016, já estamos em 2020 e esse estudo ainda não terminou, porque tivemos uma alteração na incidência da doença”, explica Kalil, que foi diretor do Instituto Butantan.

Cientistas esperam, no entanto, que o crescimento dos casos de Covid-19 acelerem os processos de pesquisa e burocracias necessárias para o desenvolvimento da vacina. Além disso, é importante que Brasil garanta seu próprio método de imunização. “Há uma demanda mundial enorme. Mesmo que os EUA produzam uma vacina, qual seria a disponibilidade para nós? Eles terão as prioridades deles, então é fundamental que a gente continue trabalhando”.

De acordo com os órgãos mundiais de saúde, enquanto não existe uma vacina, o distanciamento social ainda é a forma mais eficaz de manter a população segura, já que diminui a disseminação do vírus e ajuda a evitar o colapso do sistema de saúde. Como lembra Gazzinelli, ainda não existe fórmula mágica para salvar a humanidade. “Essa história da Covid-19 ainda é muito nova. Por enquanto, não temos certezas, todos estão aprendendo.”

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